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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O respeito a soberania: um direito do povo

O encontro dessa sexta desenvolveu-se na Universidade Tecnológica de Havana. Foto: Ismael Batista

Jovens da Federação de Estudantes do Ensino Médio e da Federação Estudantil Universitária rechaçaram esta sexta em instituições da capital as mais recentes ações do Governo dos Estados Unidos, destinadas a promover mudanças em Cuba.

A organização "sem fins lucrativos" World Learning - com o objetivo aparente de "empoderar as pessoas e fortalecer as instituições" - realizou nos meses do veraneio o Programa de Verão para Jovens Cubanos, destinado fundamentalmente a educandos do ensino médio, cuja agenda incluía a elaboração de um projeto de ações a implementar-se em Cuba, sob a supervisão de seus patrocinadores.

Com financiamento recebido por distintas instâncias do Departamento de Estado dos Estados Unidos, incluindo a USAID, a World Learning se soma a outras tentativas subversivas na maior das Antilhas, como o programa secreto "Zunzuneo", melhor conhecido como "Twitter Cubano".

O projeto ampara-se na seção 109 da Lei Helms-Burton de 1996, que garante a utilização de cifras milhonárias para a subversão ideológica em Cuba.

Como explicou nessa sexta-feira na Universidade Tecnológica de Havana (CUJAE), o egresso desse centro de educação superior, intelectual e blogueiro cubano Iroel Sánchez, algumas pessoas - dois panamenhos e um espanhol - chegaram a Ilha para buscar jovens, principalmente do Ensino Médio, com o objetivo de levá-los como bolsistas à nação do norte.

Somente no ano de 2015 ocorreram mais de 1300 ações de intercâmbio acadêmico com estudantes norte-americanos, fato que constitui demonstração fiel de que Cuba não se opõe a esse tipo de intercâmbio, toda vez que sustentada com respeito a soberania e autodeterminação de nosso povo.

Do granma
Tradução equipe Fuzil contra Fuzil

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Che Guevara - Pronunciamento ao Conselho Interamericano de Estudos Sociais - 8 de agosto de 1961) - Parte II

Pronunciamento diante do CIES (Conselho Interamericano de Estudos Sociais)
(8 de agosto de 1961) 


Segunda parte


Senhor delegado de Cuba: Bem, senhor Presidente. 

É necessário explicar o que é a Revolução cubana, o que é este fato especial que fez ferver o sangue dos impérios do mundo e também ferver o sangue, mas de esperança, dos despossuídos do mundo, pelo menos. 

É uma Revolução Agrária, anti-feudal e antiimperialista, que foi se transformando imperiosamente, por conta de sua evolução interna e de suas agressões externas, em uma revolução socialista e que a proclama assim, diante da face da América: Uma revolução socialista. Uma revolução socialista que tomou a terra do que tinha muito e a deu ao que estava assalariado nessa terra, ou a distribuiu em cooperativas entre outros grupos de pessoas que não tinham nem sequer terra onde trabalhar, mesmo que fosse como assalariado. 

É uma revolução que chegou ao poder com seu próprio exército e sobre as ruínas do exército da opressão; que sentou no poder, olhou ao seu redor, e dedicou-se, sistematicamente, a destruir todas as formas anteriores de ditaduras de uma classe exploradora sobre a classe dos explorados, destruiu o exército totalmente, como casta, como instituição, não como homens, salvo os criminosos de guerra, que foram fuzilados. Também em face à opinião pública do continente e com a consciência bem tranquila. 

É uma revolução que reafirmou a soberania nacional e, pela primeira vez, apresentou para si e para todos os povos da América, e para todos os povos do mundo, a reivindicação dos territórios injustamente ocupados por outras potências. 

É uma revolução que tem uma política externa independente, que vem aqui, a esta reunião de Estados Americanos, como mais um entre os latino-americanos; que vai à reunião dos países não alinhados como um de seus membros importantes e que senta nas deliberações com os países socialistas, que a consideram como um país irmão. 

É, pois, uma revolução com características humanistas. É solidária com todos os povos oprimidos do mundo; solidária, senhor Presidente, porque também dizia Martí: «Todo homem verdadeiro deve sentir na face o golpe dado a qualquer face de um homem.» E cada vez que uma potência imperial avassala um território, está dando uma bofetada em todos os habitantes desse território. 

Por isso nós lutamos pela independência dos países, lutamos pela reivindicação dos territórios ocupados. Apoiamos o Panamá, que tem um pedaço de seu território ocupado pelos Estados Unidos. Chamamos de Ilhas Malvinas, e não de Falkland, às do sul da Argentina, e chamamos de Ilha do Cisne àquela que os Estados Unidos arrancaram de Honduras e de onde nos está agredindo por meios telegráficos e radiofônicos. 

Lutamos constantemente aqui, na América, pela independência das Guianas e das Antilhas Britânicas, onde aceitamos o fato da independência de Belize, porque a Guatemala já renunciou a sua soberania sobre esse pedaço de seu território; e lutamos também na África, na Ásia, em qualquer lugar do mundo onde o poderoso oprime ao mais fraco, para que o mais fraco alcance sua independência, sua autodeterminação e seu direito a organizar-se como Estado soberano. 

Nosso povo, permitam que lhes digamos, quando da ocasião do terremoto que assolou o Chile, buscou ajudá-lo na medida de suas forças, com seu produto único, com o açúcar. Uma ajuda pequena, mas que, entretanto, foi uma ajuda que não exigia nada; foi simplesmente a entrega ao país irmão, ao povo irmão, de algo de alimento para suportar essas horas angustiosas. Nem nos tem que agradecer por nada esse povo e, ainda menos, nos deve algo. Nosso dever fez que entregássemos o que entregamos. 

Nossa revolução nacionalizou a economia nacional, nacionalizou todo o comércio exterior, que está agora em mãos do Estado, e dedicou-se a sua diversificação, comercializando com todo o mundo; nacionalizou o sistema bancário para ter em suas mãos um instrumento eficaz para exercer tecnicamente o crédito de acordo com as necessidades do país. Faz seus trabalhadores participarem na direção da economia nacional planificada e realizou, faz poucos meses, a Reforma Urbana, por meio da qual entregou a cada habitante do país a casa onde residia, tornando-o dono dela com a única condição de pagar o mesmo que estava pagando até esse momento, de acordo com uma tabela, durante determinado número de anos. 

Tomou muitas medidas de afirmação da dignidade humana, incluindo entre as primeiras a abolição de a discriminação racial, que existia, senhores delegados, de uma forma sutil, mas existia. As praias de nossa ilha não serviam para que se banhassem o negro nem o pobre, porque pertenciam a um clube privado, e vinham turistas de outras praias, que não gostavam de se banharem com os negros. 

Nossos hotéis, os grandes hotéis de Havana, que eram construídos por companhias estrangeiras, não permitiam que dormissem negros ali, porque os turistas que vinham de outros países não gostavam de negros. 

Assim era nosso país; a mulher não tinha nenhuma sorte de direito igualitário; ganhava menos por trabalho igual, era descriminada como na maioria de nossos países americanos. 

A cidade e o campo eram duas zonas em permanente luta e dessa luta o imperialismo extraía a força de trabalho suficiente, a ser mal paga e com atraso. 

Nós realizamos uma revolução nisso tudo e realizamos, também, uma autêntica revolução na educação, cultura e saúde. Neste ano, será eliminado o analfabetismo em Cuba. Cento e quatro mil alfabetizadores de todas as idades alfabetizam um milhão e duzentos e cinquenta mil analfabetos, porque em Cuba realmente havia analfabetos, muitos mais de os que as estatísticas oficiais de tempos anteriores diziam. 

Este ano, o ensino primário será gratuito e obrigatório, convertemos os quartéis em escolas; realizamos a reforma universitária, dando livre acesso a todo o povo à cultura superior, às ciências e à tecnologia moderna, fizemos uma grande exaltação dos valores nacionais, diante da deformação cultural produzida pelo imperialismo e as manifestações de nossa arte recebem os aplausos de todos os povos do mundo de todos não, em alguns lugares não deixam que entrem—, exaltação do patrimônio cultural de toda nossa América Latina, que se manifesta em prêmios anuais dados a literatos de todas as latitudes de América, e cujo premio de poesia, senhor Presidente, foi ganho pelo renomado poeta Roberto Ibáñez [1], no último confronto; estendemos a função da medicina em benefício de camponeses e trabalhadores urbanos humildes; esportes para todo o povo, [política] que se reflete em 75 000 pessoas desfilando no 25 de julho em uma festa desportiva realizada em homenagem ao primeiro cosmonauta do mundo, Yuri Gagarin; a abertura das praias populares, a todos, evidentemente, sem distinção de cor nem de ideologia e, além disso, gratuita; e os círculos sociais operários, nos que foram transformados todos os círculos exclusivistas de nosso país, que eram muitos. 

Bem, senhores técnicos, companheiros delegados, chegou a hora de se referir à parte econômica das discussões. O ponto I é muito amplo. Feita também por técnicos muito inteligentes é a planificação do desenvolvimento econômico e social na América Latina. A primeira incongruência que observamos no trabalho é expressa nesta frase: «Às vezes é expressa a ideia de que um aumento no nível e diversidade da atividade econômica acarreta necessariamente na melhoria das condições sanitárias. Entretanto, o grupo é da opinião de que a melhoria das condições sanitárias não somente é desejável em si mesma, mas constitui um requisito essencial, prévio ao crescimento econômico, e deve formar, assim, parte essencial dos programas de desenvolvimento da região.»

Isso, por outro lado, encontra-se refletido, também, na estrutura dos empréstimos do Banco Internacional de Desenvolvimento, pois na análise que fizemos dos 120 milhões emprestados em primeiro lugar, 40 milhões, isto é, um terço, correspondem diretamente a empréstimos desse tipo; para casas de habitação, para aquedutos, redes de esgoto. 

