segunda-feira, 28 de março de 2016

Fidel Castro - O Irmão Obama

Os reis da Espanha trouxeram-nos os conquistadores e donos, cujas pegadas ficaram gravadas nos terrenos circulares atribuídos aos buscadores de ouro na areia dos rios, uma forma abusiva e vergonhosa de exploração cujos sinais ainda hoje podem ser advertidos, do ar, em muitos lugares do país.

O turismo hoje, em boa parte, consiste em mostrar as delícias das paisagens e degustar os alimentos requintados de nossos mares, e sempre que sejam compartilhadom com o capital privado das megacorporações estrangeiras, cujos ganhos se não atingem os bilhões de dólares per capita não são dignos de atenção alguma.

Já que fui obrigado a mencionar o tema devo acrescentar, principalmente para os jovens, que poucas pessoas percebem a importância de tal condição neste momento singular da história humana. Não direi que o tempo tenha sido perdido, mas não vacilo ao afirmar que não estamos suficientemente informados, nem vocês nem nós, dos conhecimentos e da consciência que deveríamos ter para enfrentar as realidades que nos desafiam. O primeiro a ser levado em conta é que nossas vidas são uma fração histórica de segundos, a qual é preciso compartilhar, ainda, com as necessidades vitais de todo ser humano. Uma das características deste é a tendência à sobrevalorização do seu papel, questão que contrasta, por outro lado, com o número extraordinário de pessoas que encarnam os sonhos mais elevados.

Ninguém, contudo, é bom ou é mau por si próprio. Nenhum de nós está desenhado para o papel que deve assumir na sociedade revolucionária. Em parte, nós os cubanos tivemos o privilégio de contar com o exemplo de José Martí. Pergunto, inclusive, se ele devia ter morrido ou não em Dos Rios, quando disse “para mim está na hora”, e avançou contra as forças espanholas entrincheiradas em uma sólida linha de defesa. Não queria retornar para os Estados Unidos e não haveria quem o fizesse retornar. Alguém tirou algumas folhas do seu diário. Quem arcou com essa pérfida culpa, que foi, sem dúvida, obra de algum intrigante inescrupuloso? Soube-se que existiam diferenças entre os chefes, porém jamais houve indisciplinas. “Quem tente apropriar-se de Cuba colherá o pó do seu solo alagado em sangue, se antes não perece na luta”, declarou o glorioso líder negro Antonio Maceo. Reconhece-se, igualmente, que Máximo Gómez foi o chefe militar mais disciplinado e discreto de nossa história.

Olhando de outro ângulo, como a gente não vai ficar admirada da indignação de Bonifacio Byrne quando, da distante embarcação que o trazia de retorno a Cuba, ao divisar outra bandeira junto da da estrela solitária, declarou: “Minha bandeira é aquela que jamais tem sido mercenária...” para acrescentar imediatamente uma das frases mais belas que jamais escutei: “Se desfeita em miúdos pedaços chega a estar minha bandeira algum dia... nosso mortos, erguendo os braços, ainda saberão defendê-la...” Tampouco esquecerei as palavras ardentes de Camilo Cienfuegos naquela noite, quando a várias dezenas de metros de nós, bazucas e metralhadoras de origem norte-americana nas mãos de agentes contrarrevolucionários apontavam para nós. Obama tinha nascido em 1961, como ele próprio explicou. Mais de meio século decorreria desde aquele momento.

Contudo, vejamos como pensa nosso ilustre visitante:

“Vim aqui para deixar atrás os últimos sinais da guerra fria nas Américas. Vim aqui estendendo a mão de amizade ao povo cubano”. E imediatamente um dilúvio de conceitos, inteiramente novos para a maioria de nós:

“Ambos vivemos em um novo mundo que foi colonizado pelos europeus”. Prosseguiu o presidente norte-americano. “Cuba, tal como os Estados Unidos, foi constituída por escravos trazidos da África; tal como os Estados Unidos, o povo cubano tem herança de escravos e de donos de escravos”.

As populações nativas não existem para nada na mente de Obama. Tampouco disse que a discriminação racial foi varrida pela Revolução; que a aposentadoria e o salário de todos os cubanos foram decretados por esta antes que o senhor Obama completasse dez anos. O odioso costume burguês de contratar esbirros para que os cidadãos negros fossem expulsos de centros de lazer foi varrido pela Revolução Cubana. Esta ficaria gravada na história pela batalha que travou em Angola contra o apartheid, pondo fim à presença de armas nucleares em um continente de mais de um bilhão de habitantes. Esse não era o objetivo de nossa solidariedade mas sim o de ajudar aos povos de angola, Moçambique, Guiné-Bissau e outros da dominação colonial fascista de Portugal.

Em 1961, apenas um ano e três meses depois do triunfo da Revolução, uma força mercenária com canhões e infantaria blindada e com aviões foi treinada e acompanhada de navios de guerra e porta-aviões dos Estados Unidos e atacou de surpresa nosso país. Nada poderá justificar aquele aleivoso ataque que custou ao nosso país centenas de vidas, entre mortos e feridos. Da brigada de assalto pró-ianque, em nenhuma parte consta que tivesse podido ser evacuado nenhum mercenário. Aviões ianques de combate foram apresentados nas Nações Unidas como aparelhos cubanos revoltados.

É bem conhecida a experiência militar e o poderio desse país. Na África pensaram igualmente que a Cuba revolucionária seria igualmente posta fora de combate. O ataque pelo Sul de Angola por parte das brigadas motorizadas da África do Sul racista levou-as até as proximidades de Luanda, a capital desse país. Aí se iniciou a luta que se prolongaria não menos de 15 anos. Nem sequer falaria disto a menos que tivesse o dever elementar de contestar o discurso de Obama no Grande Teatro de Havana Alicia Alonso.

Tampouco tentarei dar detalhes, a não ser que ali foi escrita uma página de honra na luta pela libertação do ser humano. De certa forma eu desejava que a conduta de Obama fosse correta. Sua origem humilde e sua inteligência natural eram evidentes. Mandela ficou preso a vida toda e se tinha convertido em um gigante da luta pela dignidade humana. Um dia chegou às minhas mãos uma cópia do livro no qual se conta uma parte da vida de Mandela e, surpresa!, o prólogo tinha sido escrito por Barack Obama. Folhei-o rapidamente. Era incrível o tamanho da minúscula letra de Mandela precisando dados. Vale a pena ter conhecido homens como aquele.

Acerca do episódio da África do Sul devo assinalar outra experiência. Eu estava realmente interessado em conhecer mais detalhes sobre a forma em que os sul-africanos tinham adquirido as armas nucleares. Somente tinha a informação muito precisa de que não eram mais de 10 ou 12 bombas. Uma fonte certa seria o professor e pesquisador Pero Gleijeses, quem tinha redigido o texto de “Missões em conflito: Havana, Washington e África 1959-1976”; um trabalho excelente. Eu sabia que ele era a fonte mais segura do que tinha acontecido e assim o comuniquei a ele: respondeu-me que ele não tinha falado mais do assunto, porque no texto tinha respondido as perguntas do companheiro Jorge Risquet, quem tinha sido embaixador ou colaborador cubano em Angola, muito amigo dele. Localizei Risquet que, entre outras ocupações, estava acabando um curso ao que faltavam ainda várias semanas. Essa tarefa coincidiu com uma viagem bastante recente de Piero ao nosso país; eu tinha advertido a Piero que Risquet já tinha uma idade avançada e que sua saúde não era ótima. Poucos dias depois ocorreu o que eu estava temendo: Risquet piorou e faleceu. Quando Piero chegou não havia nada a fazer exceto promessas, mas eu já tinha conseguido informação acerca do relativo a essa arma e a ajuda que a África do Sul racista tinha recebido de Reagan e de Israel.

Não sei o que terá de dizer Obama sobre esta história. Desconheço o que ele sabia ou não, embora seja muito duvidoso que não soubesse absolutamente nada. Minha modesta sugestão é que reflita e não tente agora elaborar teorias sobre a política cubana.

Há uma questão importante:

Obama proferiu um discurso no qual lança mão das palavras mais adocicadas para expressar: “Já é hora de esquecer-nos do passado, deixemos o passado, olhemos para o futuro, olhemos juntos o futuro, um futuro de esperança. E não vai ser fácil, vai haver desafios e a esses vamos dar tempo; mas minha estadia aqui me dá mais esperanças acerca do que podemos fazer juntos como amigos, como família, como vizinhos, juntos”.

Supõe-se que cada um de nós corria o perigo de sofrer um infarto após escutar essas palavras do presidente dos Estados Unidos. Após um bloqueio desapiedado que já durou quase 60 anos, e aqueles que morreram nos ataques mercenários a navios e portos cubanos, um avião regular cheio de passageiros feito explodir em pleno vôo, invasões mercenárias, múltiplos atos e violência e de força?

