quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Che Guevara - Pronunciamento ao Conselho Interamericano de Estudos Sociais - 8 de agosto de 1961) - Parte II

Pronunciamento diante do CIES (Conselho Interamericano de Estudos Sociais)
(8 de agosto de 1961) 


Segunda parte


Senhor delegado de Cuba: Bem, senhor Presidente. 

É necessário explicar o que é a Revolução cubana, o que é este fato especial que fez ferver o sangue dos impérios do mundo e também ferver o sangue, mas de esperança, dos despossuídos do mundo, pelo menos. 

É uma Revolução Agrária, anti-feudal e antiimperialista, que foi se transformando imperiosamente, por conta de sua evolução interna e de suas agressões externas, em uma revolução socialista e que a proclama assim, diante da face da América: Uma revolução socialista. Uma revolução socialista que tomou a terra do que tinha muito e a deu ao que estava assalariado nessa terra, ou a distribuiu em cooperativas entre outros grupos de pessoas que não tinham nem sequer terra onde trabalhar, mesmo que fosse como assalariado. 

É uma revolução que chegou ao poder com seu próprio exército e sobre as ruínas do exército da opressão; que sentou no poder, olhou ao seu redor, e dedicou-se, sistematicamente, a destruir todas as formas anteriores de ditaduras de uma classe exploradora sobre a classe dos explorados, destruiu o exército totalmente, como casta, como instituição, não como homens, salvo os criminosos de guerra, que foram fuzilados. Também em face à opinião pública do continente e com a consciência bem tranquila. 

É uma revolução que reafirmou a soberania nacional e, pela primeira vez, apresentou para si e para todos os povos da América, e para todos os povos do mundo, a reivindicação dos territórios injustamente ocupados por outras potências. 

É uma revolução que tem uma política externa independente, que vem aqui, a esta reunião de Estados Americanos, como mais um entre os latino-americanos; que vai à reunião dos países não alinhados como um de seus membros importantes e que senta nas deliberações com os países socialistas, que a consideram como um país irmão. 

É, pois, uma revolução com características humanistas. É solidária com todos os povos oprimidos do mundo; solidária, senhor Presidente, porque também dizia Martí: «Todo homem verdadeiro deve sentir na face o golpe dado a qualquer face de um homem.» E cada vez que uma potência imperial avassala um território, está dando uma bofetada em todos os habitantes desse território. 

Por isso nós lutamos pela independência dos países, lutamos pela reivindicação dos territórios ocupados. Apoiamos o Panamá, que tem um pedaço de seu território ocupado pelos Estados Unidos. Chamamos de Ilhas Malvinas, e não de Falkland, às do sul da Argentina, e chamamos de Ilha do Cisne àquela que os Estados Unidos arrancaram de Honduras e de onde nos está agredindo por meios telegráficos e radiofônicos. 

Lutamos constantemente aqui, na América, pela independência das Guianas e das Antilhas Britânicas, onde aceitamos o fato da independência de Belize, porque a Guatemala já renunciou a sua soberania sobre esse pedaço de seu território; e lutamos também na África, na Ásia, em qualquer lugar do mundo onde o poderoso oprime ao mais fraco, para que o mais fraco alcance sua independência, sua autodeterminação e seu direito a organizar-se como Estado soberano. 

Nosso povo, permitam que lhes digamos, quando da ocasião do terremoto que assolou o Chile, buscou ajudá-lo na medida de suas forças, com seu produto único, com o açúcar. Uma ajuda pequena, mas que, entretanto, foi uma ajuda que não exigia nada; foi simplesmente a entrega ao país irmão, ao povo irmão, de algo de alimento para suportar essas horas angustiosas. Nem nos tem que agradecer por nada esse povo e, ainda menos, nos deve algo. Nosso dever fez que entregássemos o que entregamos. 

Nossa revolução nacionalizou a economia nacional, nacionalizou todo o comércio exterior, que está agora em mãos do Estado, e dedicou-se a sua diversificação, comercializando com todo o mundo; nacionalizou o sistema bancário para ter em suas mãos um instrumento eficaz para exercer tecnicamente o crédito de acordo com as necessidades do país. Faz seus trabalhadores participarem na direção da economia nacional planificada e realizou, faz poucos meses, a Reforma Urbana, por meio da qual entregou a cada habitante do país a casa onde residia, tornando-o dono dela com a única condição de pagar o mesmo que estava pagando até esse momento, de acordo com uma tabela, durante determinado número de anos. 

Tomou muitas medidas de afirmação da dignidade humana, incluindo entre as primeiras a abolição de a discriminação racial, que existia, senhores delegados, de uma forma sutil, mas existia. As praias de nossa ilha não serviam para que se banhassem o negro nem o pobre, porque pertenciam a um clube privado, e vinham turistas de outras praias, que não gostavam de se banharem com os negros. 

Nossos hotéis, os grandes hotéis de Havana, que eram construídos por companhias estrangeiras, não permitiam que dormissem negros ali, porque os turistas que vinham de outros países não gostavam de negros. 

Assim era nosso país; a mulher não tinha nenhuma sorte de direito igualitário; ganhava menos por trabalho igual, era descriminada como na maioria de nossos países americanos. 

A cidade e o campo eram duas zonas em permanente luta e dessa luta o imperialismo extraía a força de trabalho suficiente, a ser mal paga e com atraso. 

Nós realizamos uma revolução nisso tudo e realizamos, também, uma autêntica revolução na educação, cultura e saúde. Neste ano, será eliminado o analfabetismo em Cuba. Cento e quatro mil alfabetizadores de todas as idades alfabetizam um milhão e duzentos e cinquenta mil analfabetos, porque em Cuba realmente havia analfabetos, muitos mais de os que as estatísticas oficiais de tempos anteriores diziam. 

Este ano, o ensino primário será gratuito e obrigatório, convertemos os quartéis em escolas; realizamos a reforma universitária, dando livre acesso a todo o povo à cultura superior, às ciências e à tecnologia moderna, fizemos uma grande exaltação dos valores nacionais, diante da deformação cultural produzida pelo imperialismo e as manifestações de nossa arte recebem os aplausos de todos os povos do mundo de todos não, em alguns lugares não deixam que entrem—, exaltação do patrimônio cultural de toda nossa América Latina, que se manifesta em prêmios anuais dados a literatos de todas as latitudes de América, e cujo premio de poesia, senhor Presidente, foi ganho pelo renomado poeta Roberto Ibáñez [1], no último confronto; estendemos a função da medicina em benefício de camponeses e trabalhadores urbanos humildes; esportes para todo o povo, [política] que se reflete em 75 000 pessoas desfilando no 25 de julho em uma festa desportiva realizada em homenagem ao primeiro cosmonauta do mundo, Yuri Gagarin; a abertura das praias populares, a todos, evidentemente, sem distinção de cor nem de ideologia e, além disso, gratuita; e os círculos sociais operários, nos que foram transformados todos os círculos exclusivistas de nosso país, que eram muitos. 

Bem, senhores técnicos, companheiros delegados, chegou a hora de se referir à parte econômica das discussões. O ponto I é muito amplo. Feita também por técnicos muito inteligentes é a planificação do desenvolvimento econômico e social na América Latina. A primeira incongruência que observamos no trabalho é expressa nesta frase: «Às vezes é expressa a ideia de que um aumento no nível e diversidade da atividade econômica acarreta necessariamente na melhoria das condições sanitárias. Entretanto, o grupo é da opinião de que a melhoria das condições sanitárias não somente é desejável em si mesma, mas constitui um requisito essencial, prévio ao crescimento econômico, e deve formar, assim, parte essencial dos programas de desenvolvimento da região.»

Isso, por outro lado, encontra-se refletido, também, na estrutura dos empréstimos do Banco Internacional de Desenvolvimento, pois na análise que fizemos dos 120 milhões emprestados em primeiro lugar, 40 milhões, isto é, um terço, correspondem diretamente a empréstimos desse tipo; para casas de habitação, para aquedutos, redes de esgoto. 

É um pouco... eu não sei, mas eu qualificaria quase como uma condição colonial. Tenho a impressão de que se pensa fazer a latrina como uma coisa fundamental. Isso melhora as condições sociais do pobre índio, do pobre negro, do pobre individuo que vive em uma condição subumana; «vamos a fazer-lhe latrinas e então, depois que lhe façamos latrinas, e depois a que a sua educação tenha permitido que a mantenha limpa, então poderá gozar dos benefícios da produção.» Porque é notável, senhores delegados, que o tema da industrialização não figura na análise dos senhores técnicos. Para os senhores técnicos, planificar é planificar a latrina. O resto, quem sabe quando que será feito! 

Se me permite o senhor Presidente, lamentarei profundamente, em nome da delegação cubana, ter perdido os serviços de um técnico tão eficiente como o que dirigiu este primeiro grupo, o doutor Felipe Pazos. Com sua inteligência e sua capacidade de trabalho, e nossa atividade revolucionária, em dois anos Cuba seria o paraíso da latrina, mesmo se não tivéssemos nenhuma das 250 fábricas que estamos começando a construir, mesmo se não tivéssemos feito a Reforma Agrária. 

Eu me pergunto, senhores delegados, se não se pretende tirar sarro, não de Cuba,— porque Cuba está à margem, já que a Aliança para o Progresso [2] não está com Cuba, mas contra ela, e não é estabelecido dar sequer um centavo a Cuba—, mas sim de todos os outros delegados. 

Não há um pouco de impressão de que lhes estão tirando sarro? Dão-se dólares para fazer estradas, dão-se dólares para fazer caminhos, dão-se dólares para fazer esgotos; senhores, com o que são feitos os esgotos? Não é preciso ser um gênio para isso. Por que não se dão dólares para equipamentos, dólares para maquinarias, dólares para que nossos países subdesenvolvidos, todos, possam converter-se em países industriais, agrícolas, de uma vez? Realmente, é triste. 