É um pouco... eu não sei, mas eu qualificaria quase como uma condição colonial. Tenho a impressão de que se pensa fazer a latrina como uma coisa fundamental. Isso melhora as condições sociais do pobre índio, do pobre negro, do pobre individuo que vive em uma condição subumana; «vamos a fazer-lhe latrinas e então, depois que lhe façamos latrinas, e depois a que a sua educação tenha permitido que a mantenha limpa, então poderá gozar dos benefícios da produção.» Porque é notável, senhores delegados, que o tema da industrialização não figura na análise dos senhores técnicos. Para os senhores técnicos, planificar é planificar a latrina. O resto, quem sabe quando que será feito! 

Se me permite o senhor Presidente, lamentarei profundamente, em nome da delegação cubana, ter perdido os serviços de um técnico tão eficiente como o que dirigiu este primeiro grupo, o doutor Felipe Pazos. Com sua inteligência e sua capacidade de trabalho, e nossa atividade revolucionária, em dois anos Cuba seria o paraíso da latrina, mesmo se não tivéssemos nenhuma das 250 fábricas que estamos começando a construir, mesmo se não tivéssemos feito a Reforma Agrária. 

Eu me pergunto, senhores delegados, se não se pretende tirar sarro, não de Cuba,— porque Cuba está à margem, já que a Aliança para o Progresso [2] não está com Cuba, mas contra ela, e não é estabelecido dar sequer um centavo a Cuba—, mas sim de todos os outros delegados. 

Não há um pouco de impressão de que lhes estão tirando sarro? Dão-se dólares para fazer estradas, dão-se dólares para fazer caminhos, dão-se dólares para fazer esgotos; senhores, com o que são feitos os esgotos? Não é preciso ser um gênio para isso. Por que não se dão dólares para equipamentos, dólares para maquinarias, dólares para que nossos países subdesenvolvidos, todos, possam converter-se em países industriais, agrícolas, de uma vez? Realmente, é triste. 

Na página 10, nos elementos de planificação do desenvolvimento, no ponto VI, é estabelecido quem é o verdadeiro autor deste plano. 

Diz o ponto VI: «Estabelecer bases mais sólidas para a concessão e utilização de ajuda financeira externa, especialmente o proporcionar critérios eficazes para avaliar projetos individuais.»

Nós não vamos estabelecer as bases mais sólidas para a concessão e utilização, porque nós não somos, são os senhores os que recebem, não os que concedem, e nós quem olhamos, e os que concedem são os Estados Unidos. Então, este ponto VI é redigido diretamente pelos Estados Unidos e este é o espírito de toda esta construção chamada ponto I. 

Mas bem, quero fazer constar uma coisa; falamos muito de política, denunciamos que há aqui uma confabulação política; em conversas com os senhores delegados pontuamos o direito de Cuba da expressar estas opiniões, porque se ataca diretamente Cuba no ponto V. 

Entretanto, Cuba não vem, como dizem alguns jornais o muitos porta-vozes de empresas de informação estrangeira, para sabotar a reunião. 

Cuba vem para condenar o condenável a partir do ponto de vista dos princípios, mas vem também para trabalhar harmonicamente, se é que é possível, para conseguir corrigir isto, que nasceu muito torto, e está disposta a colaborar com todos os senhores delegados para corrigi-los e fazer um bonito projeto. 

O honroso senhor Douglas Dillon [3], em seu discurso, citou o financiamento, porque é importante. Nós, para que nos juntemos todos para falar de desenvolvimento, temos que falar de financiamento, e todos nos juntamos para falar com o único país que tem capitais para financiar. 

Diz o senhor Dillon: «Olhando nos anos vindouros todas as fontes de financiamento externo entidades internacionais, Europa e Japão, assim como a América do Norte, os novos investimentos privados e os investimentos dos fundos públicos—, se a América Latina toma as medidas internas necessárias, condição prévia, poderá logicamente esperar que seus esforços» — não é tampouco que, se toma as medidas, está feito, mas sim que «poderá logicamente esperar» —, «serão igualados por um fluxo de capitais da ordem de pelo menos 20 bilhões de dólares nos próximos dez anos. E a maioria desses fundos procederão de fontes oficiais.»

Isto é o que há? Não, o que há são 500 milhões aprovados, isto é do que se fala. Bem, há que pontuar isto bem, porque é o centro da questão. O que querem dizer? —E eu garanto que não pergunto por nós, mas sim pelo bem de todos. O que quer dizer «se a América Latina toma as medidas internas necessárias» e o que quer dizer «poderá logicamente esperar»? 

Acredito que depois, no trabalho das comissões ou no momento em que o representante dos Estados Unidos julgue oportuno, haverá que deixar um pouco mais claro este detalhe, porque 20 bilhões é uma cifra interessante. É nada menos que 2/3 da cifra que nosso Primeiro Ministro anunciou como necessária para o desenvolvimento da América; um pequeno empurrãozinho e chegamos aos 30 bilhões. Mas é preciso chegar a esses 30 bilhões contantes y sonantes [4], um a um, nos tesouros nacionais de cada um dos países da América, menos esta pobre cinderela, que, provavelmente, não receberá nada. 

Aí é onde nós podemos ajudar, não num plano de chantagem, como se está afirmando, porque é dito: não, Cuba é a galhinha dos ovos de ouro, está Cuba [presente], enquanto Cuba estiver [presente], os Estados Unidos dão. Não, nós não viemos com esse intuito, nós viemos trabalhar, tentar lutar no plano dos princípios e das ideias, para que nossos povos se desenvolvam, porque todos ou quase todos os senhores representantes lhe disseram: se a Aliança para o Progresso fracassa, nada pode deter as ondas dos movimentos populares; se a Aliança para o Progresso fracassa, e nós estamos interessados em que não fracasse, na medida em que signifique para América uma real melhoria nos níveis de vida de todos os seus 200 milhões de habitantes. Posso fazer esta afirmação com honestidade e com toda a sinceridade. 

Nós diagnosticamos e previmos a revolução social na América, a verdadeira, porque os acontecimentos estão desenvolvendo-se de outra forma, porque há a pretensão de frear os povos com baionetas e quando o povo sabe que pode tomar as baionetas e voltá-las contra quem as empunha, já está perdido quem as empunha. Mas se o caminho dos povos quer se levar a partir deste do desenvolvimento lógico e harmônico, pelos empréstimos a longo prazo, com juros baixos, como anunciou o senhor Dillon, com 50 anos de prazo, também nós estamos de acordo. 

O único, senhores delegados, é que todos juntos temos que trabalhar para que aqui seja efetivado esse valor e para garantir que o Congresso dos Estados Unidos a aprove; porque que não se esqueçam que estamos diante de um regime presidencial e parlamentar, não é uma ditadura como Cuba onde aparece um senhor representante de Cuba, fala em nome do governo, e há responsabilidade de seus atos; aqui, além disso, tem que ser ratificado ali, e a experiência de todos os senhores delegados é que muitas vezes não foram ratificadas ali as promessas que se fizeram aqui... 

A taxa de crescimento que é apresentada como uma coisa belíssima para toda a América é de 2,5% de crescimento líquido [5]. A Bolívia anunciou 5% para 10 anos, nós parabenizamos o representante da Bolívia e lhe dizemos que com um pouquinho de esforço e de mobilização das forças populares, pode falar em 10%. Nós falamos em 10% de desenvolvimento sem medo algum, 10% de desenvolvimento é a taxa que Cuba prevê nos anos vindouros. 

O que isto indica, senhores delegados? Que se cada um vai pelo caminho que vai, quando a América, que atualmente tem aproximadamente [uma renda] per capita de 330 dólares, vê crescer seu produto líquido em 2,5%, vai ter 500 dólares lá pelo ano de 1980, 500 dólares per capita. Claro que para muitos países é um verdadeiro fenômeno. O que pensa ter Cuba no ano 1980? Pois uma renda líquida per capita de uns 3 mil dólares; mais que os Estados Unidos. E se não acreditam em nós, perfeito, aqui estamos [dispostos] para a competição, senhores. Que nos deixem em paz, que nos deixem desenvolver e que daqui a 20 anos venhamos todos de novo, para ver se o canto da sereia era o da Cuba revolucionária ou era outro. Mas nós anunciamos, responsavelmente, essa taxa de crescimento anual. 

Os especialistas sugerem a substituição de ineficientes latifúndios e minifúndios por fazendas bem equipadas. Nós dizemos: querem fazer a Reforma Agrária? Tomem a terra dos que têm muita e a deem ao que não tem. Assim se faz a Reforma Agrária. O resto é canto de sereia. A forma de fazê-la; se é entregue um pedaço de parcela, de acordo com todas as regras da propriedade privada; se é feita em propriedade coletiva; se é feito um meio-termo — como o temos nós—, isso depende das peculiaridades de cada povo; mas a Reforma Agrária se faz liquidando os latifúndios, não indo colonizar lá longe. 

E, assim, poderia falar da redistribuição da renda que em Cuba se fez efetiva, porque é tirado dos têm mais e lhes é permitido ter mais aos que não têm nada ou aos que têm menos, porque fizemos a Reforma Agrária, porque fizemos a Reforma Urbana, porque baixamos as tarifas elétricas e telefônicas — que, entre parênteses, esta foi a primeira escaramuça com as companhias monopolistas estrangeiras, porque fizemos círculos sociais operários e círculos infantis, onde os filhos dos operários vão receber alimentação e vivem enquanto seus pais trabalham; porque fizemos praias populares e porque nacionalizamos o ensino, que é absolutamente gratuito. Além disso, estamos trabalhando em um amplo plano de saúde. 

De industrialização falarei à parte, porque é a base fundamental do desenvolvimento e assim o interpretamos nós. 

Mas há um ponto que é muito importante —é o filtro, o purificar, os técnicos, acredito que são sete, de novo, senhores, — o perigo da latrinocracia, enfiado no meio dos acordos com os que os povos querem melhorar seus níveis de vida; outra vez políticos disfarçados de técnicos dizendo: aqui sim e aqui não; porque você fez tal coisa e tal coisa, sim, mas na realidade, porque és um fácil instrumento de quem dá os meios; e a ti não, porque fizeste isto mal; mas, na realidade, porque não és instrumento de quem dá os meios, porque dizes, por exemplo, que não podes aceitar como preço de algum empréstimo que Cuba seja agredida. 