Ninguém acalente a ilusão de que o povo deste nobre e abnegado país renunciará à glória e os direitos e à riqueza espiritual que ganhou com o desenvolvimento da educação, a ciência e a cultura.

Advirto, ademais, que somos capazes de produzir os alimentos e as riquezas espirituais de que precisamos com o esforço e a inteligência de nosso povo. Não necessitamos que o império nos entregue de presente nada. Nossos esforços serão legais e pacíficos, porque é nosso compromisso com a paz e a fraternidade de todos os seres humanos que vivemos neste planeta.
Fidel Castro Ruz

Original de Granma.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Obama no Grande Teatro ou o grande teatro de Obama em Havana?

O presidente dos Estados Unidos, neste 22 de março, desde o Gran Teatro de La Habana, ofereceu um discurso conciliador, inteligente e sedutor.

Obama Discursa no Gran Teatro de Havana

Cuba, América Latina e o mundo escutaram com grande expectativa Barack Obama neste 22 de março no Gran Teatro de La Habana, com um discurso conciliador, inteligente e sedutor. Não foi a primeira vez que durante a sua visita ele usou extensivamente da palavra e se dirigiu aos cubanos através da televisão nacional. Mas, foi a única na qual o presidente dos Estados Unidos não compartilhava o palco com ninguém e tinha todo o espaço para si, desde que chegou dois dias antes nessa ilha.

Como convêm a cultura política que representa, e tem acontecido desde que ele pôs os pés em Havana, novamente nada foi deixado ao acaso e, mais precisamente, o teleprompter trazido de Washington, (o mesmo utilizado na gravação do seu diálogo com o mais popular dos comediantes de Cuba?) o escoltava de ambos os lados do palco com um discurso cuidadosamente escrito.

Para um espectador atento do público, eram perfeitamente reconhecíveis um par de pessoas - situadas  no grupo de 40 congressistas que viajaram dos EUA para a ocasião - cada vez que a palavra do orador era respondida com palmas. Este grupo de legisladores, e a delegação dos EUA que acompanhou o presidente durante sua visita, foram os únicos que aplaudiram as muitas vezes que sua intervenção tomou a estrada de conselho paternalista, ou pior, a ingerência mais ou menos disfarçada.

Poucos segundos antes de iniciar, um contra-regra apressado colocou na frente do púlpito o escudo da águia, como se um sinal de prevalência entre bandeiras cubanas e norte-americanas duplamente localizado ao fundo do cenário e de frente aos espectadores fosse necessário.

Como esperado, o início foi dedicado a condenar os ataques terroristas que acabam de cometer o Estado Islâmico na Bélgica e o compromisso de "fazer tudo que for necessário" para "levar à justiça os responsáveis", mas, como esperado, nem aquele terrível fato motivou o alto-falante a uma referência aos 3.478 cubanos que morreram vítimas da prática do terrorismo, financiado e incentivado dos Estados Unidos contra o país, que, em suas próprias palavras lhe deu uma "recepção calorosa" a sua família e sua delegação. Muito menos falou sobre a inércia total do governo liderado "para trazer à justiça os responsáveis" por tais crimes.

Várias vezes, no entanto foi para a narrativa, o escritor Christian Salmon define como a "máquina de fabricar histórias e formatar mentes" para - desde relatos pessoais contados com intencionalidade política - apresentar a revolução cubana como algo do passado. Então ele nos disse verdades incontestáveis: que seu pai chegou a US em 1959 e ele nasceu no mesmo ano que a invasão da CIA derrotada na Baía dos Porcos, para esconder eventos como o sequestro de Elian Gonzalez e a prisão injusta dos Cinco ocorridas no século XXI, que foram sentidas pelas gerações mais jovens desta ilha.

Mas devemos reconhecer que houve também elogios: qualquer pessoa inteligente - e Obama o é - sabe que as críticas são mais fáceis de serem aceitas se forem precedidos por aqueles. Os nossos médicos e atletas foram aplaudidos, sempre individualmente, sem reconhecer, muito menos questionar, programas e regulamentos em pleno funcionamento que o governo americano destina para privar-nos deles.

Alguns pares opostos foram utilizados repetidamente durante o discurso (jovens-História, Estado-indivíduo, governo-povo passado-futuro) em uma estratégia de divisão dirigida ao interior da sociedade cubana em que a narrativa voltou apoiada por "empresários" emigrantes bem sucedido, cujo exemplo nosso convidado acha que podemos e devemos seguir, a partir da "mudança" que ele já não nos impõe, mas sugere-nos desde nossos próprios compatriotas que se aproveitaram das "oportunidades" que o capitalismo americano fornece e que a ele lhe disseram alguns daqueles que se dirigiram, um dia antes, quando assumiu o papel de Papai Noel em uma cervejaria em Havana. A propósito, a palavra mudança esteve 14 vezes no discurso.

O que ensina a realidade é que, para cada sucesso são milhares que ficam no caminho, e que todo o sucesso econômico no mundo de hoje significa na maioria das vezes o colapso das esperanças de muitos. Incentivar a iniciativa privada em Cuba, quando o professor de Harvard sabe que a maior verdade contida no Manifesto Comunista é que ele é abolido na prática, para nove décimos da humanidade, não é exatamente um ato de honestidade.

Depois de percorrer algumas semelhanças entre Cuba e os EUA, o contraste entre os dois países teve um parágrafo-chave no qual a democracia é  o monopólio dos EUA que ele tentou impor ao mundo; o socialismo é sinónimo de encerramento e que Estado cubano é um seqüestrador direitos:

"Cuba tem um sistema de partido único, os Estados Unidos, a democracia multipartidária ; Cuba tem um modelo econômico socialista, os Estados Unidos, um mercado aberto; Cuba salienta o papel e os direitos do Estado, os Estados Unidos baseia-se nos direitos do indivíduo. "

No entanto, devemos perguntar aos norteamericanos quantos dias duraria seu sistema multipartidário se, como cubanos, tivessem o direito de nomear e escolher entre iguais, sem intermediários de nenhum partido, aqueles que os representam. Na mesma linha democratizante, o mesmo presidente para o qual um dia antes só existiam empresários de sucesso e para o qual os trabalhadores parecia não existir, nos disse no cenário do palco do Gran Teatro que em seu país "os trabalhadores têm voz," omitindo que sua terra apenas 11% dos empregados são sindicalizados.

Olhando à nossa volta, ali onde aos EUA não parece ruim o "sistema", a "democracia", e o "modelo econômico", é fácil perceber que o exercício efectivo dos "direitos individuais" é, apesar de ser mencionado mais do que em Cuba, uma quimera. Como o historiador Fernando Martinez Heredia diz, é uma confusão tremendísima, mas pode haver algumas pessoas que pensam que, porque Obama vêm a Cuba, a situação material de uma grande parte dos cubanos vai melhorar.

Nenhum país no ambiente de Cuba é melhor socialmente do que esta ilha, apesar de não terem bloqueio económico. Longe disso, eles sofrem problemas estruturais, como a violência, trabalho infantil e tráfico de drogas aqui nem existem. Quando os Estados Unidos fala de "empoderar o povo cubano" refere-se ao que realmente é a construção de uma minoria, como naqueles lugares, administra o país de acordo com os seus interesses. E eles dizem que não vão impor a desacreditada "mudança de regime", ainda que eles não tenham retirado um único centavo de fundos multimilionários para tal. Agora, querem criar novas políticas com as condições para que nós mesmos o façamos.

Em 04 de junho de 2009 Obama falou desde a Universidade do Cairo, uma cidade emblemática para o Islã e o mundo árabe, a todo o Oriente Médio. Foi um discurso impressionante de um presidente que não estava nem cinco meses no cargo. Fidel escreveu então:

"Nem mesmo o Papa Bento XVI teria falado frases mais ecumênicas que as de Obama. Imaginei por um segundo o crente muçulmano devoto, católico, cristãos ou judeus ou qualquer outra religião, ouvindo o Presidente no salão espaçoso, da Universidade de Al-Azhar. Em certo momento eu não saberia se estava em uma catedral católica, uma igreja cristã, uma mesquita ou uma sinagoga ".

Como sugeriu uma amiga, as palavras podem ser trocadas por Cuba ou cubanos, onde diz Islam, Irã, palestinos ou muçulmanos; em vez de citações do Alcorão (a palavra de Muhammad) colocando Martí, mencionado pelo presidente dos Estados Unidos este 22 de março, e comparar citações de que o discurso que profeticamente citou Fidel em suas Reflexiones com as que Obama acaba de pronunciar no Gran Teatro. São dezenas as que poderiam ser citadas com uma incrível coincidência, mas por razões de espaço não as relaciono.