Na página 10, nos elementos de planificação do desenvolvimento, no ponto VI, é estabelecido quem é o verdadeiro autor deste plano. 

Diz o ponto VI: «Estabelecer bases mais sólidas para a concessão e utilização de ajuda financeira externa, especialmente o proporcionar critérios eficazes para avaliar projetos individuais.»

Nós não vamos estabelecer as bases mais sólidas para a concessão e utilização, porque nós não somos, são os senhores os que recebem, não os que concedem, e nós quem olhamos, e os que concedem são os Estados Unidos. Então, este ponto VI é redigido diretamente pelos Estados Unidos e este é o espírito de toda esta construção chamada ponto I. 

Mas bem, quero fazer constar uma coisa; falamos muito de política, denunciamos que há aqui uma confabulação política; em conversas com os senhores delegados pontuamos o direito de Cuba da expressar estas opiniões, porque se ataca diretamente Cuba no ponto V. 

Entretanto, Cuba não vem, como dizem alguns jornais o muitos porta-vozes de empresas de informação estrangeira, para sabotar a reunião. 

Cuba vem para condenar o condenável a partir do ponto de vista dos princípios, mas vem também para trabalhar harmonicamente, se é que é possível, para conseguir corrigir isto, que nasceu muito torto, e está disposta a colaborar com todos os senhores delegados para corrigi-los e fazer um bonito projeto. 

O honroso senhor Douglas Dillon [3], em seu discurso, citou o financiamento, porque é importante. Nós, para que nos juntemos todos para falar de desenvolvimento, temos que falar de financiamento, e todos nos juntamos para falar com o único país que tem capitais para financiar. 

Diz o senhor Dillon: «Olhando nos anos vindouros todas as fontes de financiamento externo entidades internacionais, Europa e Japão, assim como a América do Norte, os novos investimentos privados e os investimentos dos fundos públicos—, se a América Latina toma as medidas internas necessárias, condição prévia, poderá logicamente esperar que seus esforços» — não é tampouco que, se toma as medidas, está feito, mas sim que «poderá logicamente esperar» —, «serão igualados por um fluxo de capitais da ordem de pelo menos 20 bilhões de dólares nos próximos dez anos. E a maioria desses fundos procederão de fontes oficiais.»

Isto é o que há? Não, o que há são 500 milhões aprovados, isto é do que se fala. Bem, há que pontuar isto bem, porque é o centro da questão. O que querem dizer? —E eu garanto que não pergunto por nós, mas sim pelo bem de todos. O que quer dizer «se a América Latina toma as medidas internas necessárias» e o que quer dizer «poderá logicamente esperar»? 

Acredito que depois, no trabalho das comissões ou no momento em que o representante dos Estados Unidos julgue oportuno, haverá que deixar um pouco mais claro este detalhe, porque 20 bilhões é uma cifra interessante. É nada menos que 2/3 da cifra que nosso Primeiro Ministro anunciou como necessária para o desenvolvimento da América; um pequeno empurrãozinho e chegamos aos 30 bilhões. Mas é preciso chegar a esses 30 bilhões contantes y sonantes [4], um a um, nos tesouros nacionais de cada um dos países da América, menos esta pobre cinderela, que, provavelmente, não receberá nada. 

Aí é onde nós podemos ajudar, não num plano de chantagem, como se está afirmando, porque é dito: não, Cuba é a galhinha dos ovos de ouro, está Cuba [presente], enquanto Cuba estiver [presente], os Estados Unidos dão. Não, nós não viemos com esse intuito, nós viemos trabalhar, tentar lutar no plano dos princípios e das ideias, para que nossos povos se desenvolvam, porque todos ou quase todos os senhores representantes lhe disseram: se a Aliança para o Progresso fracassa, nada pode deter as ondas dos movimentos populares; se a Aliança para o Progresso fracassa, e nós estamos interessados em que não fracasse, na medida em que signifique para América uma real melhoria nos níveis de vida de todos os seus 200 milhões de habitantes. Posso fazer esta afirmação com honestidade e com toda a sinceridade. 

Nós diagnosticamos e previmos a revolução social na América, a verdadeira, porque os acontecimentos estão desenvolvendo-se de outra forma, porque há a pretensão de frear os povos com baionetas e quando o povo sabe que pode tomar as baionetas e voltá-las contra quem as empunha, já está perdido quem as empunha. Mas se o caminho dos povos quer se levar a partir deste do desenvolvimento lógico e harmônico, pelos empréstimos a longo prazo, com juros baixos, como anunciou o senhor Dillon, com 50 anos de prazo, também nós estamos de acordo. 

O único, senhores delegados, é que todos juntos temos que trabalhar para que aqui seja efetivado esse valor e para garantir que o Congresso dos Estados Unidos a aprove; porque que não se esqueçam que estamos diante de um regime presidencial e parlamentar, não é uma ditadura como Cuba onde aparece um senhor representante de Cuba, fala em nome do governo, e há responsabilidade de seus atos; aqui, além disso, tem que ser ratificado ali, e a experiência de todos os senhores delegados é que muitas vezes não foram ratificadas ali as promessas que se fizeram aqui... 

A taxa de crescimento que é apresentada como uma coisa belíssima para toda a América é de 2,5% de crescimento líquido [5]. A Bolívia anunciou 5% para 10 anos, nós parabenizamos o representante da Bolívia e lhe dizemos que com um pouquinho de esforço e de mobilização das forças populares, pode falar em 10%. Nós falamos em 10% de desenvolvimento sem medo algum, 10% de desenvolvimento é a taxa que Cuba prevê nos anos vindouros. 

O que isto indica, senhores delegados? Que se cada um vai pelo caminho que vai, quando a América, que atualmente tem aproximadamente [uma renda] per capita de 330 dólares, vê crescer seu produto líquido em 2,5%, vai ter 500 dólares lá pelo ano de 1980, 500 dólares per capita. Claro que para muitos países é um verdadeiro fenômeno. O que pensa ter Cuba no ano 1980? Pois uma renda líquida per capita de uns 3 mil dólares; mais que os Estados Unidos. E se não acreditam em nós, perfeito, aqui estamos [dispostos] para a competição, senhores. Que nos deixem em paz, que nos deixem desenvolver e que daqui a 20 anos venhamos todos de novo, para ver se o canto da sereia era o da Cuba revolucionária ou era outro. Mas nós anunciamos, responsavelmente, essa taxa de crescimento anual. 

Os especialistas sugerem a substituição de ineficientes latifúndios e minifúndios por fazendas bem equipadas. Nós dizemos: querem fazer a Reforma Agrária? Tomem a terra dos que têm muita e a deem ao que não tem. Assim se faz a Reforma Agrária. O resto é canto de sereia. A forma de fazê-la; se é entregue um pedaço de parcela, de acordo com todas as regras da propriedade privada; se é feita em propriedade coletiva; se é feito um meio-termo — como o temos nós—, isso depende das peculiaridades de cada povo; mas a Reforma Agrária se faz liquidando os latifúndios, não indo colonizar lá longe. 

E, assim, poderia falar da redistribuição da renda que em Cuba se fez efetiva, porque é tirado dos têm mais e lhes é permitido ter mais aos que não têm nada ou aos que têm menos, porque fizemos a Reforma Agrária, porque fizemos a Reforma Urbana, porque baixamos as tarifas elétricas e telefônicas — que, entre parênteses, esta foi a primeira escaramuça com as companhias monopolistas estrangeiras, porque fizemos círculos sociais operários e círculos infantis, onde os filhos dos operários vão receber alimentação e vivem enquanto seus pais trabalham; porque fizemos praias populares e porque nacionalizamos o ensino, que é absolutamente gratuito. Além disso, estamos trabalhando em um amplo plano de saúde. 

De industrialização falarei à parte, porque é a base fundamental do desenvolvimento e assim o interpretamos nós. 

Mas há um ponto que é muito importante —é o filtro, o purificar, os técnicos, acredito que são sete, de novo, senhores, — o perigo da latrinocracia, enfiado no meio dos acordos com os que os povos querem melhorar seus níveis de vida; outra vez políticos disfarçados de técnicos dizendo: aqui sim e aqui não; porque você fez tal coisa e tal coisa, sim, mas na realidade, porque és um fácil instrumento de quem dá os meios; e a ti não, porque fizeste isto mal; mas, na realidade, porque não és instrumento de quem dá os meios, porque dizes, por exemplo, que não podes aceitar como preço de algum empréstimo que Cuba seja agredida. 

Esse é o perigo, sem contar que os pequenos, como em todos os lugares, são os que recebem pouco ou nada. Há, senhores delegados, um só lugar onde os pequenos têm direito ao «pataleo» [6], e é aqui, onde cada voto é um voto, e onde isso há que votá-lo, e podem os pequenos, —se têm a atitude de fazê-lo—, contar com o voto militante de Cuba contra as medidas dos «sete», que são esterilizantes, purificantes e almejam canalizar o crédito com disfarces técnicos por caminhos diferentes. 

Qual é a posição que verdadeiramente conduz a uma autêntica planificação, que deve ter coordenação com todos, mas que não pode estar sujeita a nenhum outro organismo supranacional? Nós entendemos — e assim o fizemos em nosso pais — senhores delegados, que a condição previa para que haja uma verdadeira planificação econômica é que o poder político esteja nas mãos da classe trabalhadora. Esse é o sine qua non [7] da verdadeira planificação para nós. Além disso, é necessária a eliminação total dos monopólios imperialistas e o controle estatal das atividades produtivas fundamentais. Amarrados bem a esses três cabos, passa-se à planificação do desenvolvimento econômico; se não, tudo será perdido em palavras, em discursos e em reuniões. 