Esse é o perigo, sem contar que os pequenos, como em todos os lugares, são os que recebem pouco ou nada. Há, senhores delegados, um só lugar onde os pequenos têm direito ao «pataleo» [6], e é aqui, onde cada voto é um voto, e onde isso há que votá-lo, e podem os pequenos, —se têm a atitude de fazê-lo—, contar com o voto militante de Cuba contra as medidas dos «sete», que são esterilizantes, purificantes e almejam canalizar o crédito com disfarces técnicos por caminhos diferentes. 

Qual é a posição que verdadeiramente conduz a uma autêntica planificação, que deve ter coordenação com todos, mas que não pode estar sujeita a nenhum outro organismo supranacional? Nós entendemos — e assim o fizemos em nosso pais — senhores delegados, que a condição previa para que haja uma verdadeira planificação econômica é que o poder político esteja nas mãos da classe trabalhadora. Esse é o sine qua non [7] da verdadeira planificação para nós. Além disso, é necessária a eliminação total dos monopólios imperialistas e o controle estatal das atividades produtivas fundamentais. Amarrados bem a esses três cabos, passa-se à planificação do desenvolvimento econômico; se não, tudo será perdido em palavras, em discursos e em reuniões. 

Além disso, há dois requisitos que permitirão fazer ou não que este desenvolvimento aproveite as potencialidades dormentes no seio dos povos, que estão esperando acordar. São, por um lado, o da direção central racional da economia por um poder único, que tenha possibilidades de decisão.— Não estou falando de possibilidades ditatoriais, mas sim de possibilidades de decisão — e, por outro, o da participação ativa de todo o povo nas tarefas da planificação. Naturalmente, para que todo o povo participe nas tarefas da planificação, terá que ser todo o povo dono dos meios de produção, se não, dificilmente participará. O povo não quererá, e os donos das empresas onde trabalha, acredito que tampouco.

Bem, podemos falar uns minutos do que Cuba obteve em seu caminho, comercializando com todo o mundo, «indo pelas vertentes do comércio», dizia Martí. 

Nós temos assinados, até o presente momento, créditos de 357 milhões de dólares com os países socialistas e estamos em conversações — que são conversações de verdade — por cento e quarenta e pouco milhões a mais, com os quais chegaremos aos 500 milhões em empréstimos nestes cinco anos. 

Esse empréstimo, que nos dá a posse e o domínio de nosso desenvolvimento econômico, chega, como dissemos, aos 500 milhões— o valor que os Estados Unidos dão à América como um todo somente para nossa pequena república. Isto, referente à República de Cuba, transposto para a América, significaria que os Estados Unidos, para proporcionar ou para fazer o mesmo trabalho, teria que dar 15 bilhões de dólares falo de pesos a dólares, porque em nosso país valem o mesmo. 

Trinta bilhões de dólares em dez anos; a cifra que nosso Primeiro Ministro solicitara e, com isso, se há uma acertada condução do processo econômico, a América Latina, em somente cinco anos, seria outra coisa. 
Continua
 
Traduzido pela equipe do Fuzil contra Fuzil



Notas

[1] Roberto Ibáñez (1907-1978) foi um poeta uruguaio responsável por resgatar a vida e obra de diversos autores uruguaios de destaque, tendo trabalhado como pesquisador e professor da literatura nacional desse país.

[2] Programa de “ajuda” mútua desenvolvido pelos Estados Unidos na América Latina, cujo conteúdo, na prática, era uma forma de buscar contrapor a influência da Revolução Cubana no continente.

[3] Então delegado dos Estados Unidos.

[4] Em espanhol, essa expressão equivale a algo próximo de “em espécie”.

[5] Crescimento do Produto Interno Bruto com desconto da depreciação dos bens de capital construídos.

[6] Em espanhol, algo como fazer escândalo, protestar.

[7] Do latim, “condição {sem a qual não}[IT]” algo é impossível.

domingo, 28 de agosto de 2016

Acesso de Cuba à Internet completa 20 anos.

Apesar das dificuldades impostas pelo bloqueio, pouco a pouco a internet passa a ser cada vez mais acessada na Ilha. Ainda assim, ao contrário do que pode parecer, o acesso dos cubanos tanto às redes externas quanto internas não é novidade.

Nesse 22 de agosto, completa-se 20 anos desde que o pleno acesso de Cuba à Internet ocorreu, através da ligação do IDICT com o GLOBAL-ONE fornecedor dos EUA, por meio de um canal de transmissão 64 Kbs, o que favoreceu significativamente o serviço de e-mails.

Em 1973, Cuba juntou-se ao Centro Internacional de Informação Científica e Técnica dos países membros do Conselho de Assistência Mútua Econômica (CAME), e começou seu trabalho no Sistema Internacional de Informação Científica e Técnica. Neste mesmo ano entra em funcionamento a estação terrestre Caribe, integrada ao sistema Intersputnik  de comunicações por satélites artificiais.

Entre fevereiro de 1983 e maio de 1984, um grupo de especialistas e instituições cubanas e soviéticas começou a realizar um trabalho experimental conjunto para a transmissão automatizada de informações via satélite. Em 1985, instalou-se o Centro Nacional de Intercâmbio Automatizado de Informações, um microcomputador de fabricação Norueguesa para desenvolver gradualmente e testar vários serviços telemáticos, incluindo mensagens eletrônicas. [1]

Em Junho de 1987, estabeleceu-se na província de Matanzas o primeiro equipamento de comunicações desenvolvido em Cuba com a sua própria tecnologia, e permitiu-se o estabelecimento de uma pequena rede experimental ao serviço do Poder Popular Provincial, que funcionou como parte da rede da Academia de Ciências de Cuba (REDACC).

O relatado até aqui mostra os esforços feitos pelo governo cubano desde os anos 1970, para acelerar a introdução de tecnologias que permitissem o desenvolvimento de redes de computadores no país e acesso à informação

Creio que é importante lembrar que, desde 1986, a empresa de telecomunicações dos Estados Unidos, a AT & T, começou a negociar com o governo de seu país a autorização para construir um cabo submarino analógico entre os EUA e Cuba, que substituiria ultrapassado sistema troposférico, única via de comunicação existente entre os dois países na época.

Em meados de 1988 são obtidas as autorizações para a colocação do cabo submarino sem deixar de aplicar o bloqueio tecnológico contra Cuba, porque era um trecho de cabo de tecnologia ultrapassada, recuperado do fundo do mar depois de ser substituído no Atlântico, e com uma capacidade de apenas 143 circuitos, quando as necessidades de tráfego existente eram muito mais elevadas. Não obstante essa discriminação tecnológica, o governo cubano também autorizou a realização da ligação como um esforço a mais para manter as comunicações.

Em 1989, depois de vários meses destinadas a prospecção, projeção, preparação, colocação de cabos e sintonia das estações, conclui-se a instalação do sistema de cabo submarino analógico  entre Cuba e os EUA, o denominado Cabo No 7 .

Apesar disso, este cabo nunca foi posto em serviço já que o governo dos EUA não aprovou um acordo de serviços justo, razoável, equitativo, e em conformidade com as normas internacionais entre os operadores de telecomunicações de ambos os países. Da mesma forma, durante anos impediram com que Cuba fosse conectada a redes de telecomunicações internacionais via cabos de fibra ótica que passam perto da ilha, alguns poucos 30 quilômetros, forçando conexões com uso de satélites, que não só são mais caros, mas que são de banda mais restritas, mantendo as conexões lentas.

Em 1996, Cuba tinha quatro redes com conexões internacionais: Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia (CIGBnet), Centro de Intercâmbio Automatizado de Informação (CENIAI), Jovem Club (Tinored) e Ministério da Saúde (Infomed). Naquele ano, um relatório da Rand Corporation, um think tank ligado ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos reconhece que "Cuba tem desenvolvido uma considerável comunidade de redes com capacidades e serviços. Isso é o resultado de uma dedicação de longo prazo para a educação em toda a sociedade, um importante desenvolvimento de programas de pesquisa e terapêuticos no campo da biotecnologia e da medicina. Cuba tem todo o conhecimento necessário para operar um link de IP internacional e o consentimento do governo. Faltam fundos e um contrato de trabalho ou plano de cooperação entre várias redes; mas, eventualmente, irão conseguí-lo "[2]

Entre as recomendações da Rand Corporation para o Pentágono refletidos nesse relatório estão: estimular uma conexão IP direta com a Internet para dar aos cubanos acesso interativo a materiais estrangeiros; dar uma resposta rápida ao pedido feito pela empresa WilTel de uma autorização para construir um cabo óptico entre os Estados Unidos e Cuba, pendente desde março de 1994, e outras solicitações para fornecer vários serviços relacionados a dados; estimular viagens desde Cuba para fins de treinamento e capacitação na administração de redes de computadores, e outras formas de intercâmbio técnico.

Neste contexto, ocorre o pleno acesso de Cuba à rede, há 20 anos. O progresso discreto na expansão dos serviços de Internet, na minha opinião, tem como raiz o bloqueio tecnológico, a interferência nos assuntos de nosso país usando as TIC e as dificuldades de natureza interna que prevaleceram nesse período.

Escrito por Omar Pérez Salomón, publicado em La Pupila Insomne
Tradução Equipe Fuzil contra Fuzil.

Notas:

[1] Do livro “Secretos de Internet”.

[2] Relatório da Rand Corporation: “Las telecomunicaciones cubanas, la red de computación y las implicaciones en la política de los Estados Unidos.” Elaborado para a Oficina do Secretário de Defesa dos Estados Unidos, julho de 1996.

domingo, 21 de agosto de 2016

Cuba é uma nação socialista - Fidel Castro - Parte II

Leia a Parte I.

Discurso Pronunciado por Fidel Castro em  1º de Maio de 1961

"...