Logo depois veio a "Primavera Árabe", o colapso das sociedades secularizadas como a Síria, o aumento do fanatismo religioso, apoio dos EUA ao Estado islâmico e o riso de sua secretária de Estado Hillary Clinton quando soube do desmembramento de Kadafi. Hoje os palestinos estão ainda pior do que em 2009, se é que isso é possível, e os povos árabes são os grandes perdedores da "mudança", promovida por Washington.

Sete anos depois, o Oriente Médio é um inverno de fogo sem fim à vista e Obama continua dando discursos ecumênicos. Agora ele fala para a América Latina a partir de Cuba, em meio a uma contra-reforma neoliberal na região, impulsionada por seu governo, citando -no Gran Teatro- José Martí, cujas últimas palavras seguiram precisamente seu propósito de "impedir a tempo com a Independência de Cuba que os Estados Unidos se espalhassem pelas Antilhas e caiam, com essa força mais, sobre nossas terras da América ". Cuba recebeu e ouviu com respeito e está disposta a avançar para a paz que tanto tem lutado pelo bem de seu povo e dos EUA, mas cortesia não deve ser confundida com ingenuidade.

Por Iroel Sánchez em Juventud Rebelde
Tradução Equipe Fuzil Contra Fuzil

sábado, 12 de março de 2016

Ernesto Che Guevara na 19ª Assembléia Geral da ONU, 1964


Senhor Presidente, Senhores Delegados:

A representação de Cuba ante esta Assembleia se satisfaz em cumprir, em primeiro lugar, o agradável dever de saudar a incorporação de três novas nações ao importante número das que aqui discutem problemas do mundo. Saudamos, pois, nas pessoas de seu Presidente e Primeiros Ministros, aos povos da Zâmbia, Malawi e Malta, e fazemos votos para que estes países se incorporem desde o primeiro momento ao grupo de nações não alinhadas que lutam contra o imperialismo, o colonialismo e o neocolonialismo.

Fazemos chegar também nossa felicitação ao Presidente desta Assembleia(1), cuja exaltação a tão alto cargo tem uma singular significação, pois isso reflete esta nova etapa histórica de ressonantes triunfos para os povos da África, até ontem submetidos ao sistema colonial do imperialismo e que hoje, em sua imensa maioria, no exercício legítimo de sua livre determinação, estão constituídas em Estados soberanos. Já soou a hora final do colonialismo e milhões de habitantes da África, Ásia e América Latina se levantam ao encontro da nova vida e impõe seu irrestrito direito a autodeterminação e desenvolvimento independente de suas nações. Desejamos, Senhor Presidente, o maior dos êxitos na tarefa que fora encomendada pelos países membros.

Cuba vem fixar sua posição sobre os pontos mais importantes de controvérsia e o fará com todo o sentido de responsabilidade que entranha ao fazer uso desta tribuna, mas, ao mesmo tempo, respondendo ao dever indissociável de falar com toda clareza e franqueza.

Queremos ver despertar esta Assembleia e marchar adiante, que as Comissões começaram seu trabalho e que isso não se deteve ante o primeiro obstáculo. O imperialismo quer converter esta reunião em um vago torneio oratório em vez de resolver os graves problemas do mundo; nós devemos impedir isto. Esta Assembleia não deve ser lembrada no futuro só pelo número XIX que a identifica(2). Para lograr este fim encaminhamos nossos esforços.

Nos sentimos com o direito e a obrigação de fazê-lo devido a que nosso país é um dos pontos constantes de atrito, um dos lugares onde os princípios que sustentam os direitos dos países pequenos a sua soberania estão sendo postos a prova dia a dia, minuto a minuto, e, ao mesmo tempo, uma das trincheiras da liberdade do mundo situada a poucos passos do imperialismo norte-americano, para mostrar com sua ação, com seu exemplo diário, que os povos podem se libertar e podem se manter livres nas atuais condições da humanidade. Desde logo, agora existe um campo socialista cada dia mais forte e com armas de contenção das mais poderosas. Mas se requerem condições adicionais para a sobrevivência: manter a coesão interna, ter fé nos próprios destinos e na decisão irrenunciável de lutar até a morte pela defesa do país e pela revolução. Em Cuba se tem estas condições, Senhores Delegados.

De todos os problemas candentes que devem ser tratados nesta Assembleia, um dos que para nós tem significação particular, e cuja definição cremos que deve ser feita de forma que não deixe dúvidas a ninguém, é o da coexistência pacífica entre Estados de diferentes regimes econômico-sociais. Muito se tem avançado no mundo neste campo; mas o imperialismo - norte-americano sobretudo - tem pretendido fazer crer que a coexistência pacífica é de uso exclusivo das grandes potências da terra. Nós expressamos aqui o mesmo que nosso Presidente expressou no Cairo, que depois ficou plasmado na declaração da Segunda Conferência de Chefes de Estado e de Governo de países Não-Alinhados: que não pode haver coexistência pacífica somente entre os poderosos, se se pretende assegurar a paz do mundo. A coexistência pacífica deve exercitar-se entre todos os Estados, independentemente de seu tamanho, das relações históricas anteriores que os ligaram e dos problemas que se suscitaram entre eles, em um determinado momento.

Atualmente, o tipo de coexistência pacífica que nós aspiramos não se cumpre em uma série de casos. O reino do Camboja, simplesmente por manter uma atitude neutra e não se pregar às maquinações do imperialismo norte-americano se viu sujeitado a toda uma série de ataques desleais e brutais partindo das bases que os ianques tem no Vietnã do Sul. Laos, país dividido, tem sido objeto também de agressões imperialistas de todo o tipo, seu povo massacrado desde ataques aéreos, as convenções que se firmaram em Genebra tem sido violadas e parte do território está em constante perigo de ser atacado impunemente pelas forças imperialistas. A República Democrática do Vietnã, que conhece todas as histórias de agressões como poucos povos na Terra, tem visto mais uma vez violadas suas fronteiras, visto como os aviões de bombardeio e caças inimigos disparam contra suas instalações; como os barcos de guerra norte-americanos, violando águas do seu território, atacavam seus postos navais. Neste mesmo instante, sobre a República Democrática do Vietnã pesa a ameaça de que os beliicistas norte-americanos estendam abertamente sobre seu território e sobre seu povo a guerra que, há vários anos, estão levando a cabo contra o povo do Vietnã do Sul. A União Soviética e a República Popular da China, fazem advertências serias aos Estados Unidos. Estamos em frente a um caso na qual a paz do mundo está em perigo, e além disso, a vida de milhões de seres de toda esta zona da Ásia esta sendo constantemente ameaçada, dependendo dos caprichos do invasor norte-americano.

A coexistência pacífica também foi posta a prova de forma brutal no Chipre devido as pressões do governo turco e da OTAN, obrigando a uma heróica e enérgica defesa de sua soberania feita pelo povo e pelo governo de Chipre.

Em todos estes lugares do mundo, o imperialismo trata de impor sua versão do que deve ser a coexistência; são os povos oprimidos, em aliança com o campo socialista, os que devem ensinar qual é a verdadeira [versão], e é obrigação das Nações Unidas os apoiar.

Também há de se esclarecer que não somente nas relações em que estão imputados Estados soberanos, os conceitos sobre a coexistência pacífica devem ser bem definidos. Como marxistas, defendemos que a coexistência pacífica entre nações não engloba a coexistência entre exploradores e explorados, entre opressores e oprimidos. É, além disso, um princípio proclamado no seio desta Organização, o direito a plena independência contra todas as formas de opressão colonial. Por isso, expressamos nossa solidariedade a todos os povos, hoje colônias, da Guiné dita portuguesa, de Angola ou Moçambique, massacrado pelo delito de demandar sua liberdade e estamos dispostos a ajudar estes povos na medida de nossas forças, de acordo com a declaração do Cairo.

Expressamos nossa solidariedade ao povo de Porto Rico e seu grande líder, Pedro Albizu Campos, que, em um ato mais de hipocrisia, foi libertado com 72 anos, sem falar quase, paralítico depois de ter passado na cadeia toda sua vida. Albizu Campos é um símbolo da América irredenta e indômita. Anos e anos de prisões, pressões quase insuportáveis no cárcere, torturas mentais, solidão, o isolamento total de seu povo e de sua família, a insolência do conquistador e de seus lacaios na terra que o viu nascer; nada dobrou sua vontade.

A Delegação de Cuba rende, em nome de seu povo, homenagem de admiração e gratidão a um patriota que dignifica nossa América.

Os norte-americanos tem pretendido durante anos converter a Porto Rico em um espelho de cultura híbrida; se fala espanhol com inflexões em inglês, fala espanhol se curvando para se inclinar ante o soldado ianque. Soldados porto-riquenhos tem sido empregados como carne de canhão em guerras do império, como na Coreia, e até para disparar contra seus próprios irmãos, como foi no massacre perpetrado pelo exército norte-americano, há alguns meses, contra o povo desamparado do Panamá - um dos mais recentes feitos do imperialismo ianque.