Além disso, há dois requisitos que permitirão fazer ou não que este desenvolvimento aproveite as potencialidades dormentes no seio dos povos, que estão esperando acordar. São, por um lado, o da direção central racional da economia por um poder único, que tenha possibilidades de decisão.— Não estou falando de possibilidades ditatoriais, mas sim de possibilidades de decisão — e, por outro, o da participação ativa de todo o povo nas tarefas da planificação. Naturalmente, para que todo o povo participe nas tarefas da planificação, terá que ser todo o povo dono dos meios de produção, se não, dificilmente participará. O povo não quererá, e os donos das empresas onde trabalha, acredito que tampouco.

Bem, podemos falar uns minutos do que Cuba obteve em seu caminho, comercializando com todo o mundo, «indo pelas vertentes do comércio», dizia Martí. 

Nós temos assinados, até o presente momento, créditos de 357 milhões de dólares com os países socialistas e estamos em conversações — que são conversações de verdade — por cento e quarenta e pouco milhões a mais, com os quais chegaremos aos 500 milhões em empréstimos nestes cinco anos. 

Esse empréstimo, que nos dá a posse e o domínio de nosso desenvolvimento econômico, chega, como dissemos, aos 500 milhões— o valor que os Estados Unidos dão à América como um todo somente para nossa pequena república. Isto, referente à República de Cuba, transposto para a América, significaria que os Estados Unidos, para proporcionar ou para fazer o mesmo trabalho, teria que dar 15 bilhões de dólares falo de pesos a dólares, porque em nosso país valem o mesmo. 

Trinta bilhões de dólares em dez anos; a cifra que nosso Primeiro Ministro solicitara e, com isso, se há uma acertada condução do processo econômico, a América Latina, em somente cinco anos, seria outra coisa. 
Continua
 
Traduzido pela equipe do Fuzil contra Fuzil



Notas

[1] Roberto Ibáñez (1907-1978) foi um poeta uruguaio responsável por resgatar a vida e obra de diversos autores uruguaios de destaque, tendo trabalhado como pesquisador e professor da literatura nacional desse país.

[2] Programa de “ajuda” mútua desenvolvido pelos Estados Unidos na América Latina, cujo conteúdo, na prática, era uma forma de buscar contrapor a influência da Revolução Cubana no continente.

[3] Então delegado dos Estados Unidos.

[4] Em espanhol, essa expressão equivale a algo próximo de “em espécie”.

[5] Crescimento do Produto Interno Bruto com desconto da depreciação dos bens de capital construídos.

[6] Em espanhol, algo como fazer escândalo, protestar.

[7] Do latim, “condição {sem a qual não}[IT]” algo é impossível.

sábado, 3 de setembro de 2016

Raúl Castro, o verdadeiro dissidente

Contrariamente a uma ideia amplamente difundida, particularmente no Ocidente, o debate crítico está presente na sociedade cubana.


No Ocidente, Cuba é representada como uma sociedade fechada em si mesma, na qual o debate crítico é inexistente e a pluralidade das ideias é proibida por quem está no poder. Na realidade, Cuba está longe de ser uma sociedade monolítica que compartilharia um pensamento único. Com efeito, a cultura do debate se desenvolve mais a cada dia e é simbolizada pelo Presidente cubano Raúl Castro, que se converteu no primeiro a falar dos reveses, das contradições, aberrações e injustiças presentes na sociedade cubana.

A necessidade de mudança e do debate crítico

Em dezembro de 2010, em uma intervenção diante do Parlamento cubano, Raúl Castro fez um discurso mais alarmista e colocou o governo e os cidadãos frente às suas responsabilidades: “Ou retificamos ou já acabou o tempo de seguir à beira do precipício, nos afundamos, e afundaremos” (1).  Também acrescentou pouco tempo depois: “É imprescindível romper com a barreira psicológica colossal que resulta de uma mentalidade arraigada em hábitos e conceitos do passado”(2).

Raúl Castro também reprovou duramente a debilidade do debate crítico em cuba. Também reprovou os silêncios, a complacência e a mediocridade. Lançou um chamado para maior franqueza: “Não é preciso temer a discrepância de critérios […], as diferenças de opiniões, que […] sempre serão mais desejáveis do que a falsa unanimidade baseada na simulação e no oportunismo. Trata-se de um direito do qual ninguém deve ser privado”. Castro denunciou “o excesso de secretismo a que nos habituamos por mais de 50 anos” para ocultar erros, falhas e equívocos. “É necessário mudar a mentalidade dos quatros e de todos os compatriotas, acrescentou(3).

Sobre os meios de comunicação, disse o seguinte:

"Nossa imprensa fala bastante disso, das conquistas da Revolução, e nos discursos também falamos muito; mas é preciso ir à medula dos problemas […]. Sou um defensor da luta contra o secretismo porque é debaixo desse tapete onde se ocultam as falhas que temos, bem como os interessados de que isso seja assim e de que tudo siga assim. E eu me lembro de algumas críticas; “sim, coloquem no jornal tal crítica”, orientei eu mesmo […]. Imediatamente, a grande burocracia começou a se mover: “Essas coisas não ajudam, demoralizam os trabalhadores”. Quais trabalhadores vão desmoralizar? Como ocorreu em uma ocasião, na grande empresa estatal de leite El Triángulo. Levou semanas, porque um dos caminhões dessa vacaria(4),  que estava lá em Camagüey, estava quebrado, e então todo o leite que se produzia nas vacarias dessa zona, desse lugar, eram jogados a uns porcos que estavam criando. Foi então que eu disse a um secretário do Comitê Central para atender a agricultura nessa etapa, coloque no Granma, conte tudo isso que está acontecendo, faça uma crítica. Alguns vieram mim e até que: “Essas coisas não ajudam porque desmoralizam os trabalhadores”. O que não sabiam era que eu o havia orientado(5).

No dia 1º de agosto de 2011, durante seu discurso de fechamento da VII Legislatura do Parlamento Cubano, Raúl Castro reiterou a necessidade do debate crítico e da controvérsia na sociedade. “Todas as opiniões devem ser analisadas, e quando não se alcançar o consenso, as discrepâncias serão levadas às instâncias superiores facultadas para decidir e, além disso, ninguém está autorizado para impedi-lo(6).  Convidou para acabar com “o hábito do triunfalismo, a estridência e o formalismo ao abordar a atualidade nacional e a gerar materiais escritos e programas de televisão e rádio, que, por seu conteúdo e estilo, chamem a atenção e estimulem o debate na opinião pública” para evitar “materiais entediantes, improvisados e superficiais” nos meios de comunicação(7).

A corrupção

Raúl Castro tampouco se esquivou do problema da corrupção: “Diante das violações da Constituição e da legalidade estabelecida, não resta outra alternativa senão recorrer à Fiscalização e aos Tribunais, como já começamos a fazer, para exigir a responsabilidade dos infratores, sejam quem forem, porque todos os cubanos, sem exceção, somos iguais perante a lei”(8).  Raúl Castro, consciente de que a corrupção também afeta os funcionários do alto escalão, mandou uma mensagem clara aos responsáveis por todos os setores: “É preciso lugar para acabar definitivamente com a mentira e o engano na conduta dos quadros de qualquer nível”. De modo mais insólito, apoiou-se em dois dos dez mandamentos bíblicos para ilustrar seus pontos. “Não roubarás” e “não mentirás”. Do mesmo modo, evocou os três princípios éticos e morais da civilização inca: “não mentir, não roubar, não ser folgado”, os quais devem guiar a conduta de todos os responsáveis da nação(9).

A liberdade religiosa

Da mesma forma, Raúl Castro condenou veementemente as derivas sectárias. Assim, denunciou publicamente por televisão alguns atentados à liberdade religiosa devidos à intolerância “enraizada na mentalidade de não poucos dirigentes em todos os níveis”(10).  Citou o caso de uma mulher, quadro do Partido Comunista com trajetória exemplar, que foi afastada de suas funções em fevereiro de 2011 por sua fé cristã, e cujo salário foi reduzido em 40%, uma clara violação do artigo 43 da Constituição de 1976, que proíbe todo tipo de discriminação. O Presidente da República denunciou assim “o dano ocasionado a uma família cubana por atitudes baseadas em uma mentalidade arcaica, alimentada pela simulação e o oportunismo”. Ao lembrar que a pessoa vítima dessa discriminação havia nascido em 1953, data do ataque ao quartel Moncada pelos partidários de Fidel Castro contra a ditadura de Fulgencio Batista, Raúl Castro disse o seguinte:

"Eu não fui ao Moncada para isso […]. Da mesma forma, recordávamos que o dia 30 de julho, dia da reunião mencionada, eram completados 54 anos do assassinato de Frank País e de seu fiel companheiro Raúl Pujol. Eu conheci Frank no México, voltei a vê-lo na Sierra, não me lembro de ter conhecido uma alma tão pura como essa, tão valente, tão revolucionária, tão nobre e modesta, e dirigindo-me a um dos responsáveis por essa injustiça que cometeram, eu lhe disse: Frank acreditava em Deus e praticava sua religião. Que eu saiba, nunca deixou de fazê-lo. “O que vocês teriam feito com Frank País?”(11)." 

A produtividade, o salário mensal e a libreta de abastecimento

Quanto à produtividade e à política econômica, Raúl Castro admite “uma ausência de cultura econômica na população”, assim como os erros do passado. “Não pensamos em voltar a copiar ninguém. Tivemos muitos problemas ao fazê-lo e porque, além disso, muitas vezes copiamos mal”(12).  O governo cubano dá prova de lucidez quanto às carências em matéria econômica. Reconhece que “a espontaneidade, a improvisação, a superficialidade, o não cumprimento das metas, a falta de profundidade nos estudos de viabilidade e a carência de completude ao empreender uma inversão” atentam gravemente contra a nação(13).