Não há Tempo para Eleições

Houve um período para a abolição de privilégios. As pessoas agora tem tempo para eleições? Não! O que eram os partidos políticos? Só uma expressão dos interesses de classe. Aqui só há uma classe, a humilde; aquela classe está no poder, então ela não está interessada na ambição de um minoria exploradora de voltar ao poder. Aquelas pessoas não teriam nenhuma chance em uma eleição. A revolução não tem tempo a perder com esse tipo de tolices. Não há chance para a classe exploradora reconquistar o poder. A revolução e povo sabem que a revolução expressou sua vontade; a revolução não vem ao poder com armamento ianque. 

Ela vem através da vontade do povo em luta contra todo tipo de armamento, armamento ianque.

A revolução mantêm-se no poder através do povo. No que o povo está interessado? Em fazer a revolução avançar sem perder um só minuto. (Aplausos) Pode qualquer governo na América afirmar ter mais apoio popular que esse? Por que a democracia deve ser essa pedante e falsa democracia dos outros, ao invés dessa direta expressão da vontade do povo? As pessoas morrem lutando ao invés de ir a uma eleição para escrever nomes em um papel. A revolução deu a cada cidadão uma arma, uma arma a todo homem que quis entrar na milícia. Então algum tolo vem para perguntar se, tendo a maioria por que nós não fazemos eleições? Porque o povo não se importa de satisfazer tolos e pequenos finos cavalheiros! As pessoas estão interessadas em avançar.
Eles não tem tempo a perder. O povo deve gastar uma quantidade tremenda de energia se preparando contra agressões, enquanto todos sabemos que queremos construir escolas, casas e fábricas. Não não somos belicosos. Os ianques gastam a metade de seu orçamento em armamento; não somos belicosos. Nós somos obrigados a despender aquelas energia, por causa dos imperialistas. Não temos ambições expansionistas. Não queremos explorar nenhum trabalhador de nenhum país. Não estamos interessados em planos agressivos; fomos forçados a ter tanques, aviões, metralhadoras e força militar para nos defender.
A recente invasão mostra o quão corretos estamos em nos armar. Em Playa Giron eles vieram para matar camponeses e trabalhadores. O imperialismo forçou-nos ao armamento para nossa defesa. Fomos forçados a colocar energia, materiais e recursos nisso, embora preferiríamos colocar esses recursos em mais escolas, para que em futuros desfiles possa existir mais atletas e estudantes. Se nosso povo estivesse desarmado, eles não poderiam ter esmagado os mercenários que vieram com equipamentos modernos.
Os imperialistas teriam se lançado contra nós a muito tempo se não nos tivéssemos armado. Mas nós preferimos morrer antes de render o país que temos agora. Eles sabem disso. Eles sabem que encontrarão resistência e então os círculos agressivos do imperialismo devem parar e pensar.
Então somos forçados, pela ameaça de agressão a proclamar aos quatro cantos do mundo: Todo o povo da América deveria se elevar em indignação depois da afirmação de que um país pode intervir em outro só por causa o primeiro é mais forte. Tal política significaria que o vizinho mais poderoso tem o direito de intervir para evitar um povo de se autogovernar de acordo com sua escolha. É inconcebível que deveriam existir miseráveis governos como esses; depois da agressão que matou trabalhadores e camponeses, é inconcebível que eles até mesmo tenham começado uma política de romper com Cuba, ao invés de romper com Somoza, Guatemala, ou o governo de Washington que paga por aviões, tanques e armamentos para vir aqui e matar camponeses.
O governo da Costa Rica disse que, se os mercenários fossem executados, romperia relações conosco. Eles não tem razão alguma para romper, então buscam um pretexto, nesse caso escolhendo  a questão das execuções.
Aqueles que promovem a política de usar Cuba, às ordens do imperialismo, são traidores miseráveis aos interesses e sentimentos da América. (Aplausos) Esses fatos mostram-nos a política podre que prevalece em muitos países latino americanos, e como a revolução cubana inverteu essas formas corruptas para estabelecer novas formas nesse país.
Nova Constituição Socialista
Para aqueles que falam a nós sobre a Constituição de 1940, nós respondemos que a Constituição de 1940 está datada e velha para nós. Nós avançamos muito rápido para aquela pequena seção da Constituição de 1940, que era boa para o seu tempo, mas nunca foi posta em prática. Aquela constituição foi ultrapassada pela revolução, que como dissemos, é uma revolução socialista. Devemos sim falar de uma nova constituição, uma nova constituição, mas não uma constituição burguesa, não uma constituição que corresponda a dominação e exploração de certas classes, mas uma constituição que corresponda a um novo sistema social sem a exploração do homem sobre o homem. O novo sistema social é chamado de socialismo e essa constituição será, consequentemente, uma constituição socialista.

Protesto de Kennedy
Se o Sr. Kennedy não gosta de socialismo, nós não gostamos de imperialismo! Nós não gostamos de capitalismo! Nós temos todo direito de protestar sobre a existência de um regime capitalista-imperialista a 90 milhas de nossa costa. No passado e agora, nós não pensamos em protestar em relação a isso, porque isso é coisa do povo dos Estados Unidos. Seria absurdo para nós tentarmos contar para o povo dos Estados Unidos que sistema de governo eles deveriam ter, nesse caso nós estaríamos considerando que os Estados Unidos não são uma nação soberana e que nós temos direitos sobre a vida política interna dos Estados Unidos.
Direitos não vem com tamanho. Direitos não vem do fato de um país ser maior que o outro. Isso não importa. Nós temos um território limitado, uma pequena nação, mas nosso direito é tão respeitável quanto o de qualquer país, independentemente do tamanho. Não nos passa pela cabeça falar para o povo dos Estados Unidos qual sistema de governo eles devem ter. Portanto, é absurdo o Sr. Kennedy nos falar qual governo ele quer que estabeleçamos aqui. Isso é absurdo. Sr. Kennedy faz isso por não ter um conceito claro de leis internacionais nem de soberania. Quem teve essas ideias antes de Kennedy? Hitler e Mussolini!
Eles falaram a mesma língua, a da força; é a língua fascista. Nós ouvimos anos antes do ataque da Alemanha sobre a Czechoslovakia. Hitler a dividiu pois era governada por um governo reacionário. A burguesia, reacionária e protofascista, com medo do avanço do sistema socialista, preferiu até a dominação de Hitler. Nós ouvimos aquela linguagem na véspera da invasão a Dinamarca, Bélgica, Polônia e assim por diante. É o direito do poder. Esse é o único direito que Kennedy sugere quando declara o direito a interferência em nosso país.
Esse é um sistema socialista, sim! Sim, esse é um regime socialista. Está aqui, mas a culpa não é nossa, a culpa e é de Colombo, dos colonizadores ingleses, os colonizadores espanhóis. O povo dos Estados Unido algum dia ficará cansado.

Nenhuma ameaça aos Estados Unidos

O governo dos Estados Unidos diz que um regime socialista aqui ameaça a segurança dos Estados Unidos. Mas o que ameaça a segurança do povo da América do norte é a política agressiva dos belicistas dos Estados Unidos. O que ameaça a segurança da família da América do norte e seu povo é a violência, a política agressiva, aquela política que ignora a soberania e os direitos dos outros povos. Aquela política agressiva pode levar a uma guerra mundial; e a guerra mundial pode custar as vidas de dezenas de milhões de norte americanos. Portanto, aquele que ameaça a segurança dos Estados Unidos não é o Governo Revolucionário de Cuba, mas o agressor e agressivo governo dos Estados Unidos.
Nós não colocamos em perigo a segurança de um único norte-americano. Nós não pomos em perigo a vida ou a segurança de uma única família norte-americana. Nós, fazendo cooperativas, reforma agrária, ranchos do povo, casas, escolas, campanhas de alfabetização e mandando centenas e centenas de professores para o interior, construindo hospitais, mandando médicos, dando bolsas de estudos, construindo fábricas, aumentando a capacidade produtiva do país, criando praias públicas, convertendo fortalezas em escolas e dando ao povo o direito a um futuro melhor – nós não pomos em perigo uma única família ou um único cidadão dos Estados Unidos da América.
Aqueles que colocam em perigo milhões de famílias, de dezenas de milhões de norte-americanos são aqueles que brincam com a guerra atômica. São aqueles que, segundo General Cardenas fala, estão brincando com a possibilidade de Nova York se tornar Hiroshima. Aqueles que estão brincando com a guerra atômica, com a sua guerra agressiva, com a sua política que viola os direitos do povo são aqueles que colocam em perigo a segurança da nação da América do norte, a segurança das vidas de  milhares de norte-americanos desconhecidos.

O que os monopolistas temem? Eles dizem que não estão seguros com uma revolução socialista por perto. Eles estão, como Khruscev fala, provando que seu sistema é inferior. Eles nem acreditam no próprio sistema. Por que eles não nos deixam em paz quando o que o nosso governo quer é paz?

A recusa do EUA em negociar


Recentemente, nosso governo publicou a afirmação de que nós estaríamos dispostos a negociar. Por que? Porque nós temos medo? Não! Nós estamos convencidos que eles temem a revolução mais do que tememos eles. Eles tem uma mentalidade que não os permite dormir quando eles sabem que existe uma revolução por perto.
Medo? Ninguém tem medo aqui. O povo que luta pela sua liberdade nunca se amedronta. Os amedrontados são os ricos. Aqueles que tem sido ricos. Nós não temos interesse no suicídio do imperialismo às nossas custas. Eles não se importam com a morte de negros, porto riquenhos ou americanos. Mas nós nos importamos com cada vida cubana. Nós estamos interessados em paz.
Nós estamos prontos para negociar. Eles falam que as condições econômicas podem ser discutidas, mas não o comunismo. Bem, de onde eles tiraram a ideia de que nós discutiríamos isso? Nós discutiríamos problemas econômicos. Mas não estamos prontos para admitir essas conversas tanto quanto a pincelada de uma pétala de uma rosa. O povo cubano é capaz de estabelecer o regime que ele quiser. Nós nunca pensamos na possibilidade de discussão do regime. Nós discutiremos apenas coisas que não afetem nossa soberania. Nós queremos negociar em nome da paz.
Aqueles que não se preocupam sobre encaminhar o povo americano para guerra estão sendo guiados por emoções. Nós não temos medo. Se eles pensam que sim, deixem eles rejeitarem aquela ideia. Nenhum cubano está com medo. Se eles pensam que discutiremos nossa política interna, deixem eles esquecerem isso. Deixem eles discutir todos os tópicos que querem discutir. Nós discutimos com os invasores, não? Bem, nós debateremos com qualquer um. Nós estamos dispostos a falar. Estamos dispostos a debater. Mas isso quer dizer que desejamos negociar nossa política interna? Claro que não. Nós estamos apenas dando um passo sensato. Isso quer dizer que a revolução irá desacelerar? Claro que não! Nós continuaremos, pegando velocidade o quanto pudermos.