Contudo, a pesar desta tremenda violação de sua vontade e destino histórico, o povo de Porto Rico tem conservado sua cultura, seu caráter latino, seus sentimentos nacionais, que mostram por si mesmo a implacável vocação de independência subjacente nas massas desta ilha latino-americana.

Também devemos advertir que o princípio de coexistência pacífica não inclui o direito de burlar a vontade dos povos, como ocorre no caso da Guiana dita britânica, no qual o governo do Primeiro Ministro Cheddy Jagan tem sido vítima de todo tipo de pressão e manobras, dilatando o momento de outorgar a independência, na busca de métodos que permitam burlar os desejos populares e assegurar a docilidade de um governo distinto ao atual colocado ali por obscuros manejos, para então outorgar uma liberdade castrada a este pedaço de terra americana.

Quaisquer que sejam os caminhos que a Guiana se veja obrigada a seguir para obter sua liberdade, terá seu povo o apoio moral e militante de Cuba.

Devemos assinalar ainda, que as ilhas de Guadalupe e Martinica estão lutando por sua autonomia desde algum tempo sem conquistá-la, não devendo se seguir este estado de coisas.

Uma vez mais elevamos nossa voz para alertar ao mundo sobre o que está ocorrendo na África do Sul; a brutal política do "Apartheid" se aplica ante os olhos de todas as nações do mundo. Os povos da África se veem obrigados a suportar que neste continente se oficialize a superioridade de uma raça sobre a outra, que se assassine impunemente em nome desta superioridade racial. As Nações Unidas não farão nada para impedir isto?

Queria me referir especificamente ao doloroso caso do Congo, único na história do mundo moderno, que mostra como se pode burlar com a mais absoluta impunidade, com o cinismo mais insolente, o direito dos povos. As magníficas riquezas do Congo e que as nações imperialistas querem manter sob seu controle são os motivos diretos de tudo isto. Na intervenção que tivera que fazer, por motivo de sua primeira visita às Nações Unidas, o companheiro Fidel Castro advertia que todo o problema da coexistência entre as nações se reduzia ao problema da apropriação indevida de riquezas alheias, e fez a seguinte objeção: "cesse a filosofia do despojo e cessará a filosofia da guerra". Mas a filosofia do despojo não só não foi interrompida, como todavia se mantém mais forte que nunca antes, e por isso, os mesmos que utilizaram o nome das Nações Unidas para perpetuar o assassinato de Lumumba, hoje, em nome da defesa da raça branca, assassinam a milhares de congoleses.

Como é possível que esqueçamos a forma em que foi traída a esperança que Patricio Lumumba pôs nas Nações Unidas? Como é possível que esqueçamos os tramóias e manobras que sucederam à ocupação deste país pelas tropas das Nações Unidas, na qual sob a sua proteção atuaram impunemente os assassinos deste grande patriota africano?

Como podemos esquecer, Senhores Delegados, que quem desacatou a autoridade das Nações Unidas no Congo, e não precisamente por razões patrióticas, e sim em virtude de pugnas entre imperialistas, foi Moisé Tshombe, que iniciou a secessão de Katanga (3) com apoio belga?

E como justificar, como explicar que, ao final de toda a ação das Nações Unidas, Tshombe, exilado de Katanga, regresso dono e senhor do Congo? Quem poderia negar o triste papel que os imperialistas obrigaram a jogar a Organização das Nações Unidas?

Resumindo, se fizeram aparatosas mobilizações para evitar a cisão de Katanga e hoje Tshombe esta no poder, a riqueza do Congo nas mãos do imperialismo... e os gastos devem ser pagos pelas nações dignas. Que bom negócio fazem os mercadores da guerra! Por isto, o governo de Cuba apoia a justa atitude da União Soviética, ao se negar a pagar os gastos deste crime.

Para nos encher de escárnio, nos lançam agora ao rosto estas últimas ações que estão enchendo de indignação ao mundo.

Quem são os autores? Paraquedistas belgas, transportados por aviões norte-americanos que partiram de bases inglesas. Nos recordamos que foi quase ontem, que víamos em um pequeno país da Europa, trabalhador e civilizado, o reino da Bélgica, invadido por hordas hitlerianas; amargava nossa consciência ao saber que este pequeno povo que víamos com carinho sendo massacrado pelo imperialismo germânico. Mas esta outra cara da moeda imperialista era o que muitos de nós não percebiam.

Talvez sejam os filhos de patriotas belgas que morreram por defender a liberdade de seu país que assassinam com tranquilidade a milhares de congoleses em nome da raça branca, assim como eles sofreram a bota germânica porque seu conteúdo de sangue ariano não era suficientemente grande.

Nossos olhos livres se abrem hoje a novos horizontes e são capazes de ver o que ontem, na nossa condição de escravos coloniais, nos impedia observar; que a "civilização ocidental" esconde sob suas vistosas fachadas um quadro de hienas e chacais. Porque nada mais que esse nome merecem os que tem ido cumprir tão "humanitárias" tarefas no Congo. Animal carniceiro que se alimenta dos povos desamparados; isto é o que faz o imperialismo com o homem, isso é o que distingue ao "branco" imperial.

Todos os homens livres do mundo devem se prestar a vingar o crime contra o Congo.

Talvez muitos daqueles soldados, convertidos em sub-humanos pela maquinaria imperialista, pensem de boa-fé que estão defendendo os direitos de uma raça superior; mas nesta Assembleia são majoritários os povos que tem suas peles tostadas por distintos sóis, coloridas por distintos pigmentos e que chegaram a compreender plenamente que a diferença entre os homens não está dada pela sua cor de pele, mas sim pelas formas de propriedade dos meios de produção e pelas relações de produção.

A delegação cubana faz chegar a sua saudação aos povos de Rodésia do Sul e África Austral, oprimidos por minorias de colonos brancos. À Basutolândia, Bechuania (4) e Suazilândia, à Somália francesa, ao povo árabe da Palestina, a Adén e protetorados, à Omã e a todos os povos em conflito com o imperialismo ou colonialismo, reiteramos nosso apoio. Formula além disso, votos por uma justa solução ao conflito que a irmã República da Indonésia encara com a Malásia.

Senhor Presidente: um dos temas fundamentais desta Conferência é o do desarme geral e completo. Expressamos nosso acordo com o desarme geral e completo; propugnamos ainda, a destruição total dos artefatos termonucleares e apoiamos a celebração de uma conferência de todos os países do mundo para levar a cabo estas aspirações dos povos. Nosso Primeiro Ministro advertia, em sua intervenção ante esta Assembleia, que sempre as corridas armamentistas levam à guerra. Há novas potências atômicas no mundo; a possibilidade de uma nova confrontação cresce.

Nós consideramos que é necessária esta conferência com o objetivo de lograr a destruição total das armas termonucleares e, como primeira medida, a proibição total dos testes atômicos. Ao mesmo tempo, deve estabelecer-se claramente a obrigação de todos os países de respeitar as atuais fronteiras de outros estados; de não exercer qualquer ação agressiva, ainda que seja com armas convencionais.

Ao unirmos à voz de todos os países do mundo que pedem o desarme geral e completo, a destruição de todo o arsenal atômico, o cessar absoluto da fabricação de novos artefatos termonucleares e os testes atômicos de qualquer tipo, cremos que é preciso pontuar que, além disso, é preciso respeitar a integridade territorial das nações e deter o braço armado do imperialismo, não menos perigoso só porque empunha armas convencionais. Não precisaram de armas atômicas para assassinar milhares de indefesos cidadãos no Congo; usaram armas convencionais, empunhadas pelo imperialismo, a causa de tanta morte.

Ainda quando as medidas aqui preconizadas para serem efetivadas fariam inútil a menção, é conveniente enfatizar que não podemos aderir a nenhum pacto regional de desnuclearização enquanto os Estados Unidos mantenham bases agressivas no nosso próprio território, em Porto Rico, Panamá e outros estados americanos onde se considera com o direito de colocar, sem restrição alguma, tanto armas convencionais como armas nucleares. Mesmo que ignoremos as últimas resoluções da OEA(5), contra nosso país, que poderia ser agredido invocando o Tratado do Rio, nos é necessária a posse de todos os meios defensivos ao nosso alcance.

Cremos que, se a conferência de que falávamos lograra todos estes objetivos, coisa difícil, desgraçadamente, seria a mais transcendental da história da humanidade. Para assegurar isto, seria preciso contar com a presença da República Popular da China, e eis o porquê de ser necessário a realização de uma reunião deste tipo. Porém, seria muito mais fácil para os povos do mundo reconhecer a verdade inegável de que existe a República Popular da China, cujos governantes são representantes únicos de seu povo e dar o assento a eles destinados [nesta Assembleia], atualmente usurpado pela camarilha que com apoio norte-americano mantém em seu poder a província de Taiwan.