Quanto à renda mensal dos cubanos, Raúl Castro dá provas de ludidez: “O salário ainda é claramente insuficiente para satisfazer a todas as necessidades, pois praticamente deixou de cumprir com seu papel de assegurar o princípio socialista de que cada qual ganhe segundo sua capacidade e receba segundo seu trabalho. Ele favoreceu manifestações de indisciplina social”(14).

Do mesmo modo, o presidente cubano não vacilou ao salientar os efeitos negativos da libreta de abastecimento em vigor desde 1960 – particularmente, “seu nocivo caráter igualitarista”, que se converteu em “um peso insuportável para a economia e em um desestímulo ao trabalho, além de gerar ilegalidades diversas na sociedade”. Também apontou as seguintes contradições: “Como a libreta está projetada para cobrir os mais de 11 milhões de cubanos por igual, não faltam exemplos absurdos, como o café que abastece até os recém-nascidos. O mesmo acontecia com os cigarros até setembro de 2010, quando era fornecido sem distinguir fumantes e não fumantes, propiciando o crescimento desse hábito nocivo na população. Segundo ele, a libreta “contradiz, em sua essência, o princípio da distribuição que deve caracterizar o socialismo, ou seja, “de cada qual segundo sua capacidade, cada qual segundo seu trabalho”. Por isso, “será imprescindível agir para erradicar as profunda distorções existentes no funcionamento da economia e da sociedade em seu conjunto”(15).

A troca geracional

Por outro lado, Raúl Castro também salientou a presença de um problema crucial em Cuba: a troca geracional e a falta de diversidade. Denunciou “a insuficiente sistematicidade e vontade política para assegurar a promoção de mulheres, negros, mestiços e jovens a cargos decisórios, sobre a base do mérito e das condições pessoais. Expressou seu despeito sem se esquivar de sua própria responsabilidade: “Não ter resolvido este último problema em mais de meio século é uma verdadeira vergonha que carregaremos em nossas consciências durante muitos anos”. Portanto, Cuba sofre “as consequência de não contar com uma reserva de substitutos devidamente preparados, com experiência suficiente e maturidade para assumir as novas e complexas tarefas de direção no Partido, no Estado e no Governo”(16).

Todas essas declarações foram feitas ao vivo na televisão cubana em horário nobre. Permitem ilustrar a presença do debate crítico em Cuba no mais lato nível do Estado. Assim, Raúl Castro não é apenas o presidente da nação, mas também – segundo parece – o primeiro dissidente do país e o mais feroz crítico das derivas e imperfeições do sistema.

De Salim Lamrani
Tomado de Opera Mundi

Notas:

1 - Raúl Castro Ruz, «Discurso feito pelo General do Exército Raúl Castro Ruz, Presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, no encerramento do Sexto Período Ordinário de Sessões da Sétima Legislatura da Asambleia Nacional do Poder Popular», República de Cuba, 18 de dezembro de 2010. (site acessado em 2 de abril de 2011).
2 - Raúl Castro Ruz, «Intervenção do General do Exército Raúl Castro Ruz, Presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, no encerramento do X Período de Sessões da Sétima Legislatura da Asambleia Nacional do Poder Popular», 13 de dezembro de 2012. (site acessado em 2 de janeiro de 2013).
3 - Raúl Castro, «Discurso…», 18 de dezembro de 2010, op.cit. N. do T.: estábulo ou local onde vacas são tratadas e seu leite é ordenhado à vista dos compradores. Original: “vaquería”.
4 - Ibid.
5 - Raúl Castro, «Toda resistência burocrática ao estrito cumprimeiro dos acordos do Congreso, respaldados massivamente pelo povo, será inútil», Cubadebate, 1º de agosto de 2011.
6 - Raúl Castro, «Texto integral do Informe Central ao VI Congreso del PCC», 16 de abril de 2011. (site acessado em 20 de abril de 2011).
7 - Raúl Castro, «Toda resistência…», op. cit.
8 - Raúl Castro, «Discurso…», 18 de dezembdo de 2010, op.cit.
9 - Raúl Castro, «Toda resistência…», op. cit.
10 - Ibid.
11 - Raúl Castro, « Discurso… », 18 de dezembro de 2010, op.cit.
12 - Partido Comunista de Cuba, «Resolução sobre os alinhamentos da política econômica e social do partido e a Revolução», op. cit.
13 - Raúl Castro Ruz, « Discurso… », 18 de dezembdo de 2010, op. cit.
14 - Raúl Castro, «Informe central ao VI Congreso del Partido Comunista de Cuba», 16 de abril de 2011. (site acessao em 2 de janeiro de 2013).
15 - Ibid.

domingo, 28 de agosto de 2016

Acesso de Cuba à Internet completa 20 anos.

Apesar das dificuldades impostas pelo bloqueio, pouco a pouco a internet passa a ser cada vez mais acessada na Ilha. Ainda assim, ao contrário do que pode parecer, o acesso dos cubanos tanto às redes externas quanto internas não é novidade.

Nesse 22 de agosto, completa-se 20 anos desde que o pleno acesso de Cuba à Internet ocorreu, através da ligação do IDICT com o GLOBAL-ONE fornecedor dos EUA, por meio de um canal de transmissão 64 Kbs, o que favoreceu significativamente o serviço de e-mails.

Em 1973, Cuba juntou-se ao Centro Internacional de Informação Científica e Técnica dos países membros do Conselho de Assistência Mútua Econômica (CAME), e começou seu trabalho no Sistema Internacional de Informação Científica e Técnica. Neste mesmo ano entra em funcionamento a estação terrestre Caribe, integrada ao sistema Intersputnik  de comunicações por satélites artificiais.

Entre fevereiro de 1983 e maio de 1984, um grupo de especialistas e instituições cubanas e soviéticas começou a realizar um trabalho experimental conjunto para a transmissão automatizada de informações via satélite. Em 1985, instalou-se o Centro Nacional de Intercâmbio Automatizado de Informações, um microcomputador de fabricação Norueguesa para desenvolver gradualmente e testar vários serviços telemáticos, incluindo mensagens eletrônicas. [1]

Em Junho de 1987, estabeleceu-se na província de Matanzas o primeiro equipamento de comunicações desenvolvido em Cuba com a sua própria tecnologia, e permitiu-se o estabelecimento de uma pequena rede experimental ao serviço do Poder Popular Provincial, que funcionou como parte da rede da Academia de Ciências de Cuba (REDACC).

O relatado até aqui mostra os esforços feitos pelo governo cubano desde os anos 1970, para acelerar a introdução de tecnologias que permitissem o desenvolvimento de redes de computadores no país e acesso à informação

Creio que é importante lembrar que, desde 1986, a empresa de telecomunicações dos Estados Unidos, a AT & T, começou a negociar com o governo de seu país a autorização para construir um cabo submarino analógico entre os EUA e Cuba, que substituiria ultrapassado sistema troposférico, única via de comunicação existente entre os dois países na época.

Em meados de 1988 são obtidas as autorizações para a colocação do cabo submarino sem deixar de aplicar o bloqueio tecnológico contra Cuba, porque era um trecho de cabo de tecnologia ultrapassada, recuperado do fundo do mar depois de ser substituído no Atlântico, e com uma capacidade de apenas 143 circuitos, quando as necessidades de tráfego existente eram muito mais elevadas. Não obstante essa discriminação tecnológica, o governo cubano também autorizou a realização da ligação como um esforço a mais para manter as comunicações.

Em 1989, depois de vários meses destinadas a prospecção, projeção, preparação, colocação de cabos e sintonia das estações, conclui-se a instalação do sistema de cabo submarino analógico  entre Cuba e os EUA, o denominado Cabo No 7 .

Apesar disso, este cabo nunca foi posto em serviço já que o governo dos EUA não aprovou um acordo de serviços justo, razoável, equitativo, e em conformidade com as normas internacionais entre os operadores de telecomunicações de ambos os países. Da mesma forma, durante anos impediram com que Cuba fosse conectada a redes de telecomunicações internacionais via cabos de fibra ótica que passam perto da ilha, alguns poucos 30 quilômetros, forçando conexões com uso de satélites, que não só são mais caros, mas que são de banda mais restritas, mantendo as conexões lentas.

Em 1996, Cuba tinha quatro redes com conexões internacionais: Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia (CIGBnet), Centro de Intercâmbio Automatizado de Informação (CENIAI), Jovem Club (Tinored) e Ministério da Saúde (Infomed). Naquele ano, um relatório da Rand Corporation, um think tank ligado ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos reconhece que "Cuba tem desenvolvido uma considerável comunidade de redes com capacidades e serviços. Isso é o resultado de uma dedicação de longo prazo para a educação em toda a sociedade, um importante desenvolvimento de programas de pesquisa e terapêuticos no campo da biotecnologia e da medicina. Cuba tem todo o conhecimento necessário para operar um link de IP internacional e o consentimento do governo. Faltam fundos e um contrato de trabalho ou plano de cooperação entre várias redes; mas, eventualmente, irão conseguí-lo "[2]

Entre as recomendações da Rand Corporation para o Pentágono refletidos nesse relatório estão: estimular uma conexão IP direta com a Internet para dar aos cubanos acesso interativo a materiais estrangeiros; dar uma resposta rápida ao pedido feito pela empresa WilTel de uma autorização para construir um cabo óptico entre os Estados Unidos e Cuba, pendente desde março de 1994, e outras solicitações para fornecer vários serviços relacionados a dados; estimular viagens desde Cuba para fins de treinamento e capacitação na administração de redes de computadores, e outras formas de intercâmbio técnico.