Matar invasores estrangeiros

Se eles querem dizer que não se importam com a soberania dos países, deixem-nos dizê-lo. Mas estamos prontos para defender, bem como negociar. Nós estamos prontos para atirar um milhão de tiros no primeiro ianque paraquedista que tentar pousar aqui. Do primeiro momento que eles desembarcarem em nosso solo eles podem ter certeza que eles começaram a guerra mais difícil das quais eles já ouviram. Aquela guerra seria o começo do fim do imperialismo. Com a mesma disponibilidade para negociar, nós lutaremos. Até mesmo os pioneiros lutariam. Cada homem, mulher e criança tem um dever no caso de um ataque estrangeiro – matar! Se nós somos atacados por estrangeiros não haverá prisioneiros. O invasor estrangeiro deve saber que deve matar a todos nós! Enquanto um viva, ele terá um inimigo! Luta de vida ou morte! Não há meio termo! Será uma guerra sem prisioneiros!
Se os invasores desembarcam em solo cubano não iremos querer nossas vidas. Nós lutaremos até o último homem contra qualquer um que colocar os pés em nossa terra. Todos os homens e mulheres devem saber de seus deveres. Esse dever será cumprido de maneira simples e natural enquanto o povo luta uma guerra justa.
É um crime que nosso povo não seja deixado em paz para completar nosso trabalho de justiça por aqueles que outrora viveram em humilhação e miséria. É uma pena que interesses ilegítimos foram determinados a causar o mal a nosso país. Enquanto eles tentaram  cortar nossos suprimentos, eles estavam abastecendo os mercenários com armas para invadir nosso país e derramar o sangue do povo. E nessa vergonhosa tarefa, quem participou?
Eu já os falei sobre sua composição social. Padres também não faltavam. Três deles vieram. Nenhum era cubano, eles eram espanhóis. Você lembra que quando nós perguntamos eles disseram que vieram em uma missão puramente espiritual. Eles disseram que vieram em uma missão cristã. Mas revisando os seus livros nós achamos isso: um apelo para o povo por Ismael de Lugo: "Atenção católicos cubanos: as forças libertadoras desembarcaram em praias cubanas. Nós viemos em nome de Deus – como se Calvino viesse no nome de Deus – justiça e democracia para reestabelecer a pisoteada liberdade - Isso deve ser mentira. Nós viemos por causa do amor, não do ódio. Nós viemos com milhares de cubanos, os quais são católicos e cristãos – que mentira, cujo espírito é o espírito dos cruzados. (Notas do Editor: Castro continua lendo a mensagem escrita pelo Padre de Lugo...)

E esse cavalheiro não é nem cubano; ele é um espanhol falangista. Ele poderia ter economizado todos aqueles apelos e energia de guerreiro para lutar contra a guarda moura de Franco. Por que ele veio aqui com outros 3 padres falangistas espanhóis ao invés de ir para a Espanha lutar pela liberdade contra Franco, que está oprimindo o povo espanhol por 20 estranhos anos e que se vendeu  para o imperialismo ianque? Os ianques não estão lutando pela liberdade na Espanha, Nicarágua ou Guatemala. Eles são grandes amigos de Franco. E esses padres falangistas vieram aqui, quando é na Espanha que eles deveriam estar lutando pela liberdade, pelos camponeses e trabalhadores. Os padres falangistas ao invés disso vem aqui pregar contra os trabalhadores e camponeses que se livraram da exploração. E vieram três, não apenas um; e o quarto, em Escambray, é espanhol também.

Padres estrangeiros a serem expulsos

Nós vamos anunciar aqui para o povo que nos próximos dias o Governo Revolucionário passará uma lei declarando inválida qualquer permissão assegurada por qualquer padre estrangeiro nesse país. E essa lei terá uma única exceção: vocês sabem a quem? Um padre estrangeiro poderá ficar com permissão especial, aprovada pelo governo, se ele não estiver combatendo a revolução e não estiver mantendo atividades contrarrevolucionárias. Ele pode pedir permissão, e o governo poderá garantir se considerar adequado, pois existem padres estrangeiros, pela via da exceção, que não se posicionaram contra a revolução, embora a regra geral seja o contrário.
Claro, eles falarão que somos ímpios, inimigos da religião. Como eles podem dizer isso depois de um líder de um serviço eclesiástico, enquanto proclamava que ele estava chegando para realizar um serviço espiritual, também assinou um manifesto como esse – de natureza política? Pode a revolução continuar permitindo atos como esses continuarem impunes?
E deixar esses cavalheiros trazerem o inferno aqui, trazerem o inferno para a terra aqui, com a guerra criminosa, seus calvinistas, seus Soler Puigs, seus latifundiários e seus filhos privilegiados, para trazer o inferno para a terra aqui para os camponeses e trabalhadores? Podemos deixar a falange espanhola continuar promovendo derramamento de sangue e conspiração aqui por meio de seus padres? Não, nós não estamos dispostos a permitir isso. Os padres falangistas sabem agora, eles podem começar a fazer as malas (Aplausos).
Eles estão realizando atividades contrarrevolucionárias nas escolas também, envenenando as mentes  dos alunos. Eles estão formando mentes terroristas. Eles estão ensinando ódio para o país. Por que a revolução deveria tolerar isso? Seríamos culpados se deixássemos isso ir adiante.

Nacionalização das escolas privadas
Nós anunciamos aqui que nos próximos dias o governo revolucionário irá passar uma lei nacionalizando as escolas privadas. Essa lei não pode ser uma lei para um setor; será geral. Isso quer dizer que escolas privadas serão nacionalizadas; claro, não uma pequena escola, na qual uma professora dá aulas, mas escolas privadas com vários professores.
Diretores de escolas privadas mostraram diferentes tipos de conduta. Muitas diretores de escolas privadas não estão inculcando veneno contrarrevolucionário. A revolução sente como sendo seu dever organizar e estabelecer o princípio de educação gratuita para todos os cidadãos. O povo sente que ele tem o dever de treinar as futuras gerações no espírito de amor por seu país, por justiça, pela revolução.
O que deve ser feito no caso de escolas privadas que não mostraram conduta contrarrevolucionária? O governo Revolucionário indenizará aqueles diretores ou donos de escolas cuja atitude não tiver sido contrarrevolucionária, cuja atitude foi favorável para a revolução; e a revolução não indenizará nenhuma escola cujos professores estão travando uma campanha contrarrevolucionária, que foram contra a revolução.
Aos professores e empregados de todas essas escolas, serão dados trabalhos. Ou seja, os empregados e professores dessas escolas terão trabalhos garantidos. Os alunos dessas escolas poderão continuar frequentando-as, os padrões educacionais será mantido alto ou aumentado e além disso, eles  não terão de pagar absolutamente nada para frequentá-las.

Religião não é restringida

Villanueva é incluída nessa nacionalização, claro. Eles falarão que esse governo ímpio se opõe à instrução religiosa. Não senhor. Nós nos opomos é contra esses atos sem-vergonha que estão sendo cometidos e esse crime contra o nosso país. Eles podem ensinar religião, sim; nas igrejas eles podem ensinar religião.
Religião é uma coisa, política é outra. Se esses cavalheiros não fossem contra os interesses políticos do povo, não poderíamos nos importar menos com suas pastorais, a discussão de questões religiosas, etc. As igrejas podem manter-se abertas; religião pode ser ensinada aqui, Não seria muito melhor se eles se restringissem aos seus ensinamentos religiosos? Não seria melhor ter paz? Eles podem ter paz, dentro de estritos limites de respeito de acordo com o povo revolucionário e o governo. Mas eles não podem guerrear contra o povo em serviço dos exploradores. Isso não tem nada a ver com religião; tem a ver com sangue, com ouro, com interesses materiais. Eles podem ter consideração pelo povo, nos limites de respeito e direitos mútuos.
O cristianismo surgiu como uma religião dos pobres, de escravos e dos oprimidos de Roma – a religião que floresceu nas catacumbas. Era a religião dos pobres e obteu o respeito de leis. Coexistiu com o Império Romano. Então veio o feudalismo. Aquela igreja coexistiu com o feudalismo, mais tarde com monarquias absolutas, depois com repúblicas burguesas. Aqui a república burguesa desaparece; por que não deveria a mesma igreja coexistir com um sistema de justiça social que é muito superior às formas anteriores de governo? Esse sistema é muito mais cristão que o imperialismo ianque ou política burguesa, ou o Império Romano. Nós acreditamos que a coexistência é perfeitamente possível. A revolução não se opõe à religião. Eles usaram a religião como um pretexto para combater os pobres. Eles esquecem o que Cristo disse sobre ser mais fácil para um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um homem rico ir para o céu.