O problema da representação da China nas Nações Unidas não pode considerar-se de modo algum como o caso de um novo ingresso na Organização, contudo, deve-se restaurar os legítimos direitos da República Popular da China.

Devemos repudiar energicamente o complô das "duas Chinas". A camarilha de Chiang Kai-shek em Taiwan não pode permanecer na organização das Nações Unidas. Se trata, repetimos, de expulsar ao usurpador e instalar ao legítimo representante do povo chinês.

Advertimos além do mais, contra a insistência do Governo dos Estados Unidos em apresentar o problema da legítima representação da China na ONU como uma "questão importante" no objetivo de impor o quórum extraordinário de votação de dois terços dos membros presentes e votantes.

O ingresso da República Popular da China ao seio das Nações Unidas é realmente uma questão importante para o mundo em sua totalidade, mas não para o mecanismo das Nações Unidas onde isto deve constituir uma mera questão de procedimento. Desta forma se faria justiça, mas quase tão importante de se fazer justiça, ficaria, além disso, demonstrado de uma vez que esta augusta Assembleia tem olhos para ver, ouvidos para ouvir, língua própria para falar e critério certo para elaborar decisões.

A difusão de armas atômicas entre os países da OTAN e, particularmente a possessão destes artefatos de destruição em massa pela República Federal Alemã, aleijariam mais ainda a possibilidade de um acordo sobre o desarmamento, e unido a estes acordos vai o problema da reunificação pacífica da Alemanha. Ainda que não se consiga um entendimento claro, deve se reconhecer a existência de duas Alemanhas, a República Democrática Alemã (6) e a República Federal. O problema alemão não pode ser resolvido se não contar com a participação direta nas negociações da República Democrática Alemã, imbuída de plenos direitos.

FIM DA PARTE I

12 de dezembro de 1964


Tradução de Fuzil contra Fuzil

Leia a Parte II

NOTAS:

(1) O presidente de então era Alex Quaison-Sackey, natural de Gana.
(2) O discurso se pronunciava na 19ª (ou XIX) Sessão ordinária da Assembleia-geral da ONU.
(3) Katanga é uma província do Congo, que hoje é dividida em 4 províncias menores. Nesta região que fora enviado Lumumba para tortura e a morte sob o comando do Tshombe em 1961. A região vai ser reintegrada ao país em 1963 e Tshombe vai ser exilado.
(4) Bechuania era uma colônia inglesa até a independência política ser rebatizada como Botswana em 1966.
(5) OEA - Organização dos Estados Americanos, fundada em 1948, a OEA excluiu Cuba da organização em 31 de janeiro de 1962, após Cuba fazer a declaração do caráter socialista de sua Revolução e declarar apoio à URSS. Só em 2009 Cuba pode voltar a fazer parte da organização.
(6) No pós-guerra, a Alemanha foi divida em dois lados, um lado ocidental, sob a "proteção" das potências ocidentais francesas, inglesas e estadunidenses. E uma Alemanha Oriental, a República Democrática da Alemanha, que contava com soberania e se aliava com o bloco socialista.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

O Partido, alma da Revolução - Granma

São enviados a Fidel e Raúl reconhecimentos pelo aniversário de 50 anos do início da construção do Partido no Ministério das Forças Armadas Revolucionárias e 53 anos das Forças Armadas Revolucionárias


"Ao Partido nas Forças Armadas Revolucionárias (FAR), ao longo desses anos, tem correspondido continuar desempenhando um papel de vanguarda dentro da massa de oficiais, sargentos, soldados e trabalhadores civis". Com essa asseveração, o general de brigada da reserva Marcos Gutiérrez Bello, fez referência ao significado da organização política, no ato pelo aniversário de 50 anos do início da construção do Partido no Ministério das Forças Armadas Revolucionárias, e aos 53 anos das Forças Armadas Revolucionárias.

Na homenagem - presidida pelo membro do Buró Político do Comitê Central do Partido, Herói da República de Cuba e general do Corpo de Exército Leopoldo Cintra Frías, Ministro das FAR - Gutiérrez Bello sintetizou a história do processo e caracterizou como uma "grande satisfação" o fato de de ter recebido do então ministro, Raúl Castro Ruz, o carnê de militante da organização.

"Nos enche de orgulho saber que hoje nas Forças Armadas 90,3% dos oficiais são militantes do Partido ou da União de Jovens Comunistas" disse aquele que naquele momento desempenhava a função de chefe da Seção Política da Unidade Militar 1370 - local onde iniciou o processo-, e indicou a proximidade do XII Congresso do Partido e o esforço dos militantes da instituição, que terá como prioridade a defesa da Pátria.

No momento das homenagens, foram enviados reconhecimentos a Fidel e a Raúl, entregues pelo membro do Buro Político do Partido e Herói da República de Cuba, general do corpo de Exército, Àlvaro López Miera, primeiro vice-ministro das FAR e chefe do Estado Maior General, a José Ramón Balaguer Cabrera, membro do Secretariado do Comitê Central do Partido e chefe do Departamento de Relações Internacionais.

Além disso, foram reconhecidos o general da reserva Marcos Gutiérrez Bello, o Comandante do Exército Rebelde Julio Camacho Aguilera, o general de brigada da reserva Luis Alfonso Zayas Ochoa e o tenente coronel da reserva Pablo Edelio Valdés Peres, os quais sob distintas funções participaram da construção do Partido nas FAR.

No ato - que contou com a atuação do Ballet Nacional de Cuba - estiveram, além de outros chefes das FAR e do Ministério do Interior, uma representação dos fundadores do Partido nas FAR, assim como alunos das escolas militares e trabalhadores civis.

Tradução de Fuzil Contra Fuzil
Original de Granma de 26 de febrero de 2016

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Cuba é uma nação socialista - Fidel Castro - Parte I

Discurso Pronunciado por Fidel Castro em  1º de Maio de 1961

    "Notáveis visitantes da América Latina e de todo o mundo, combatentes das forças armadas do povo, trabalhadores: nós tivemos 14 horas e meio de desfile militar. (Cantando) Eu penso que só uma pessoa imbuída com entusiasmo infinito é capaz de resistir tais provas. De qualquer maneira, eu vou tentar ser o mais breve possível (Cantando).

    Nós estamos muitos felizes em relação a essa atitude do povo. Eu acredito que hoje nós deveríamos esboçar um percurso para seguir, analisar um pouco o que nós fizemos até agora, e ver a que ponto da nossa história estamos, e o que temos adiante. Todos nós tivemos chance de ver o desfile militar. Talvez nós que estamos nessa plataforma poderíamos apreciar melhor do que você na praça, talvez até melhor do que os que desfilaram. Esse primeiro de maio nos diz muito, diz muito sobre o que a revolução vem sendo até agora, o que conquistou até agora; mas talvez não diga tanto a nós quanto diz para os nossos visitantes.

    Nós temos sido testemunha, todos nós cubanos, de todos os passos dados pela revolução, então talvez não consigamos perceber o quanto avançamos tanto quanto os visitantes, particularmente aqueles visitantes da America Latina, que ainda hoje vivem em um mundo muito similar ao que vivíamos ontem. É como se fossem de repente transportados do passado para o presente da nossa revolução, com todo seu progresso extraordinário comparado ao passado. Nós não temos a intenção essa noite de enfatizar o mérito do que fizemos. Nós apenas queremos nos localizar o ponto no qual estamos no presente.

    Hoje, nós tivemos a chance  de ver os resultados genuínos da revolução nesse primeiro de maio, diferentemente dos primeiro de maio anteriores. Antigamente essa data era a ocasião para cada categoria de trabalhadores para apresentarem suas demandas, suas aspirações em relação ao que poderia ser melhorado para homens que eram surdos para os interesses da classe trabalhadores, homens que não poderiam nem assentir em favor das demandas básicas porque eles não governavam para as pessoas, para os trabalhadores, para os camponeses, ou para os humildes; eles governaram somente para os privilegiados, o interesse econômico dominante. Fazer tudo pelo povo significava prejudicar os interesses que eles representavam e então eles não poderiam assentir para nenhuma demanda do povo. O desfile do primeiro de maio daqueles dias ficou marcado pelas reclamações e pelo protesto dos trabalhadores.