Neste contexto, ocorre o pleno acesso de Cuba à rede, há 20 anos. O progresso discreto na expansão dos serviços de Internet, na minha opinião, tem como raiz o bloqueio tecnológico, a interferência nos assuntos de nosso país usando as TIC e as dificuldades de natureza interna que prevaleceram nesse período.

Escrito por Omar Pérez Salomón, publicado em La Pupila Insomne
Tradução Equipe Fuzil contra Fuzil.

Notas:

[1] Do livro “Secretos de Internet”.

[2] Relatório da Rand Corporation: “Las telecomunicaciones cubanas, la red de computación y las implicaciones en la política de los Estados Unidos.” Elaborado para a Oficina do Secretário de Defesa dos Estados Unidos, julho de 1996.

domingo, 21 de agosto de 2016

Cuba é uma nação socialista - Fidel Castro - Parte II

Leia a Parte I.

Discurso Pronunciado por Fidel Castro em  1º de Maio de 1961

"...

Não há Tempo para Eleições

Houve um período para a abolição de privilégios. As pessoas agora tem tempo para eleições? Não! O que eram os partidos políticos? Só uma expressão dos interesses de classe. Aqui só há uma classe, a humilde; aquela classe está no poder, então ela não está interessada na ambição de um minoria exploradora de voltar ao poder. Aquelas pessoas não teriam nenhuma chance em uma eleição. A revolução não tem tempo a perder com esse tipo de tolices. Não há chance para a classe exploradora reconquistar o poder. A revolução e povo sabem que a revolução expressou sua vontade; a revolução não vem ao poder com armamento ianque. 

Ela vem através da vontade do povo em luta contra todo tipo de armamento, armamento ianque.

A revolução mantêm-se no poder através do povo. No que o povo está interessado? Em fazer a revolução avançar sem perder um só minuto. (Aplausos) Pode qualquer governo na América afirmar ter mais apoio popular que esse? Por que a democracia deve ser essa pedante e falsa democracia dos outros, ao invés dessa direta expressão da vontade do povo? As pessoas morrem lutando ao invés de ir a uma eleição para escrever nomes em um papel. A revolução deu a cada cidadão uma arma, uma arma a todo homem que quis entrar na milícia. Então algum tolo vem para perguntar se, tendo a maioria por que nós não fazemos eleições? Porque o povo não se importa de satisfazer tolos e pequenos finos cavalheiros! As pessoas estão interessadas em avançar.
Eles não tem tempo a perder. O povo deve gastar uma quantidade tremenda de energia se preparando contra agressões, enquanto todos sabemos que queremos construir escolas, casas e fábricas. Não não somos belicosos. Os ianques gastam a metade de seu orçamento em armamento; não somos belicosos. Nós somos obrigados a despender aquelas energia, por causa dos imperialistas. Não temos ambições expansionistas. Não queremos explorar nenhum trabalhador de nenhum país. Não estamos interessados em planos agressivos; fomos forçados a ter tanques, aviões, metralhadoras e força militar para nos defender.
A recente invasão mostra o quão corretos estamos em nos armar. Em Playa Giron eles vieram para matar camponeses e trabalhadores. O imperialismo forçou-nos ao armamento para nossa defesa. Fomos forçados a colocar energia, materiais e recursos nisso, embora preferiríamos colocar esses recursos em mais escolas, para que em futuros desfiles possa existir mais atletas e estudantes. Se nosso povo estivesse desarmado, eles não poderiam ter esmagado os mercenários que vieram com equipamentos modernos.
Os imperialistas teriam se lançado contra nós a muito tempo se não nos tivéssemos armado. Mas nós preferimos morrer antes de render o país que temos agora. Eles sabem disso. Eles sabem que encontrarão resistência e então os círculos agressivos do imperialismo devem parar e pensar.
Então somos forçados, pela ameaça de agressão a proclamar aos quatro cantos do mundo: Todo o povo da América deveria se elevar em indignação depois da afirmação de que um país pode intervir em outro só por causa o primeiro é mais forte. Tal política significaria que o vizinho mais poderoso tem o direito de intervir para evitar um povo de se autogovernar de acordo com sua escolha. É inconcebível que deveriam existir miseráveis governos como esses; depois da agressão que matou trabalhadores e camponeses, é inconcebível que eles até mesmo tenham começado uma política de romper com Cuba, ao invés de romper com Somoza, Guatemala, ou o governo de Washington que paga por aviões, tanques e armamentos para vir aqui e matar camponeses.
O governo da Costa Rica disse que, se os mercenários fossem executados, romperia relações conosco. Eles não tem razão alguma para romper, então buscam um pretexto, nesse caso escolhendo  a questão das execuções.
Aqueles que promovem a política de usar Cuba, às ordens do imperialismo, são traidores miseráveis aos interesses e sentimentos da América. (Aplausos) Esses fatos mostram-nos a política podre que prevalece em muitos países latino americanos, e como a revolução cubana inverteu essas formas corruptas para estabelecer novas formas nesse país.
Nova Constituição Socialista
Para aqueles que falam a nós sobre a Constituição de 1940, nós respondemos que a Constituição de 1940 está datada e velha para nós. Nós avançamos muito rápido para aquela pequena seção da Constituição de 1940, que era boa para o seu tempo, mas nunca foi posta em prática. Aquela constituição foi ultrapassada pela revolução, que como dissemos, é uma revolução socialista. Devemos sim falar de uma nova constituição, uma nova constituição, mas não uma constituição burguesa, não uma constituição que corresponda a dominação e exploração de certas classes, mas uma constituição que corresponda a um novo sistema social sem a exploração do homem sobre o homem. O novo sistema social é chamado de socialismo e essa constituição será, consequentemente, uma constituição socialista.

Protesto de Kennedy
Se o Sr. Kennedy não gosta de socialismo, nós não gostamos de imperialismo! Nós não gostamos de capitalismo! Nós temos todo direito de protestar sobre a existência de um regime capitalista-imperialista a 90 milhas de nossa costa. No passado e agora, nós não pensamos em protestar em relação a isso, porque isso é coisa do povo dos Estados Unidos. Seria absurdo para nós tentarmos contar para o povo dos Estados Unidos que sistema de governo eles deveriam ter, nesse caso nós estaríamos considerando que os Estados Unidos não são uma nação soberana e que nós temos direitos sobre a vida política interna dos Estados Unidos.
Direitos não vem com tamanho. Direitos não vem do fato de um país ser maior que o outro. Isso não importa. Nós temos um território limitado, uma pequena nação, mas nosso direito é tão respeitável quanto o de qualquer país, independentemente do tamanho. Não nos passa pela cabeça falar para o povo dos Estados Unidos qual sistema de governo eles devem ter. Portanto, é absurdo o Sr. Kennedy nos falar qual governo ele quer que estabeleçamos aqui. Isso é absurdo. Sr. Kennedy faz isso por não ter um conceito claro de leis internacionais nem de soberania. Quem teve essas ideias antes de Kennedy? Hitler e Mussolini!
Eles falaram a mesma língua, a da força; é a língua fascista. Nós ouvimos anos antes do ataque da Alemanha sobre a Czechoslovakia. Hitler a dividiu pois era governada por um governo reacionário. A burguesia, reacionária e protofascista, com medo do avanço do sistema socialista, preferiu até a dominação de Hitler. Nós ouvimos aquela linguagem na véspera da invasão a Dinamarca, Bélgica, Polônia e assim por diante. É o direito do poder. Esse é o único direito que Kennedy sugere quando declara o direito a interferência em nosso país.
Esse é um sistema socialista, sim! Sim, esse é um regime socialista. Está aqui, mas a culpa não é nossa, a culpa e é de Colombo, dos colonizadores ingleses, os colonizadores espanhóis. O povo dos Estados Unido algum dia ficará cansado.

Nenhuma ameaça aos Estados Unidos

O governo dos Estados Unidos diz que um regime socialista aqui ameaça a segurança dos Estados Unidos. Mas o que ameaça a segurança do povo da América do norte é a política agressiva dos belicistas dos Estados Unidos. O que ameaça a segurança da família da América do norte e seu povo é a violência, a política agressiva, aquela política que ignora a soberania e os direitos dos outros povos. Aquela política agressiva pode levar a uma guerra mundial; e a guerra mundial pode custar as vidas de dezenas de milhões de norte americanos. Portanto, aquele que ameaça a segurança dos Estados Unidos não é o Governo Revolucionário de Cuba, mas o agressor e agressivo governo dos Estados Unidos.
Nós não colocamos em perigo a segurança de um único norte-americano. Nós não pomos em perigo a vida ou a segurança de uma única família norte-americana. Nós, fazendo cooperativas, reforma agrária, ranchos do povo, casas, escolas, campanhas de alfabetização e mandando centenas e centenas de professores para o interior, construindo hospitais, mandando médicos, dando bolsas de estudos, construindo fábricas, aumentando a capacidade produtiva do país, criando praias públicas, convertendo fortalezas em escolas e dando ao povo o direito a um futuro melhor – nós não pomos em perigo uma única família ou um único cidadão dos Estados Unidos da América.
Aqueles que colocam em perigo milhões de famílias, de dezenas de milhões de norte-americanos são aqueles que brincam com a guerra atômica. São aqueles que, segundo General Cardenas fala, estão brincando com a possibilidade de Nova York se tornar Hiroshima. Aqueles que estão brincando com a guerra atômica, com a sua guerra agressiva, com a sua política que viola os direitos do povo são aqueles que colocam em perigo a segurança da nação da América do norte, a segurança das vidas de  milhares de norte-americanos desconhecidos.