O pequeno homem de negócios protegido
Aqueles são fatos. Nós falamos, com sempre, claramente. Isso apenas quer dizer que estamos preparados para defender a revolução e continuar avançando, convencidos da justiça de nossa causa.
Nós falamos de nossa revolução socialista. Não quer dizer que o pequeno homem de negócio ou pequeno industrial precise se preocupar. Minas, combustível, bancário, usinas de açúcar, comércio de exportação e importação – a maior parte da economia – está nas mãos do povo. Dessa forma o povo pode desenvolver nossa economia. O pequeno industrial e pequeno homem de negócios podem coexistir com a revolução. A revolução sempre teve cuidado em relação aos interesses dos pequenos proprietários.
A reforma urbana é uma prova. Esse mês, todos os pequenos proprietários de terras receberão cerca de 105,000 pesos. Antigamente, se o inquilino não pagasse o aluguel, o proprietário não recebia; agora um fundo foi estabelecido para garantir que o dono da terra seja pago. A revolução terá 80 milhões de pesos por ano para construção pela reforma urbana. E quando o aluguel é a única renda desses donos de terra, a revolução determinou que depois que a casa foi integralmente paga, o dono de terra receberá uma pensão. Uma revolução socialista não quer dizer que os interesses de certos setores serão eliminados sem consideração. Os interesses dos grandes proprietários de terras, banqueiros e industriais foram eliminados. Nenhum interesse social dos níveis mais baixos da sociedade foram condenados. A revolução irá aderir à sua palavra: nenhum interesse médio será afetado sem consideração.
Pequenos empresários e industriais tem crédito hoje. A revolução não tem interesse na sua nacionalização. A revolução tem o bastante para desenvolver as fontes de riqueza que agora tem a sua disposição. A revolução sente que aqui pode existir colaboração do pequeno empresário e do pequeno industrial. Ela acredita que seus interesses  podem coincidir com aqueles da revolução. 

Contrarrevolucionários afirmaram que as barbearias seriam nacionalizadas, mesmo barracas de comida. A revolução não os tem como objetivo. A solução desses problemas será o resultado de uma longa evolução. Existe alguns problemas; algumas vezes tomates e abacaxis são vendidos na cidade a preços mais altos do que nos campo. Ainda existe uma pequena praga de atravessadores. A revolução ainda tem de tomar medidas para se livrar dos abusos dos atravessadores, para melhorar o consumo para as pessoas. Mas eu não quero que as pessoas fiquem confusas. Eu quero que todos saibam o que esperar.

O chamado para a colaboração
Basicamente a revolução já passou suas medidas. Ninguém precisa se preocupar. Por que não se juntar a esse entusiasmo, nessa proeza? Por que ainda existem cubanos aborrecidos por essa felicidade? Eu me perguntei isso enquanto assistia o desfile. Por que alguns cubanos são incapazes de entender que sua felicidade pode também ser deles? Por que eles não se adaptam à revolução? Por que não ver as suas crianças nas escolas aqui? Algumas pessoas não podem se adaptar, mas a sociedade futura será melhor do que a antiga.
Essa é a hora na qual nós, longe de usarmos o momento contra os que não entendem, devemos perguntar a eles se já não é tempo deles se juntarem a nós. 

A revolução considera necessário que eles sejam retidos. Talvez eles já tenham sido. A revolução não quer que se use força contra a minoria. A revolução quer que todos os cubanos entendam. Nós não queremos que toda essa felicidade e emoção toda apenas para nós. É a glória do povo.
Nós dissemos a todos que mentiram no passado e não entenderam. Nós francamente dizemos que nossa revolução deveria ser menosprezada pelas sanções severas contra os mercenários. Isso serve como uma arma para os nossos inimigos. Nós dizemos isso, porque nós contamos ao povo tudo o que beneficiará a revolução. Nós tivemos uma vitória moral e será maior se nós não mancharmos a nosso vitória.
As vidas perdidas nos machucam o mesmo que machucam aos outros, Mas nós devemos superar isso e falar pelo prestígio e pela nossa causa. O que está diante de nós? O risco da agressão imperialista! Grandes tarefas! Chegamos ao ponto no qual nós devemos entender que chegou o momento de fazermos o nosso maior esforço. Os próximos meses são muito importantes. Eles serão meses nos quais nós devemos fazer grandes esforços em todos os campos. Todos nós temos a tarefa de fazer o máximo, ninguém tem o direito de descansar. Com o que nós vimos hoje, nós devemos aprender que com esforço e coragem nós podemos colher magníficos frutos. E as frutas de hoje não são nada se comparadas ao que pode ser feito se nós nos empenharmos ao máximo.
Antes de concluir, eu gostaria de lembrar o que eu disse no julgamento Moncada. Aqui está o parágrafo: O país não pode ficar de joelhos implorando milagres do bezerro de ouro. Nenhum problema social é resolvido espontaneamente. Nesse momento tínhamos expressado nossos pontos de vista. 

A revolução seguiu as ideias revolucionárias daqueles que tiveram um importante papel nessa luta.
Esse é o porquê de quando um milhão de cubanos se reuniram para proclamar a Declaração de Havana, o documento expressou a essência da revolução, nossa revolução socialista. Dizia que condenava os proprietários de terra, os salários de fome, analfabetismo, falta de professores, médicos, hospitais, discriminação, exploração das mulheres, oligarquias que atrasavam o país, governos que ignoravam a vontade do povo obedecendo as ordens dos EUA, monopólios das agências de notícias ianques, leis que preveniam as massas de se organizarem e os monopólios imperialistas de riqueza. A assembleia geral do povo condenou a exploração do homem pelo homem. A assembleia geral proclamou o seguinte: o direito ao trabalho, educação, dignidade do homem, direitos civis às mulheres, previdência aos aposentados, liberdade artística, nacionalização dos monopólios. Esse é o programa de nosso revolução socialista.

Vida longa à classe trabalhadora cubana! Vida longa às nações latino-americanas! Vida longa à nação! Pátria ou morte! Venceremos!"

Tradução: equipe do Fuzil contra Fuzil

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Ernesto Che Guevara na 19ª Assembléia Geral da ONU, 1964 - Parte II

Reproduzimos abaixo a parte II do histórico discurso de Ernesto Che Guevara na Assembleia das Nações Unidas. Antes de prosseguir, Leia a Parte I.

"(...)
Tocaremos somente os temas sobre desenvolvimento econômico e comércio internacional que tem ampla representação na agenda. Neste mesmo ano de 64 se celebrou a Conferência de Genebra, onde se tratou de muitos pontos relacionados a estes aspectos das relações internacionais. As advertências e previsões da nossa delegação foram confirmadas plenamente, para a desgraça dos países economicamente dependentes.

Só queremos deixar assinalado que, no que respeita a Cuba, os Estados Unidos da América não tem cumprido recomendações explícitas desta Conferência e, recentemente, o governo norte-americano proibiu também a venda de remédios a Cuba, caindo definitivamente a máscara do humanitarismo que pretendeu ocultar o caráter agressivo que tem o bloqueio contra o povo de Cuba.

Por outra parte, expressamos uma vez mais que as cicatrizes coloniais que detêm o desenvolvimento dos povos não se expressam somente nas relações de índole política: a chamada deterioração dos termos de troca não é outra coisa que o resultado do intercâmbio desigual entre os países produtores de matéria-prima e os países industriais que dominam os mercados e impõe a aparência de uma justa troca de iguais valores.

Enquanto os povos economicamente dependentes não se liberarem dos mercados capitalistas e, em firme bloco com os países socialistas, liberarem as impostas relações entre exploradores e explorados, não haverá desenvolvimento econômico sólido, e se retrocederá, em certas ocasiões, voltando a cair os países débeis sob o domínio político dos imperialistas e colonialistas.

Por último, Senhores Delegados, temos que estabelecer claramente que se está realizando na área do Caribe manobras e preparativos para agredir a Cuba. Nas costas da Nicarágua sobretudo, na Costa Rica também, na zona do Canal do Panamá, nas ilhas Vieques de Porto Rico, na Florida; provavelmente, em outros pontos do território dos Estados Unidos e, talvez, também nas Honduras, estão treinando mercenários cubanos e de outras nacionalidades com algum fim que não deve ser o mais pacífico.

Depois de um escândalo estrondoso, o governo da Costa Rica afirma que ordenou a liquidação de todos os campos de treinamento de cubanos exilados neste país. Ninguém sabe se esta atitude é sincera ou se constitui uma simples desculpa, devido a que os mercenários ali treinados estavam a ponto de cometer alguma crueldade. Esperamos que se tome clara consciência da existência real destas bases de agressão, que estamos denunciando há tanto tempo, e se medite sobre a responsabilidade internacional que tem o governo de um país que autoriza e facilita o treinamento de mercenários para atacar Cuba.

É preciso notar que as notícias sobre o treinamento de mercenários em distintos pontos do Caribe e a participação que tem em tais atos o governo norte-americano se dá com naturalidade nos periódicos estadunidenses. Não sabemos de nenhuma voz latino-americana que protestou oficialmente por isto. Isto só nos mostra o cinismo com que maneja os Estados Unidos os seus piões. Os perspicazes conselheiros da OEA que tiveram olhos para ver escudos cubanos e encontrar provas "irrefutáveis" nas armas ianques exibidas na Venezuela, não conseguem ver os preparativos de agressão que se mostram nos Estados Unidos, como não ouviram a voz do presidente Kennedy que se declarava explicitamente agressor de Cuba em Playa Girón(7).

Em alguns casos é uma cegueira provocada pelo ódio das classes dominantes de países latino-americanos sobre nossa Revolução; em outros, mais tristes ainda, é produto dos deslumbrantes resplendores de Mamon.

Como é de todos conhecido, depois da tremenda comoção chamada crise do Caribe, os Estados Unidos contraíram com a União Soviética determinados compromissos que culminaram na retirada de certos tipos de armas que as contínuas agressões daquele país - como o ataque mercenário de Playa Girón e as ameaças de invadir nossa pátria - nos obrigaram a instalar em Cuba em um ato de legítima e irrenunciável defesa.

Pretenderam os norte-americanos, além disso, que as Nações Unidas inspecionassem nosso território, coisa que negamos enfaticamente, já que Cuba não reconhece o direito dos Estados Unidos, nem de ninguém no mundo, de determinar que tipo de armas que pode ter dentro de suas fronteiras.

Neste sentido, só aceitaríamos acordos multilaterais, com iguais obrigações para todas as partes.

Como já disse Fidel Castro: "Enquanto o conceito de soberania exista como prerrogativa das nações e dos povos independentes; como direito de todos os povos, nós não aceitamos a exclusão do nosso povo deste direito. Enquanto o mundo for regido por estes princípios, enquanto o mundo for regido por esses conceitos que tenham validez universal, porque são universalmente aceitados e consagrados pelos povos, nós não aceitaremos que nos privem de nenhum destes direitos, nós não renunciaremos a nenhum destes direitos".