    O quão diferente foi o desfile de hoje! O quão diferente até mesmo dos primeiros desfiles depois que a revolução triunfou. O desfile de hoje mostra o quanto avançamos. Os trabalhadores (alguns aplausos) agora não precisam se submeter a essas dificuldades; os trabalhadores agora não precisam implorar para executivos surdos; os trabalhadores agora não estão sujeitos a dominação de nenhuma classe exploradora; os trabalhadores não mais vivem em um país controlado por homens que servem interesses exploratórios. Os trabalhadores sabem agora que tudo que a revolução faz, tudo que o governo faz ou pode fazer, tem um objetivo: ajudar aos trabalhadores, ajudar as pessoas. (Aplausos)
    Caso contrário, não haveria explicação para o sentimento espontâneo de apoio pelo Governo Revolucionário, essa simpatia transbordante que cada homem e mulher expressaram hoje ao passar em frente a tribuna (Aplausos).

    E para onde quer que olhemos vemos já os frutos da Revolução, porque os primeiros que desfilaram no dia de hoje foram precisamente as crianças de cidade escolar “Camilo cienfuegos” (Aplausos). E  vimos desfilar os primeiros pioneiros [1] (Aplausos) com um sorriso de esperança, confiança e carinho; vimos os jovens rebeldes desfilarem (Aplausos); vimos as mulheres da Federação [2] desfilarem (Aplausos); vimos desfilar incontáveis escolas criadas pela Revolução (Aplausos); vimos desfilar estudantes de inseminação artificial (Aplausos) que, em número 1000 estudantes de 600 cooperativas de cana-de-açúcar estudam na capital da República (Aplausos); vimos humildes jovens do povo desfilar com seus uniformes dos centros escolares, onde estão se preparando para serem futuros representantes diplomáticos de nosso país no futuro (Aplausos); vimos os alunos das escolas que albergam a jovens camponeses da Ciénaga de Zapata, o lugar escolhido pelos mercenários [3] para atacar nosso país (Aplausos); vimos desfilarem milhares de camponeses que estão estudando na capital, procedentes dos rincões mais longínquos de nossa ilha, das montanhas do Oriente [4] ou das Villas, das cooperativas de cana-de-açúcar ou nas fazendas do povo (Aplausos); vimos as jovens que estudam para assistentes de círculos infantis (Aplausos).

    E aqui cada um desses núcleos colegiais tem sido capaz de demonstrar atos que, se se considerar o brevíssimo tempo com que contaram para se preparar, são duplamente dignos de admiração e elogio (Aplausos). Vimos não somente o que vem do campo, temos visto também o que vai para o campo, porque aqui desfilaram os professores voluntários (Aplausos) e desfilaram também os representantes dos 100 mil jovens que já estão marchando até o interior da República para cumprir o plano de erradicar totalmente o analfabetismo em nosso país em uma ano (Aplausos). De onde vem essas forças e para onde vão? Vem do povo e vão para o povo (Aplausos).

    Esses jovens são sim filhos do povo (Aplausos). Esses jovens sim são filhos do povo (Aplausos). E quando os víamos hoje escrever com suas formações “LVP”, ou a inscrição de: “Viva nossa Revolução socialista!” (Aplausos prolongados e exclamações: “Somos socialistas, para adiante, para adiante e o que não gosta que tome purgante!”), nós pensamos: que difícil teria sido tudo isso sem uma revolução!, que difícil que qualquer um dessas crianças da montanha tivessem desfilado por aqui hoje! Que difícil que qualquer um desses jovens do nosso campo, que qualquer jovenzinho ou jovenzinha de famílias mais humildes, que tivessem podido conhecer sequer a capital da República, estudar em qualquer uma dessas escolas, desfilar com alegria e o orgulho como desfilaram hoje, admirar a todos, admirar nossos visitantes, e humildes da cidade ou do campo (Aplausos), não foram jamais encontrar os camponeses das montanhas distantes, não foram jamais encontrar o jovem pobre branco ou negro de nossos campos ou de nossas cidades. (Aplausos); arte cultura, profissões universitárias, oportunidades na vida, honras, vestidos elegantes, foram um privilégio de uma insignificante minoria; minoria representada hoje, com essa graça e com esse humorismo com que hoje algumas federações de trabalhadores imitaram os ricos, desfilando em frente a essa tribuna com seus vestidos elegantes que caracterizavam aquela juventude das famílias abastadas (Exclamações de: “fora!”). É assombroso que no dia de hoje desfilaram mais de 20 mil esportistas e ginastas (Aplausos) e sim, se tem em conta que estamos apenas começando. E isto sem ir todavia ao mais maravilhoso que tivemos a oportunidade de contemplar hoje, que é esse povo  armado e esse povo unido que marcou presença neste 1° de maio (Aplausos prolongados).

    E como seria possível sem uma revolução? E como é possível comparar esse presente com o anterior? E como é possível não se emocionar quando se vê marchar filas intermináveis de trabalhadores primeiro, esportistas depois e milicianos depois? E como às vezes marchavam confundidos, trabalhadores, atletas e milicianos, a pensar que no final das contas, trabalhadores, atletas e milicianos são a mesma coisa (Aplausos).

    Se poderia explicar a qualquer um por que nosso povo tem que sair vitorioso de qualquer provação. Observamos as nutridíssimas mulheres nas filas das federações (Aplausos) e é que, simplesmente, os homens estavam nas unidades de artilharia, nos canhões, nos morteiros, nas baterias antiaéreas e nos batalhões de milícias que desfilaram depois; ao fim, essas mulheres eram as esposas, irmãs, mães e namoradas dos milicianos que depois marcharam nos batalhões (Aplausos). E possivelmente, essas jovens das escolas secundárias básicas, e esses filhos, esses jovens pioneiros que por aí desfilaram abrindo o desfile, ou que logo desfilaram com os atletas, eram simplesmente seus filhos (Aplausos).

    E assim se pode apreciar tudo o que é hoje o povo humilde que luta pelos humildes: trabalhadores de todas as profissões, trabalhadores manuais e trabalhadores intelectuais. Marchando junto o escritor com o artista, o ator, o locutor; marchando juntos o médico com os enfermeiros e os empregados das clínicas; e marchando em grande número debaixo da bandeira do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Educação, os professores, os pedagogos, os empregados do Ministério da Educação.

    E hoje mais que nunca tivemos a oportunidade de apreciar e compreender tudo que vale no nosso país, tudo o que produz no nosso país; podemos compreender melhor do que nunca que existem, ou haviam, duas classes de cidadãos: os cidadãos que trabalham. Os cidadãos que produziam e que criavam e os que viviam sem trabalhar nem produzir, os que viviam simplesmente como parasitas. (Aplausos)

    E esta nação, jovem e lutadora, esta nação entusiasta e fervorosa, quem não desfilou por aqui hoje? Quem não poderia desfilar aqui hoje? Simplesmente os parasitas. Por aqui desfilou hoje o povo trabalhador, por aqui desfilou todo o povo que trabalha e que produz com seu braço ou com sua inteligência, trabalhador manual ou trabalhador intelectual, mas produtor de bens materiais ou produtor de serviços para a sociedade ou para o povo.

    E esse é o povo verdadeiro. Não quero dizer que sejam parasitas os trabalhadores que não puderam desfilar. Estou me referindo a aqueles que não estavam representados aqui hoje e que não podiam estar representados onde desfilam os representantes dos que trabalham e dos que produzem (Aplausos). Quem vive como parasita, não pertence realmente ao povo. Só tem o direito a viver sem trabalhar o inválido, o doente, o ancião e a criança. Esses tem o direito a que trabalhemos para eles, a que velemos por eles e que do fruto do trabalho eles possam se beneficiar. O que nenhuma lei moral poderá jamais justificar é que o povo trabalhe para os parasitas (Aplausos).

    E os que aqui desfilaram são o povo trabalhador que não quer e jamais se resignará a voltar a trabalhar para parasitas (Aplausos). Assim nossa coletividade nacional compreendeu o que é uma Revolução, compreendeu com absoluta clareza em que consiste a Revolução, em que país se livra dos parasitas de fora e também de dentro (Aplausos). Nós recordamos que com a nacionalização das maiores indústrias do país, como anteriormente se havia nacionalizado as fábricas norte-americanas, alguns perguntavam: “mas aquela fábrica não era cubana?”; quando veio a segunda lei: “como nacionalizar uma fábrica que era cubana?” Mas essa fábrica não era cubana, essa fábrica era de um senhor, não pertencia ao povo, não pertencia a nação; logo está correto decidir nacionalizar a fábrica; para que passe das mãos do senhor ao povo, à nação (Aplausos).