O que os monopolistas temem? Eles dizem que não estão seguros com uma revolução socialista por perto. Eles estão, como Khruscev fala, provando que seu sistema é inferior. Eles nem acreditam no próprio sistema. Por que eles não nos deixam em paz quando o que o nosso governo quer é paz?

A recusa do EUA em negociar


Recentemente, nosso governo publicou a afirmação de que nós estaríamos dispostos a negociar. Por que? Porque nós temos medo? Não! Nós estamos convencidos que eles temem a revolução mais do que tememos eles. Eles tem uma mentalidade que não os permite dormir quando eles sabem que existe uma revolução por perto.
Medo? Ninguém tem medo aqui. O povo que luta pela sua liberdade nunca se amedronta. Os amedrontados são os ricos. Aqueles que tem sido ricos. Nós não temos interesse no suicídio do imperialismo às nossas custas. Eles não se importam com a morte de negros, porto riquenhos ou americanos. Mas nós nos importamos com cada vida cubana. Nós estamos interessados em paz.
Nós estamos prontos para negociar. Eles falam que as condições econômicas podem ser discutidas, mas não o comunismo. Bem, de onde eles tiraram a ideia de que nós discutiríamos isso? Nós discutiríamos problemas econômicos. Mas não estamos prontos para admitir essas conversas tanto quanto a pincelada de uma pétala de uma rosa. O povo cubano é capaz de estabelecer o regime que ele quiser. Nós nunca pensamos na possibilidade de discussão do regime. Nós discutiremos apenas coisas que não afetem nossa soberania. Nós queremos negociar em nome da paz.
Aqueles que não se preocupam sobre encaminhar o povo americano para guerra estão sendo guiados por emoções. Nós não temos medo. Se eles pensam que sim, deixem eles rejeitarem aquela ideia. Nenhum cubano está com medo. Se eles pensam que discutiremos nossa política interna, deixem eles esquecerem isso. Deixem eles discutir todos os tópicos que querem discutir. Nós discutimos com os invasores, não? Bem, nós debateremos com qualquer um. Nós estamos dispostos a falar. Estamos dispostos a debater. Mas isso quer dizer que desejamos negociar nossa política interna? Claro que não. Nós estamos apenas dando um passo sensato. Isso quer dizer que a revolução irá desacelerar? Claro que não! Nós continuaremos, pegando velocidade o quanto pudermos.

Matar invasores estrangeiros

Se eles querem dizer que não se importam com a soberania dos países, deixem-nos dizê-lo. Mas estamos prontos para defender, bem como negociar. Nós estamos prontos para atirar um milhão de tiros no primeiro ianque paraquedista que tentar pousar aqui. Do primeiro momento que eles desembarcarem em nosso solo eles podem ter certeza que eles começaram a guerra mais difícil das quais eles já ouviram. Aquela guerra seria o começo do fim do imperialismo. Com a mesma disponibilidade para negociar, nós lutaremos. Até mesmo os pioneiros lutariam. Cada homem, mulher e criança tem um dever no caso de um ataque estrangeiro – matar! Se nós somos atacados por estrangeiros não haverá prisioneiros. O invasor estrangeiro deve saber que deve matar a todos nós! Enquanto um viva, ele terá um inimigo! Luta de vida ou morte! Não há meio termo! Será uma guerra sem prisioneiros!
Se os invasores desembarcam em solo cubano não iremos querer nossas vidas. Nós lutaremos até o último homem contra qualquer um que colocar os pés em nossa terra. Todos os homens e mulheres devem saber de seus deveres. Esse dever será cumprido de maneira simples e natural enquanto o povo luta uma guerra justa.
É um crime que nosso povo não seja deixado em paz para completar nosso trabalho de justiça por aqueles que outrora viveram em humilhação e miséria. É uma pena que interesses ilegítimos foram determinados a causar o mal a nosso país. Enquanto eles tentaram  cortar nossos suprimentos, eles estavam abastecendo os mercenários com armas para invadir nosso país e derramar o sangue do povo. E nessa vergonhosa tarefa, quem participou?
Eu já os falei sobre sua composição social. Padres também não faltavam. Três deles vieram. Nenhum era cubano, eles eram espanhóis. Você lembra que quando nós perguntamos eles disseram que vieram em uma missão puramente espiritual. Eles disseram que vieram em uma missão cristã. Mas revisando os seus livros nós achamos isso: um apelo para o povo por Ismael de Lugo: "Atenção católicos cubanos: as forças libertadoras desembarcaram em praias cubanas. Nós viemos em nome de Deus – como se Calvino viesse no nome de Deus – justiça e democracia para reestabelecer a pisoteada liberdade - Isso deve ser mentira. Nós viemos por causa do amor, não do ódio. Nós viemos com milhares de cubanos, os quais são católicos e cristãos – que mentira, cujo espírito é o espírito dos cruzados. (Notas do Editor: Castro continua lendo a mensagem escrita pelo Padre de Lugo...)

E esse cavalheiro não é nem cubano; ele é um espanhol falangista. Ele poderia ter economizado todos aqueles apelos e energia de guerreiro para lutar contra a guarda moura de Franco. Por que ele veio aqui com outros 3 padres falangistas espanhóis ao invés de ir para a Espanha lutar pela liberdade contra Franco, que está oprimindo o povo espanhol por 20 estranhos anos e que se vendeu  para o imperialismo ianque? Os ianques não estão lutando pela liberdade na Espanha, Nicarágua ou Guatemala. Eles são grandes amigos de Franco. E esses padres falangistas vieram aqui, quando é na Espanha que eles deveriam estar lutando pela liberdade, pelos camponeses e trabalhadores. Os padres falangistas ao invés disso vem aqui pregar contra os trabalhadores e camponeses que se livraram da exploração. E vieram três, não apenas um; e o quarto, em Escambray, é espanhol também.

Padres estrangeiros a serem expulsos

Nós vamos anunciar aqui para o povo que nos próximos dias o Governo Revolucionário passará uma lei declarando inválida qualquer permissão assegurada por qualquer padre estrangeiro nesse país. E essa lei terá uma única exceção: vocês sabem a quem? Um padre estrangeiro poderá ficar com permissão especial, aprovada pelo governo, se ele não estiver combatendo a revolução e não estiver mantendo atividades contrarrevolucionárias. Ele pode pedir permissão, e o governo poderá garantir se considerar adequado, pois existem padres estrangeiros, pela via da exceção, que não se posicionaram contra a revolução, embora a regra geral seja o contrário.
Claro, eles falarão que somos ímpios, inimigos da religião. Como eles podem dizer isso depois de um líder de um serviço eclesiástico, enquanto proclamava que ele estava chegando para realizar um serviço espiritual, também assinou um manifesto como esse – de natureza política? Pode a revolução continuar permitindo atos como esses continuarem impunes?
E deixar esses cavalheiros trazerem o inferno aqui, trazerem o inferno para a terra aqui, com a guerra criminosa, seus calvinistas, seus Soler Puigs, seus latifundiários e seus filhos privilegiados, para trazer o inferno para a terra aqui para os camponeses e trabalhadores? Podemos deixar a falange espanhola continuar promovendo derramamento de sangue e conspiração aqui por meio de seus padres? Não, nós não estamos dispostos a permitir isso. Os padres falangistas sabem agora, eles podem começar a fazer as malas (Aplausos).
Eles estão realizando atividades contrarrevolucionárias nas escolas também, envenenando as mentes  dos alunos. Eles estão formando mentes terroristas. Eles estão ensinando ódio para o país. Por que a revolução deveria tolerar isso? Seríamos culpados se deixássemos isso ir adiante.

Nacionalização das escolas privadas
Nós anunciamos aqui que nos próximos dias o governo revolucionário irá passar uma lei nacionalizando as escolas privadas. Essa lei não pode ser uma lei para um setor; será geral. Isso quer dizer que escolas privadas serão nacionalizadas; claro, não uma pequena escola, na qual uma professora dá aulas, mas escolas privadas com vários professores.
Diretores de escolas privadas mostraram diferentes tipos de conduta. Muitas diretores de escolas privadas não estão inculcando veneno contrarrevolucionário. A revolução sente como sendo seu dever organizar e estabelecer o princípio de educação gratuita para todos os cidadãos. O povo sente que ele tem o dever de treinar as futuras gerações no espírito de amor por seu país, por justiça, pela revolução.
O que deve ser feito no caso de escolas privadas que não mostraram conduta contrarrevolucionária? O governo Revolucionário indenizará aqueles diretores ou donos de escolas cuja atitude não tiver sido contrarrevolucionária, cuja atitude foi favorável para a revolução; e a revolução não indenizará nenhuma escola cujos professores estão travando uma campanha contrarrevolucionária, que foram contra a revolução.
Aos professores e empregados de todas essas escolas, serão dados trabalhos. Ou seja, os empregados e professores dessas escolas terão trabalhos garantidos. Os alunos dessas escolas poderão continuar frequentando-as, os padrões educacionais será mantido alto ou aumentado e além disso, eles  não terão de pagar absolutamente nada para frequentá-las.