O senhor Secretário-Geral das Nações Unidas, U Thant, entendeu nossas razões. Entretanto, os Estados Unidos pretenderam estabelecer uma nova prerrogativa arbitrária e ilegal: a de violar o espaço aéreo de qualquer país pequeno. Assim estão cruzando o ar de nossa pátria, aviões U-2 e outros tipos de aparatos de espionagem que, com toda impunidade, navegam em nosso espaço aéreo. Temos feito todas as advertências necessárias para que cessem as violações aéreas, assim como as provocações que a marinha ianque fazem contra nossos postos de vigilância na zona de Guantánamo, os voos rasantes de aviões sobre nossos navios ou de outras nacionalidades em águas internacionais, os ataques piratas a barcos de distintas bandeiras e as infiltrações espiãs, sabotadoras e armas em nossa ilha.

Nós queremos construir o socialismo; temos declarado ser partidários dos que lutam pela paz; temos nos declarado dentro do grupo de países não alinhados, a pesar de sermos marxistas-leninistas, porque os não-alinhados, como nós, lutam contra o imperialismo. Queremos paz, queremos construir uma vida melhor para nosso povo e, por isto, nos resguardamos ao máximo para não cair nas provocações maquinadas pelos ianques, ainda que conheçamos a mentalidade de seus governantes; querem nos fazer pagar muito caro o preço desta paz. Nós contestamos que este preço não pode chegar mais além das fronteiras da dignidade.

E Cuba reafirma, uma vez mais, o direito a ter seu território as armas que lhe convir e sua negativa a reconhecer o direito de nenhuma potência da terra, por potente que seja, de violar nosso solo, nossas águas jurisdicionais e nosso espaço aéreo.

Se em alguma assembleia Cuba adquire obrigações de caráter coletivo, cumprirá estas fielmente; enquanto isto não aconteça, manteremos plenamente todos nossos direitos, igualmente a qualquer outra nação.

Ante as exigências do imperialismo, nosso Primeiro Ministro propôs cinco pontos necessários para que exista uma sólida paz no Caribe. Estes pontos são:

"Primeiro: que cesse o bloqueio econômico e todas as medidas de pressão comercial e econômica que exercem os Estados Unidos em todas as partes do mundo contra o nosso país.

Segundo: que cesse todas as atividades subversivas, lançamento e desembarque de armas e explosivos pelo ar e pelo mar, organização de invasões de mercenários, infiltração de espiões e sabotadores; todas estas ações, que se leva a cabo desde o território estadunidense e de alguns países cúmplices.

Terceiro: que cesse todos os ataques piradas que se levam a cabo desde as bases existentes nos Estados Unidos e em Porto Rico.

Quarto: que cesse todas as violações do nosso espaço aéreo e naval por aviões e navios de guerra norte-americanos.

Quinto: Retirada da Base Naval de Guantánamo(8) e a devolução do território Cubano ocupado pelos Estados Unidos". Não se cumpriu nenhuma destas exigências elementares, e desde a Base Naval de Guantánamo, continuam a importunar nossas forças. Dita Base se converteu em uma guarita de malfeitores e catapulta de introdução destes em nosso território.

Cansaríamos esta Assembleia se fizéssemos um relato medianamente detalhado da multiplicidade de provocações de todo tipo. Basta dizer que o número delas, incluídos os primeiros dias deste mês de dezembro, alcançam a cifra de 1.323, somente em 1964.

A lista abarca provocações menores, como a violação da linha divisória, lançamento de objetos desde o território controlado pelos norte-americanos, realização de atos de exibicionismo sexual pelos norte-americanos de ambos os sexos, ofensas de palavra; outros de caráter mais grave como disparos de armas de pequeno calibre, manipulação de armas apontando para o nosso território e ofensas a nossa bandeira nacional; provocações gravíssimas são: o cruzamento da linha divisória provocando incêndios em instalações do lado cubano e disparos com fuzis, feito repetido 78 vezes durante o ano, com o saldo doloroso da morte do soldado Ramón López Peña, resultado de dois disparos efetuados pelo posto norte-americanos situados a 3,5 quilômetros da costa pelo limite noroeste. Esta gravíssima provocação foi feita às 19:07, do dia 19 de julho de 1964, e o Primeiro Ministro de nosso governo manifestou-se publicamente, em 26 de julho, que se repeti-se o ato, seria dado ordem às nossas tropas de repelir a agressão. Simultaneamente, se ordenou a retirada das linhas avançadas das forças cubanas até posições mais distantes da divisória e da construção de casamatas(9) adequadas.

"A Conferência advertindo com preocupação que as bases militares estrangeiras constituem, na prática, um meio de exercer pressão sobre as nações, e entorpecer sua emancipação e seu desenvolvimento, segundo suas concepções ideológicas, políticas, econômicas e culturais, declara que apoia sem reserva aos países que tratam de lograr a supressão das bases estrangeiras estabelecidas em seu território e pede a todos os Estados a imediata evacuação das tropas e bases que tem em outros países.

A Conferência considera que a manutenção pelos Estados Unidos da América de uma base militar em Guantánamo (Cuba), contra a vontade do Governo e do povo de Cuba, e contra as disposições da Declaração da Conferência de Belgrado, constitui uma violação da soberania e da integridade territorial de Cuba.

A Conferência, considerando que o governo de Cuba se declara disposto a resolver seu litígio com o Governo dos Estados Unidos da América acerca da base de Guantánamo em condições de igualdade, pede encarecidamente ao Governo dos Estados Unidos que inicie negociações com o governo de Cuba para evacuar essa base".

O governo dos Estados Unidos não respondeu a esta instância da Conferência do Cairo e pretende manter indefinidamente ocupado pela força um pedaço do nosso território, desde o qual leva a cabo agressões como as detalhadas anteriormente.

A Organização dos Estados Americanos também chamada pelos povos de Ministério das Colônias norte-americanas, nos condenou "energicamente", mesmo depois de já ter nos excluído de seu seio, ordenando aos países membros que rompam relações diplomáticas e comerciais com Cuba. A OEA autorizou a agressão ao nosso país, em qualquer momento, sob qualquer pretexto, violando as mais elementares leis internacionais e ignorando por completo a Organização das Nações Unidas.

Àquela medida se opuseram com seus votos os países Uruguai, Bolívia, Chile e México; e se opôs a cumprir a sanção, uma vez aprovada, o governo dos Estados Unidos Mexicanos; desde então não temos relações com países latino-americanos, salvo com o México, cumprindo-se assim uma das etapas prévias da agressão direta do imperialismo.

Queremos aclarar, uma vez mais, que nossa preocupação pela América Latina está embasada nos laços que nos unem: a língua que falamos, a cultura que sustentamos, o patrão comum que tivemos. Que não nos anima qualquer outra causa como a libertação da América Latina sobre o julgo colonial norte-americano. Se alguns dos países latino-americanos aqui presentes decidirem restabelecer relações com Cuba, estaríamos dispostos a fazê-lo sobre estas bases de igualdade e não com o critério de que é uma dádiva ao nosso governo o reconhecimento como país livre do mundo, porque este reconhecimento nós obtemos com nosso sangue nos dias de luta pela libertação, nós adquirimos com sangue em defesa de nossas praias frentes a invasão ianque.

Ainda quando nós rechaçamos que se nos pretendam atribuir ingerências nos assuntos internos de outros países, não podemos negar nossa simpatia pelos povos que lutam por sua libertação e devemos cumprir com a obrigação do nosso governo e nosso povo de expressar contundentemente ao mundo que apoiamos moralmente e nos solidarizamos com os povos que lutam em qualquer parte do mundo para fazer realidade os direitos de soberania plena proclamados na Carta das Nações Unidas.

Os Estados Unidos invadem; estão fazendo isso historicamente na América. Cuba conhece desde os fins do século passado esta verdade, assim como conhece também Colômbia, Venezuela, Nicarágua e a América Central de modo geral, México, Haiti, Santo Domingo.

Em anos recentes, além do nosso povo, conhecem a agressão direta o Panamá, onde a "marinha" do Canal atirou aos montes contra o povo desamparado; Santo Domingo, cujas costas foram violadas pela frota ianque para evitar o estrondo da justa ira popular, logo após o assassinato de Trujillo; e Colômbia, cuja capital foi tomada por assalto por motivo da rebelião provocada pelo assassinato de Gaitán.

Se produzem intervenções facilitadas por intermédio das missões militares que participam a repressão interna, organizando as forças destinadas a este fim em um bom número de países, e também em todos os golpes de estado, também chamados de "gorilazos", que tantas vezes se repetiram no continente americano durante os últimos tempos.

Concretamente, interviram forças dos Estados Unidos na repressão dos povos da Venezuela, Colômbia e Guatemala, que lutam com as armas pela sua liberdade. No primeiro destes países, não só assessoram o exército e a polícia, como também dirigem os genocídios efetuados desde o ar contra a população campesina de amplas regiões insurgentes e, as companhias ianques instaladas ali, fazem todo tipo de pressões para aumentar a ingerência direta.

Os imperialistas se preparam para reprimir aos povos americanos e estão formando a associação internacional do crime. Os EUA intervém na América invocando a defesa de suas instituições livres. Chegará o dia em que esta Assembleia adquirirá ainda mais amadurecimento e demandará ao governo norte-americano garantias para a vida da população negra e latino-americana que vive neste país, norte-americanos de origem ou adotivos, a maioria deles. Como pode se reconhecer como agentes da liberdade quem assassina aos seus próprios filhos e os discrimina diariamente pela cor da pela, quem deixa em liberdade aos assassinos de negros, os protege, e ainda castiga à população negra por exigir o respeito aos seus legítimos direitos de homens livres?

Compreendemos que hoje a Assembleia não está em condições de demandar explicações sobre isso, mas deve deixar claramente assentado que o governo dos Estados Unidos não é agente da liberdade, senão perpetuador da exploração e da opressão contra os povos do mundo e contra boa parte de seu próprio povo.