    Aqui se costumava falar muito muito sobre a pátria por parte de uma série de senhores que tinham um conceito muito raquítico do que é ou deve ser uma pátria. E sempre estava falando da pátria, estabelecendo a obrigação e o dever de defender a pátria. Mas que pátria? A pátria de alguns poucos? A pátria de um punhado de privilegiados? A pátria onde um senhor tinha 1000 caballerías [5] e tem três casas enquanto se vive nas plantações de cana-de-açúcar ou em choupanas miseráveis? (Aplausos) A qual pátria se referia o senhor? A pátria onde uns poucos tinham oportunidades e uns poucos se apropriavam de todos os demais, ou a pátria do homem que nem sequer tem trabalho, a pátria de uma família que vive em um bairro de indigentes, a pátria da criança faminta e descalço que pede esmolas na rua? A que se referiam e que conceito de pátria era esse? A pátria que era propriedade de uns poucos com exclusão de toda oportunidade e de todo benefício para o resto da país, ou a pátria de hoje, onde nós ganhamos o direito de dirigir nosso próprio destino, onde temos o direito de construir o futuro que necessariamente terá de ser melhor que o presente? Mas a pátria onde não poderá se dizer mais que seja propriedade de uns poucos, que seja para disfrute de uns poucos; a pátria que será de agora adiante e como a sempre quis Martí, quando disse: “ com todos e para o bem de todos” (Aplausos).

    A pátria como será no futuro e para sempre, em que se deixará de existir essa injustiça em que uns poucos tinham tudo e quase todos não tinham nada. Agora sim nós podemos falar de pátria e agora nós podemos ter um conceito verdadeiro de pátria, porque para eles a pátria era um privilégio, um privilégio deles, que se apoderavam dos demais e além disso queriam que outros defendessem essa pátria para eles. Por isso, quando um monopolista ianque fala de pátria (Exclamações), quando um dirigente ou um membro dos círculos governamentais dos Estados Unidos fala de pátria, sabem a que pátria eles se referem? À pátria dos monopólios, à pátria dos capitais bancários, à pátria de grandes empresas, das quais são donos apenas algumas pessoas. E quando falam de pátria, estão pensando em mandar o negro do sul dos Estados Unidos, de mandar o porto-riquenho, ou de mandar a jovem família trabalhadora dos Estados Unidos, ou de mandar o trabalhador, a combater, a morrer, a matar e até a assassinar, em defesa desses monopólios e desses milhões que eles chama de pátria (Exclamações de: “Paredão”!)

    Que moral, que moral, que moral e que razão; que moral e que razão e que direito, como não seja o direito imposto por uma classe dominante e exploradora! Que direito eles tem de chamar um negro do sul dos Estados Unidos – que tem todos os seus direitos negados, que é obrigado a sentar num banco a parte no ônibus público, que é proibido de entrar em vários estabelecimentos –, que direito eles tem de alistar no exército esse homem negro, pobre, sem milhões, sem monopólios, privado de todos os direitos, para ir morrer na defesa dos milhões, dos monopólios e dos latifúndios, das minas e das fábricas das classes dominantes? E que direito tem de alistar algum porto-riquenho – cujo país  tem sistematicamente negada a menor oportunidade de se um país soberano e independente –, que direitos tem esse porto-riquenho de sangue latino, de tradição e de origens latinas, de enviá-lo para morrer nos campos de batalha em defesa da política dos grandes milionários e dos grandes magnatas de finanças e das indústrias?

    Esse é o conceito que eles tem de pátria e esse perigo a seguridade ao que tem que recorrer, o que costumam falar como pretexto, é simplesmente o perigo dos monopólios, o perigo dos interesses econômicos. E considerem vocês que conceito eles tem de pátria, de moral, de lei, que mobilizam milhões de homens do povo que não tem nada, muitas vezes a homens que não tem nenhum direito, como ocorre com o porto-riquenho ou com o negro do sul dos Estados Unidos, os mandam para lutar e morrer nos campos de batallha.

    Esse é o conceito de pátria das classes dominantes, privilegiadas e exploradoras. E é por isso, somente por isso, que um povo adquire um conceito verdadeiro de pátria quando os interesses das minorias privilegiadas acabam liquidadas e quando o país, com suas riquezas e oportunidades, passa a ser um país de todos, patrimônio de todos, oportunidade de todos e felicidade de todos.

    Essa oportunidade que tem hoje, jamais sonhada ontem, que tem qualquer um desses milhares de jovens humildes; essa oportunidade, jamais sonhada ontem por qualquer uma das centenas de famílias humildes, que sabem que seu filho ou sua filha podem ter uma escola, podem se formar, podem seguir carreira universitária, pode viajar a outro país; pode ir às melhores Universidades do exterior, privilégio que era restrito às famílias ricas. E hoje qualquer família do povo, por humilde que seja, tem a oportunidade de enviar seu filho ao melhor centro de educação dentro do país e fora do país se o jovem tem talento; qualquer família sabe que graças ao que é a Revolução, seus filhos tem todas as oportunidades que antes só tinham os filhos de um punhado de famílias e que as oportunidades se multiplicam de maneira fantástica, até alcançar todas as famílias.

    Porque um país  que põe toda a sua inteligência, toda sua energia e todo seu esforço a um propósito determinado, seja defender a pátria ou criar riquezas novas para a pátria, criar oportunidades novas para a pátria, o consegue como não poderia conseguir jamais uma minoria governante e exploradora, que não pode arrastar atrás de si o povo com todo seu fervor e seu entusiasmo (Aplausos).

    A Revolução pode arrastar o povo com seu fervor infinito e com seu infinito entusiasmo! A Revolução pode sim recolher do povo toda a sua inteligência, toda energia e todo seu espírito de luta e criação e levá-lo até um caminho de bem-estar e progresso!

Este povo  de hoje é o mesmo povo cético de ontem. Este povo entusiastas de hoje que está a 15 e a 16 horas de pé, homens e mulheres por igual, jovens e idosos, é o mesmo povo de ontem, que não era capaz de ficar uma hora de pé para ir a um pequeno ato público com aqueles os obrigavam a ir no ato ou lhes pagava para ir ao ato! Este povo entusiasta, heroico e valoroso de hoje o povo indiferente de ontem com uma só diferença: que ontem trabalhavam para os outros com seu suor, seu sangue e sua energia para os outros e hoje para si mesmo! (Aplausos.)
     Calculem os homens que caíram nos últimos combates; se tinha valido a pena uma só gota de sangue cubano para defender os privilégios do passado e se em troca, quando se pensa que esses jovens cubanos caíram, que esses jovens trabalhadores caíram, ou filho de trabalhadores ou eles mesmos, a apenas 10 ou 12 dias, caíram  faz apenas algumas semanas, estavam caíndo para defender o que vimos hoje aqui , estavam caindo  para defender nossos direitos, que a Revolução reivindicou para o povo, estavam caindo para defender esse entusiasmo, essa esperança e alegria de hoje. E por isso, quando víamos um rosto feliz, quando no dia de hoje víamos um rosto alegre ou um sorriso cheio de esperança, pensávamos que cada sorriso de hoje era como uma flor sobre a tumba de milicianos e de soldados que caíram (Aplausos).

    Que cada sorriso de hoje era como um reconhecimento, que cada sorriso de hoje era como dar as graças a os que deram as suas vidas; porque sem essas vidas que impediram o imperialismo agressor, sem esses homens que estiveram dispostos a cair, e caíram, não haveria acontecido o primeiro de maio hoje, não teria tido o desfile dos pioneiros, nem dos jovens rebeldes, nem das mulheres, nem dos trabalhadores;  não teriam se levantado essas bandeiras da pátria, não teriam desfilado esses atletas.

    E o que haviam sido esses jovens artilheiros, artilheiros antiaéreos ou artilheiros de canhões anti-tanques ou de canhões de longo alcance? E o que tinha se tornado esses batalhões marciais galantes, de nossos trabalhadores, que bem armados, bem treinados e já com experiência marcharam nessa praça? O que teria acontecido com trabalhadores e com os milicianos? E o que teria acontecido com suas esposas, seus filhos, suas irmãs e com suas fábricas? O que teria acontecido com eles se o imperialismo estivesse se estabelecido no nosso território? Que teria sido deles, de seus filhos, suas esposas e suas famílias se o agressor imperialista pudesse ocupar a praça, se apoderar de uma parte do território cubano e desse território lançar bombas, napalm e explosivos, iniciando assim uma guerra; e além da agressão econômica, do bloqueio da nossas exportações, a supressão de nossas cotas, do embargo a todo tipo de exportação de peças de reposição ou de matéria-prima a nosso país, em meio a dificuldades que a agressão imperialista nos impõe, tivéssemos que confrontar ao mesmo tempo um bombardeio quase diário das  nossas linhas de comunicação, de nosso transporte de nossos centros de produção e as nossas cidades?
    Não falemos mais o que teria sido da alegria do povo e da esperança do povo se o imperialismo tivesse vencido a Revolução, porque não há espetáculo mais horrível na história da humanidade que o espetáculo de uma Revolução derrotada.