Religião não é restringida

Villanueva é incluída nessa nacionalização, claro. Eles falarão que esse governo ímpio se opõe à instrução religiosa. Não senhor. Nós nos opomos é contra esses atos sem-vergonha que estão sendo cometidos e esse crime contra o nosso país. Eles podem ensinar religião, sim; nas igrejas eles podem ensinar religião.
Religião é uma coisa, política é outra. Se esses cavalheiros não fossem contra os interesses políticos do povo, não poderíamos nos importar menos com suas pastorais, a discussão de questões religiosas, etc. As igrejas podem manter-se abertas; religião pode ser ensinada aqui, Não seria muito melhor se eles se restringissem aos seus ensinamentos religiosos? Não seria melhor ter paz? Eles podem ter paz, dentro de estritos limites de respeito de acordo com o povo revolucionário e o governo. Mas eles não podem guerrear contra o povo em serviço dos exploradores. Isso não tem nada a ver com religião; tem a ver com sangue, com ouro, com interesses materiais. Eles podem ter consideração pelo povo, nos limites de respeito e direitos mútuos.
O cristianismo surgiu como uma religião dos pobres, de escravos e dos oprimidos de Roma – a religião que floresceu nas catacumbas. Era a religião dos pobres e obteu o respeito de leis. Coexistiu com o Império Romano. Então veio o feudalismo. Aquela igreja coexistiu com o feudalismo, mais tarde com monarquias absolutas, depois com repúblicas burguesas. Aqui a república burguesa desaparece; por que não deveria a mesma igreja coexistir com um sistema de justiça social que é muito superior às formas anteriores de governo? Esse sistema é muito mais cristão que o imperialismo ianque ou política burguesa, ou o Império Romano. Nós acreditamos que a coexistência é perfeitamente possível. A revolução não se opõe à religião. Eles usaram a religião como um pretexto para combater os pobres. Eles esquecem o que Cristo disse sobre ser mais fácil para um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um homem rico ir para o céu.

O pequeno homem de negócios protegido
Aqueles são fatos. Nós falamos, com sempre, claramente. Isso apenas quer dizer que estamos preparados para defender a revolução e continuar avançando, convencidos da justiça de nossa causa.
Nós falamos de nossa revolução socialista. Não quer dizer que o pequeno homem de negócio ou pequeno industrial precise se preocupar. Minas, combustível, bancário, usinas de açúcar, comércio de exportação e importação – a maior parte da economia – está nas mãos do povo. Dessa forma o povo pode desenvolver nossa economia. O pequeno industrial e pequeno homem de negócios podem coexistir com a revolução. A revolução sempre teve cuidado em relação aos interesses dos pequenos proprietários.
A reforma urbana é uma prova. Esse mês, todos os pequenos proprietários de terras receberão cerca de 105,000 pesos. Antigamente, se o inquilino não pagasse o aluguel, o proprietário não recebia; agora um fundo foi estabelecido para garantir que o dono da terra seja pago. A revolução terá 80 milhões de pesos por ano para construção pela reforma urbana. E quando o aluguel é a única renda desses donos de terra, a revolução determinou que depois que a casa foi integralmente paga, o dono de terra receberá uma pensão. Uma revolução socialista não quer dizer que os interesses de certos setores serão eliminados sem consideração. Os interesses dos grandes proprietários de terras, banqueiros e industriais foram eliminados. Nenhum interesse social dos níveis mais baixos da sociedade foram condenados. A revolução irá aderir à sua palavra: nenhum interesse médio será afetado sem consideração.
Pequenos empresários e industriais tem crédito hoje. A revolução não tem interesse na sua nacionalização. A revolução tem o bastante para desenvolver as fontes de riqueza que agora tem a sua disposição. A revolução sente que aqui pode existir colaboração do pequeno empresário e do pequeno industrial. Ela acredita que seus interesses  podem coincidir com aqueles da revolução. 

Contrarrevolucionários afirmaram que as barbearias seriam nacionalizadas, mesmo barracas de comida. A revolução não os tem como objetivo. A solução desses problemas será o resultado de uma longa evolução. Existe alguns problemas; algumas vezes tomates e abacaxis são vendidos na cidade a preços mais altos do que nos campo. Ainda existe uma pequena praga de atravessadores. A revolução ainda tem de tomar medidas para se livrar dos abusos dos atravessadores, para melhorar o consumo para as pessoas. Mas eu não quero que as pessoas fiquem confusas. Eu quero que todos saibam o que esperar.

O chamado para a colaboração
Basicamente a revolução já passou suas medidas. Ninguém precisa se preocupar. Por que não se juntar a esse entusiasmo, nessa proeza? Por que ainda existem cubanos aborrecidos por essa felicidade? Eu me perguntei isso enquanto assistia o desfile. Por que alguns cubanos são incapazes de entender que sua felicidade pode também ser deles? Por que eles não se adaptam à revolução? Por que não ver as suas crianças nas escolas aqui? Algumas pessoas não podem se adaptar, mas a sociedade futura será melhor do que a antiga.
Essa é a hora na qual nós, longe de usarmos o momento contra os que não entendem, devemos perguntar a eles se já não é tempo deles se juntarem a nós. 

A revolução considera necessário que eles sejam retidos. Talvez eles já tenham sido. A revolução não quer que se use força contra a minoria. A revolução quer que todos os cubanos entendam. Nós não queremos que toda essa felicidade e emoção toda apenas para nós. É a glória do povo.
Nós dissemos a todos que mentiram no passado e não entenderam. Nós francamente dizemos que nossa revolução deveria ser menosprezada pelas sanções severas contra os mercenários. Isso serve como uma arma para os nossos inimigos. Nós dizemos isso, porque nós contamos ao povo tudo o que beneficiará a revolução. Nós tivemos uma vitória moral e será maior se nós não mancharmos a nosso vitória.
As vidas perdidas nos machucam o mesmo que machucam aos outros, Mas nós devemos superar isso e falar pelo prestígio e pela nossa causa. O que está diante de nós? O risco da agressão imperialista! Grandes tarefas! Chegamos ao ponto no qual nós devemos entender que chegou o momento de fazermos o nosso maior esforço. Os próximos meses são muito importantes. Eles serão meses nos quais nós devemos fazer grandes esforços em todos os campos. Todos nós temos a tarefa de fazer o máximo, ninguém tem o direito de descansar. Com o que nós vimos hoje, nós devemos aprender que com esforço e coragem nós podemos colher magníficos frutos. E as frutas de hoje não são nada se comparadas ao que pode ser feito se nós nos empenharmos ao máximo.
Antes de concluir, eu gostaria de lembrar o que eu disse no julgamento Moncada. Aqui está o parágrafo: O país não pode ficar de joelhos implorando milagres do bezerro de ouro. Nenhum problema social é resolvido espontaneamente. Nesse momento tínhamos expressado nossos pontos de vista. 

A revolução seguiu as ideias revolucionárias daqueles que tiveram um importante papel nessa luta.
Esse é o porquê de quando um milhão de cubanos se reuniram para proclamar a Declaração de Havana, o documento expressou a essência da revolução, nossa revolução socialista. Dizia que condenava os proprietários de terra, os salários de fome, analfabetismo, falta de professores, médicos, hospitais, discriminação, exploração das mulheres, oligarquias que atrasavam o país, governos que ignoravam a vontade do povo obedecendo as ordens dos EUA, monopólios das agências de notícias ianques, leis que preveniam as massas de se organizarem e os monopólios imperialistas de riqueza. A assembleia geral do povo condenou a exploração do homem pelo homem. A assembleia geral proclamou o seguinte: o direito ao trabalho, educação, dignidade do homem, direitos civis às mulheres, previdência aos aposentados, liberdade artística, nacionalização dos monopólios. Esse é o programa de nosso revolução socialista.

Vida longa à classe trabalhadora cubana! Vida longa às nações latino-americanas! Vida longa à nação! Pátria ou morte! Venceremos!"

Tradução: equipe do Fuzil contra Fuzil

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Os 90 anos de Fidel Castro, o revolucionário real.


Em 13 agosto de 2016, Fidel Castro, o Comandante en Jefe da Revolução Cubana, completa 90 anos de vida

Fundamentalmente, aos que são jovens em nossos tempos e que conhecem um pouco da história, em um momento em que as agressões que sofrem os povos se multiplicam, quando a realidade nos impõe uma das maiores tarefas da história da humanidade, dar-se conta de que em nosso planeta, enquanto pensamos, escrevemos e lutamos, respira, vive e pensa, ao completar 90 anos, Fidel Castro Ruz é, sem dúvida, inspirador.
Fidel Castro, 15 de fevereiro de 1965.

Não porque se Fidel não estivesse fisicamente presente, como passaram e passarão a estar os grandes homens e mulheres da humanidade, seria menor sua capacidade de inspirar àqueles que almejam a honra de serem revolucionários.

Mas, porque, de forma bastante simples, o fato de Fidel permanecer por mais de 70 anos combatendo, das diversas formas, carregando fuzis, liderando seu povo, enfrentando o imperialismo, e o fato de hoje estar vivo, são capazes de nos fazer lembrar que os grandes líderes revolucionários são também homens de carne e osso, o que os torna muito mais impressionantes, muito mais reais e, paradoxalmente, seus feitos muito mais fantásticos. Saber que são homens de carne e osso nos impõe grandes responsabilidades.

É justamente essa realidade, essa materialidade de sua dedicação, que converte Fidel, como aos grandes homens e mulheres dos séculos, em exemplo a se seguir. Nem santos e nem filhos de deuses têm o poder que um homem de carne e osso tem para inspirar e impelir à luta.

Os líderes revolucionários reais não só impelem os bons ao combate, mas também assustam e atordoam aos opressores. Sua própria existência é uma constante advertência, um alerta: “Somos sim os homens e mulheres mais avançados que servem à causa dos povos, mas não somos filhos de milagres, frutos da predestinação do milênio ou do acaso, somos o simples resultado do desenvolvimento histórico da sociedade, das contradições que a luta de classes engendra. E, como nós, mais cedo ou mais tarde, muitos outros notarão as tarefas que tem de ser realizadas e arregaçarão suas mangas. Não estamos sozinhos, porque essa marcha é inevitável.”

E, dessa marcha inevitável faz parte Fidel Castro, homem de carne e osso, que tem sua própria história.