Na linguagem ambígua com que alguns delegados estão desenhando o caso de Cuba e a OEA, nós contestamos com palavras contundentes e proclamamos que os povos da América cobrarão aos governos entreguistas essa traição.

Cuba, senhores delegados, livre e soberana, sem algemas que a prendem a ninguém, sem intervenções estrangeiras em seu território, se pró-consulês que orientem sua política, pode falar à frente desta Assembleia e demonstrar a justeza da frase com que foi batizada: "Território Livre da América".

Nosso exemplo frutificará a todo o Continente como já o faz em certa medida na Guatemala, na Colômbia e na Venezuela.

Não há inimigo pequeno nem força desdenhável, porque já não há povos isolados. Como estabelece a Segunda Declaração de Havana: "Nenhum povo da América Latina é débil, porque forma parte de uma família de duzentos milhões de irmãos que padecem das mesmas misérias, acolhem os mesmos sentimentos, tem o mesmo inimigo, sonham todos um mesmo melhor destino e contam com a solidariedade de todos os homens e mulheres honrados do mundo.

Esta epopeia que temos a nossa frente vai ser escrita pelas massas esfomeadas de índios, de camponeses sem terra, de operários explorados; vai ser escrita pelas massas progressistas, pelos intelectuais honestos e brilhantes que tanto abundam em nossas sofridas terras da América Latina. Luta em massa e de ideias, epopeia que levarão para frente nossos povos maltratados e depreciados pelo imperialismo, nossos povos desconhecidos até hoje, que já começaram a despertar do sono. Nos consideram um rebanho impotente e submisso e já se começa a assustar este rebanho, rebanho gigante de duzentos milhões de latino-americanos que os adverte já seus coveiros, o capital monopolista ianque.

A hora de sua reivindicação, na hora em que esta mesma foi escolhida, vem sendo passada com precisão de um extremo ao outro do Continente. Agora esta massa anônima, esta América de cor, sombria e taciturna, que canta em todo Continente com uma mesma tristeza e decepção, agora esta massa é a que começa a entrar definitivamente em sua própria história, começa a escrever com seu sangue, começa a sofrer e a morrer, porque agora os campos e as montanhas da América, pelas encostas das suas serras, pelas planícies e pelas selvas, entre a solidão e o tráfico das cidades, nas costas dos grandes oceanos e rios, se começa a estremecer este mundo cheio de corações com punhos quentes de desejos de morrer pelo seu, de conquistar seus direitos quase quinhentos anos burlados por uns e outros. Agora sim, a história terá que contar com os pobres da América, com os explorados e vilipendiados, que tem decidido começar a escrever por si próprios, para sempre, sua história. Já os vemos pelos caminhos dia a dia, a pé, em marchas sem término de centenas de quilômetros, para chegar até os "olímpicos" governantes reivindicar seus direitos. Já os vemos, armados de pedras, de paus, de machados, aqui e acolá, cada dia, ocupando terras, afincando suas foices nas terras que lhes pertencem e defendendo-as com suas vidas; já vemos levando seus cartazes, suas bandeiras, suas consignas; fazendo-as correr com o vento, por entre as montanhas ou ao longo das planícies. E esta onda de estremecido rancor, de justiça reclamada, de direito pisoteado, que se começa a levantar por entre as terras latino-americanas, esta onda já não parará mais. Esta onda irá crescer cada dia que passe. Porque esta onda é formada pela maioria, pela maioria em todos os aspectos, pelos que acumulam com seu trabalho as riquezas, criam os valores, fazem andar as rodas da história e que agora despertam do longo sonho embrutecedor que foram submetidos.

Porque esta grande humanidade disse: "Basta!", e se atreveu a andar. E em sua marcha, de gigantes, não irá parar até conquistar a verdadeira independência, na qual já foram mortos mais de uma vez inutilmente. Agora, em todo caso, os que morrem, morrerão como os de Cuba, os de Playa Girón, morrerão por sua única, verdadeira e irrenunciável independência."

Tudo isso, Senhores Delegados, esta disposição nova de um continente, da América, está plasmada e resumida no grito que, dia a dia, nossas massas proclamam como expressão irrefutável de sua decisão de luta, paralisando a mão armada do invasor. Proclama que conta com a compreensão e o apoio de todos os povos do mundo e especialmente, do campo socialista, encabeçado pela União Soviética.

Essa proclama é: Pátria ou Morte!"

Periódico Revolución, 12 de dezembro de 1964.
Tradução equipe Fuzil contra Fuzil


NOTAS (Parte II):
(7) Playa Girón é uma praia na Baía dos Porcos em Cuba onde em 1961 apoiados e armados pelo governo norte-americano, cerca de 1500 mercenários invadiram Cuba na tentativa de retirar o governo revolucionário cubano. Com grande apoio das massas e um ímpeto revolucionário incrível dos soldados cubanos a guerrilha foi neutralizada e seus participantes julgados. O evento foi também denunciado amplamente por Cuba e demonstrou na prática como não se pode confiar no imperialismo ianque “nem um tantinho assim”, como disse Che Guevara.
(8) Ainda existe de maneira arbitrária e de maneira contrária ao direito internacional o controle do território de Guantánamo por parte do governo dos Estados Unidos.
(9) Casamata são fortificações militares, geralmente subterrâneas, a prova de bombardeios, para guarda e proteção estratégica de um posto militar e afins.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Obrigado, Obama!


Escrito em 16 de Dezembro de 2015


Em uma conferência de imprensa no Panamá, ao final da Cúpula das Américas realizada em Abril desse ano, Barack Obama afirmou que seu objetivo em Cuba não é a “mudança de regime”. Porém, em uma entrevista que acaba de conceder ao Yahoo News, em vésperas de concluir o primeiro ano do que os Estados Unidos denominou como um “novo começo” para Cuba, o presidente estadunidense tem pedido uma “transformação substancial” da sociedade cubana e tem justificado assim apresentar “argumentos mais fortes ao Congresso sobre a importância de se eliminar o embargo”.

Em suas declarações ao Yahoo, Obama não só tem repetido os habituais clichês das administrações norte americanas sobre liberdade e direito humanos, mas também chegou a ir contra a opinião da maioria dos cubanos que participaram das discussões das diretrizes que regem as mudanças econômicas na ilha, fazendo isso ao opor-se a ideia de as empresas estatais continuem sendo em Cuba “a força econômica dominante”.

Em contradição com estas declarações, a introdução de uma empresa americana na Zona Econômica de Mariel com a finalidade de produzir pequenos tratores e direcionada a agricultores privados cubanos, passou meses aguardando a aprovação do governo dos EUA. Isto faz pensar que não é o desenvolvimento de uma economia produtiva não estatal, mas a possibilidade de vincular empreendedores privados diretamente aos Estados Unidos, para poder utiliza-los em sua estratégia desestabilizadora é o que interessa a Washington. 

Como se não fosse o que todos os que visitam Cuba dizem, incluindo funcionários de sua administração como Jonh Kerry e Roberta Jacobson, o presidente apresentou como um desafio “a possibilidade de se reunir com qualquer um e dialogar com qualquer um” em uma hipotética viagem a Havana. Apesar de aparentemente desafiar o governo cubano, esta mensagem está dirigida aos congressistas de extrema-direita de Miami, porque é óbvio que “qualquer um” quer dizer as pessoas beneficiadas em Cuba com os mais de 50 milhões  de dólares que cada ano são solicitado ao Congresso e à Administração gerencia para “programas pró-democracia” na ilha.

Coincidindo exatamente com a imprensa e a academia supostamente livres, que há poucos dias reclamam o mesmo na voz de Carmelo Mesa Largo e o jornal espanhol El País, Barack Obama também instigou a “aceleração das reformas”, e tem dado razões a quem acusa o jornal madrileno de “órgão oficial da Casa Branca em língua castelhana”.

Além de manter em pé todas as atribuições multimilionárias para programas subversivos em Cuba e instrumentos de propaganda e desestabilização como as transmissões da Rádio e TVMartí, a política migratória dos pés-molhados pés-secos e o programa de estímulo a deserção de médicos cubanos, era preciso mais, a entrevista inclui uma piada sobre a reivindicação histórica dos cubanos sobre o território que os EUA ocupam em Guantánamo, o presidente afirmou:

“"Não há dúvida de que a eles lhes encantaria que devolvêssemos Guantánamo. Mas suspeito que vai ser uma discussão diplomática longa que durará mais de mil administrações”"
Em Dezembro de 2014, pressionado com a realidade que a Cúpula das Américas no Panamá não daria em nada se Cuba não comparecesse, Barack Obama tinha um discurso conciliatório, que fez acontecer o evento em Abril. Além disso estava pressionado pela situação criada com o constrangimento de declarar a Venezuela como uma ameaça da segurança nacional dos EUA. Hoje, encorajado pelas vitórias eleitorais que seus aliados conseguiram na Argentina e Venezuela, não dissimulou a linguagem intervencionista. 

Para forçar todas as armas de sua estratégia anti-cubana: o bloqueio, a política migratória seletiva e discriminatória, os fundos e treinamento para a subversão, e as transmissões ilegais de rádio e televisão, somados as dificuldades que o controle parlamentar de seus agentes venezuelanos irá criar com a aliança econômica de Cuba com a Revolução Bolivariana, os Estados Unidos somam a seu favor agora o acesso às instituições e funcionários cubanos através de sua embaixada em Havana, o intercâmbio de delegações e a busca de aliados na emergente economia privada de serviços, associada com o aumento da chegada de turistas americanos em Cuba.

Independentemente de Obama viajar ou não a Cuba em 2016, o confronto se aprofunda, mas também se torna mais claro. Com suas declarações no Yahoo News, o presidente estadunidense revela toda a hipocrisia com que agiu em 17 de Dezembro de 2014. Ensina que somente as pressões fazem Washington mudar de posição e resgata para nossa memória o mais valioso do dia: a alegria pelo regresso a pátria dos antiterroristas presos injustamente nos Estados Unidos. Obrigado, Obama. 

De Iroel Sánches  para Al Mayadeen
Traduzido por equipe do Fuzil contra Fuzil