Nasceu no ano de 1926, em Birán, pequena cidade do oriente de Cuba. Filho de Ángel Castro Ruz, espanhol que era dono de terras e relativamente rico, Fidel foi alfabetizado muito cedo, pois tinha que acompanhar seu irmão mais velho à escola, ainda que não tivesse idade para frequentá-la. Logo, aos seis anos de idade, foi enviado à cidade de Santiago de Cuba para que estudasse em colégios de jesuítas.

Sua infância localiza-se em período de extremo conflito político na História de Cuba. O então sargento Fulgêncio Batista – o mesmo que seria derrubado pelo movimento liderado por Fidel 20 anos depois – já iniciava sua carreira como executor de golpes miltares, e, com apoio da embaixada dos Estados Unidos, em 1934, dissolvia, mediante os fuzis do exército, um governo fruto de lutas populares e composto por elementos nacionalistas, o Governo dos Cem dias.

Adiante, como homem forte dos Estados Unidos, Batista alternaria na cabeça do Estado representantes sob seu controle. Seria eleito presidente de Cuba em 1940, após ter, em um momento, realizado amplas perseguições e, em outro, acenado às anistias como tentativa de legitimar-se.

Em meio a tudo isso, a adolescência de Fidel seria como a de muitos outros de sua classe de origem, um tanto quanto desligada dos acontecimentos políticos, com maiores preocupações como a prática dos esportes e suas férias no campo.

Somente mais tarde suas inquietudes se fundiriam definitivamente a sua personalidade, como resultado de todo um processo de aprendizado. Processo no qual foi imprescindível sua disposição de abrir mão das ambições individualistas, típicas dos homens de sua classe e de seu entorno.

Em 1945, aos 19 anos, ingressou na Universidade, em Havana, como mais um entre tantos jovens, esportista, espirituoso, e sem qualquer experiência ou conhecimento político, exceto alguma intuição e certo sentido de justiça derivado daquele contato mais imediato com os trabalhadores no campo e a repressão aberta que a gente humilde sofria do exército.

Ao ingressar na universidade, Fidel era mais um.

“Tinha me matriculado na Escola de Direito, todos os dias eu tinha que sair para a Universidade, pegar ônibus, por vezes dois – pelo menos um sempre muito super-lotado –, havia que pegá-los e descer de pressa, porque os ônibus jamais paravam, depois caminhava uns quantos quarteirões…”, como relata. (1)

Mas esse mais um, conscientemente, pouco a pouco, foi ingressando nas atividades estudantis, num local que guardava em sua História forte tradição de vínculo aos interesses das massas populares. Da Universidade haviam saído muitos daqueles que formaram o governo progressista derrubado por Batista, muitos dos que haviam lutado contra as oligarquias e ditaduras, além dos que combateram as intervenções norteamericanas e o colonialismo espanhol.

No entanto, a memória de tal tradição de lutas, às quais o jovem Fidel era simpático, encontrava realmente poucos herdeiros sinceros. A tradição estava esmorecida pelo tempo, pela politicagem e acomodação de certos partidos e políticos, que também se proliferavam no movimento estudantil. Além do mais, “era uma universidade burguesa e de pequenos burgueses, com muitos poucos jovens procedentes de classes trabalhadoras”. (2) Uma Universidade para as elites, como muitas na América Latina.

Do jovem filho de fazendeiro ao revolucionário, certamente, não foi um caminho fácil.

A primeira atividade pela qual Fidel teve contato com círculos amplos de estudantes não foi propriamente o trabalho de caráter político. Fazia algo muito mais simples: começou como um representante de turma que se dedicava com afinco.

“Acho que comecei a distinguir-me entre os restantes dirigentes da Escola de Direito porque peguei a trabalhar a sério; jamais pensei que seria ajudado com uma nota ou que faria articulações para que um aluno recebesse uma qualificação não merecida. Não se tratava de que exercesse influência no professor, mas sim que ajudasse os estudantes em questões práticas relacionadas com os estudos. (…) Minhas primeiras atividades foram desse tipo, não era um programa de reformas universitárias nem um programa político. Realizava uma série de serviços úteis aos estudantes. Não lhes dizia: 'votem em mim'”. (3)

E a seriedade desde as tarefas mais simples, a marca que seria seu caráter distintivo durante toda trajetória, fez que, pouco a pouco, encontrasse o reconhecimento de seus pares e avançasse na atividade política, sendo eleito como representante na Federação Estudantil Universitária, a FEU.

A partir daí, passou a ter contato maior com a política, aperfeiçoando seus conhecimentos e combatendo as práticas do governo que havia se instalado: a tão perversa quanto usual associação oligárquica e a corrupção institucionalizada predominante nos países atrasados, como era Cuba. Diferenciando-se dos envolvidos nas rixas partidárias, que beiravam ao gangsterismo, foi na universidade que se fez revolucionário.

Mas não como e por um passe de mágica, como se houvesse algo como uma revelação de um dom político ou de uma habilidade inata.

O que é verdadeiro e, paradoxalmente, muito mais incrível do que a explicação que beira ao místico, justamente por seu aspecto real, é o argumento oferecido pelo próprio Comandante. O que o formou como revolucionário nesse período foi sua sinceridade com aquilo que acreditava que merecia sua atenção. Foi sua consequência que fez que pegasse “a trabalhar em sério”. Trabalhar em sério, com disciplina e espírito de sacrifício, foi o que o fez revolucionário.

Foi o que fez com que, passo a passo, frente aos desafios que se impunham, o jovem Fidel fosse colocando sua própria capacidade a prova, não sem inúmeros riscos, como fizeram todos os grandes revolucionários, despindo-se em cada ação daqueles resquícios do individualismo próprio do meio de onde provinha.

Isso se ilustra, por exemplo, no fato de que, quando jovem, a atividade de Fidel não se resumiu a estar na oposição ao governo de seu país, nem de manter a posição confortável de acusador a distância. Demonstrava seu internacionalismo, ainda que não tivesse descoberto o marxismo. Notava a opressão comum e estava resolutamente ao lado dos povos latino-americanos.

Justamente por essa solidariedade – que não era só de palavras – Fidel, por meio de um comitê em solidariedade à República Dominicana, embarcou em uma expedição militar que objetivava derrubar o governo do ditador Trujillo. Aos 19 anos ingressava em sua primeira ação armada, porque levava as coisas a sério.

Pouco tempo depois, na Colômbia, organizaria um Congresso de Estudantes de toda América Latina, de cunho anti-imperialista, que coincidiu com as revoltas populares do bogotazo, quando do assassinato do candidato liberal à presidência do país, Jorge Eliecér Gaitán. Nessas revoltas, Fidel tomou parte ativa ao lado povo, juntando-se aos insurretos e combatendo. Tinha somente 21 anos.

Nesse meio do caminho, teria contato com o socialismo científico:

"As ideias do marxismo-leninismo caíram em mim como água no deserto." (4)

Desses acontecimentos ao seu trabalho como advogado na defesa desinteressada daqueles que o solicitavam; a sua resistência ao segundo golpe de Batista; ao Assalto ao Quartel Moncada; ao Desembarque do Granma; à luta na Sierra; à tomada do poder; ao combate da invasão mercenária de Girón; à posição abnegada durante a Crise dos Mísseis; à consolidação do socialismo em Cuba; à mobilização do povo em todos os momentos; à resistência no dificílimo período da queda da URSS, nota-se que Fidel forjou a si próprio em grandes combates, com o espírito que lhe é característico e que tem sua força aglutinadora. Nota-se que há algo em seu exemplo que deve ser seguido, que é universal na conduta dos revolucionários: a capacidade de doar-se, oferecendo a própria vida à causa de seu povo, a todo momento, seriamente.

Espírito tão bem sintetizado por Guevara:

“E se nós estamos hoje aqui e a Revolução Cubana está hoje aqui, é, simplesmente, porque Fidel entrou primeiro no Moncada, porque desceu primeiro do Granma, porque esteve primeiro na Sierra, porque foi à Playa Girón em um tanque, porque quando havia uma inundação houve até briga porque não o deixaram entrar… porque tem como ninguém em Cuba, a qualidade de ter todas as autoridades morais possíveis para pedir qualquer sacrifício em nome da Revolução." (5)

Mas Fidel não é um mito, é um homem real. E, dessa forma – ainda que seja comparável aos mitos, porque muitos de seus feitos não encontram qualquer desvantagem frente ao que é atribuído às figuras mais incríveis e heróicas das epopéias –, por ser homem de carne e osso, é muito maior do que todas essas figuras somadas. É maior porque é o que há de mais humano, porque respira e atua como humano, porque, por ser humano, como diz Guevera, “tem a qualidade de ter todas autoridades morais possíveis para pedir qualquer sacrifício em nome da Revolução”, porque é a prova cabal de que os homens podem realizar obras colossais.

Fidel é o homem de carne e osso que arregaçou suas mangas colocando-se a trabalhar seriamente pela causa dos povos durante mais de 70 anos. Justamente por isso, por sua seriedade de combatente incansável e leal, não só provoca calafrios nas classes dominantes, como seu exemplo conclama, a todo instante, homens e mulheres dos diversos cantos do planeta a que sirvam integralmente à causa das classes exploradas.

Os povos do mundo não poderiam ter melhor inspiração.

Equipe do Fuzil contra Fuzil.

Notas:
(1) – “Fidel Castro Ruz, Guerrilheiro do Tempo – Conversações com o líder histórico da Revolução Cubana”(2012), Katiuska Blanco Castiñera, Rio de Janeiro, Editora Ebendinger, Livro I, p.270.
(2) – Ibidem, p. 303.
(3) – Ibidem, p. 303.
(4) – Ibidem, p. 448.
(5) – “El Che en Fidel Castro, Selección temática 1959-1997” (2007), Havana, Editoria Política, p. 205-206.