    E a história dos escravos de Roma, que ensaiaram uma insurreição e aspiraram serem livres, a ideia de dezenas e talvez centenas de milhares de escravos ardendo nas cruzes por estradas que conduziam a Roma, deve nos dar uma ideia do que é uma Revolução derrotada. E a história da Comuna de Paris, com seu saldo espantoso de trabalhadores assassinados, isso deve nos dar uma ideia do que é uma Revolução deerrotada. E a história ensina que as Revoluções derrotadas tem que pagar um saldo extraordinário de sangue da reação vencedora, a classe dominante vencedora, porque então se cobra todo o desassossego em que terá que se viver, todos os interesses que os afetaram, o ameaçaram como não se cobra a dúvida presente, mas é necessário também cobrar o sangue das dívidas futuras, tratar de exterminar as raízes da Revolução. Em determinadas circunstâncias é impossível de derrotar uma Revolução.

    Falo de revoluções que foram vencidas antes de conquistar o poder; não há jamais na história um exemplo da derrota de um povo revolucionário que conquistou o poder (Aplausos). Quero apenas os fazer pensar como seria se o imperialismo tivesse dominado esse país. Que primeiro de maio teriam tido nossos trabalhadores se o imperialismo tivesse tivesse dominado o país!

    E por isso, nós pensávamos tudo o que devíamos aos que caíram; por isso nós pensávamos que cada sorriso de hoje era como um tributo pelos que fizeram esse esperançoso dia de hoje possível (Aplausos).

    O sangue que se verteu ali foi o sangue de trabalhadores e camponeses, o sangue que se verteu foi sangue dos humildes do povo; não foi sangue de latifundiários, não foi sangue de milionários, o sangue que se verteu ali não fora sangue de ladrões, não foi sangue de criminosos, não foi sangue de exploradores. O sangue que se verteu aí foi o sangue dos explorados de ontem, dos homens livres de hoje (Aplausos); o sangue que verteu foi sangue humilde, sangue honrado, sangue trabalhador, sangue criador; foi sangue de patriotas, não foi sangue de mercenários; foi sangue de trabalhadores que por vontade própria e de maneira espontânea se alistaram no exército da pátria (Aplausos); não foi sangue de um recruta, não foi sangue daquele que se alista na virtude de uma lei; foi o sangue do que se oferece enspontâneamente e generosamente para afrontar a todos os riscos da batalha em defesa de um ideal, de um verdadeiro ideal, de um ideal que se sente e que não é um ideal falso, hipócrita, com o qual os ianques inculcaram os seus mercenários, como se fossem papagaios (Aplausos). Não o ideal dos papagaios, não o ideal da língua para fora, mas o do de dentro do coração; não o ideal do que vem buscar seus privilégios perdidos, suas terras perdidas, seus bancos perdidos, suas fábricas perdidas, suas riquezas perdidas; não o ideal que vem recuperar a boa vida em que nunca suou e viveu sempre do suor e sangue dos demais (Aplausos). Não o ideal do mercenário, que vende sua alma por ouro do poderoso império, mas o ideal do trabalhador que não quer ser explorado, o ideal do camponês, que não quer voltar a perder sua terra, o ideal do jovem que não quer voltar a perder seu professor, o ideal do negro que não quer voltar a ser discriminado, o ideal dos que nunca viveram do suor dos demais, o ideal dos que nunca puderam contemplar a vida como um presente, mas como um trabalho.

    O ideal dos que não roubavam os outros nem lhes privavam da vida a outros por defender interesses bastardos; o ideal que pode sentir um homem humilde do povo, que defende a Revoução por que a Revolução é tudo para ele, porque ele não era nada, ele era um homem humilde e humilhado, ele era um homem discriminado, ele era um homem maltratado, ele era um homem a quem a classe dominante e exploradora considerava como um zero à esquerda e hoje é um zero a direita dos milhões de filhos do seu povo (Aplausos); e que defende a revolução, porque a Revolução é sua vida, porque sua vida se identificou com ele e seu futuro e esperança e antes de sacrificar essa esperança, prefere perder mil vezes a vida, porque não pensa egoístamente em si, mas pensa que ele pode cair, mas que não cairá em vão e que a causa pela que ele caí sevirá para fazer milhões de seus irmãos felizes (Aplausos). 

    Sangue trabalhador, sangue camponês, sangue humilde do que derramou a pátria lutando contra os mercenários do imperialismo. E que sangue, que homens foram os que mandou o imperialismo aquí desembarcar para a partir daí submeter o país a uma guerra de desgaste e contra nossas plantações de cana, uma destruição sistemática, com bombas incendiárias, como estavam fazendo quando nem sequer tinham uma desculpa ou pretexto de uma parte do território nacional para fazer pousar seus aviões; uma guerra de destruição de nossas fábricas e de nossos povos, como fizeram quando nem sequer se tinha uma base aqui, como fizeram decolando seus aviões de fora do país enquanto enganavam o mundo da maneira mais cínica.

    E nós temos o direito de dizer ao povo sobre tudo aos nossos visitantes, que no mesmo instante em que três de nossos aeroportos eram bombardeados simultâneamente por aviões de fabricação ianque, com bombas e metralhadoras ianque, as agências ianques lançavam ao mundo sua própria versão de que nossos próprios aeroportos haviam sido atacados por aviões de nossa própria Força Aérea, com pilotos que haviam desertado nesse mesmo dia.

Com todo sangue frio, realizaram um ato que era um verdadeiro escândalo, uma violação de todas as leis internacionais e de todas as normas morais, atacando de surpresa de manhã os aeroportos de um país a partir de bases estrangeiras e acima de tudo isso, enganar o mundo, comunicar ao mundo, comunicar ao mundo através de suas agências, as agências do imperialismo, que esse bombardeio era um bombardeio  ocasionado por pilotos cubanos que haviam desertado com aviões cubanos, bombardeios que tinham sido planejados com sangue frio, com aviões que pintaram insígnias das mesmas cores que os nossos aviões. E que outras razões e outros atos não bastaram, esse ato por si deve bastar para compreender o quão bandidescas e o quão canalhas são; porque é possível que milhões de pessoas em todo o mundo não tenham recebido outra notícia dos acontecimentos do que a notícia de que os aviões cubanos tripulados por desertores haviam atacado nossos aeroportos.
E aquela era uma ação planejada pelo imperialismo com toda calma, todo sangue frio, a ação de bombardear foi estudada, estudada e planejada ao mesmo tempo em que se pensou numa forma de enganar ao mundo. E isto debe servir para alertar e para compreender que os imperialistas são capazes da mentira mais monstruosa para encubrir o mais monstruoso crime.

    Hoje não necessitamos apresentar muitas provas. Círculos governamentais dos Estados Unidos confessaram publicamente, sem dar ao mundo uma explicação, porque deviam pelo menos dado ao mundo uma explicação de todas as coisas que haviam dito anteriorment, das Nações Unidas, quando disseram que o bombardeio em nossos aeroportos haviam sido realizados por aviões cubanos. Ao confessar sem nenhuma explicação ao mundo, todas as informações e mentiras anteriores, nos revelaram que eles teriam de buscar provas, mas é fato que tentaram o ataque, lançaram o ataque e que esse ataque custou destruição de riquezas e detruição de vidas e custou sangue de trabalhadores e camponeses. Quem eram os que lutaram contra esses trabalhadores e esses camponeses? Vamos explicar.

    Dos 1000 primeiros mercenários capturados... Devemos dizer que em poder das forças revolucionárias existe nesse momento, sem contar tripulantes no barco, cerca de 1100 mercenários prisioneiros (Aplausos). Entre 1000, fazendo uma análise da composição social de 1000 deles, temos o seguinte: que 800, 800 aproximadamente, eram famílias acomodadas; que entre esses 800, uma parte deles tinham juntos um total de 27556 caballerías afetadas pela Revolução; 9666 casas, 70 indústrias, 10 centrais açucareiras, dois bancos e cinco minas. Ou seja, escolhendo 800 de um grupo de 1000, esses 800 tinham, repito, 27556 caballerías afetadas pela Revolução. Além disso, mais de 200 desses 800 eram sócios de clubes exclusivos e aristocráticos de Havana e dos 200 restantes – até chegar aos 1000 – 135 eram ex-militares do exército de Batista e o resto, 65 eram lumpen ou gente sem classe.

Nós temos a segurança de que se perguntássemos a todos aquí reunidos, quantos são donos de centrais açucareiras, não há nenhum; quantos são donos de bancos, não há um só; quantos são donos de latifúndios, não há nenhum. Se perguntamos aos combatentes que ali morreram, membros das milícias ou soldados da Polícia Nacional Revolucionária ou do Exército Rebelde, se confrontássemos as riquezas dos que caíram ou dos que ali combateram, com segurança que não haveria nenhum banco, nem uma mina, nem um centro de processamento de açúcar, nenhum edifício de apartamentos, nenhuma indústria, nenhum latifúndio, nenhum sócio de nenhum dos clubes aristocráticos que existiam na capital. E alguns destes desavergonhados, disseram que vinham lutar por ideais, que vinham lutar por livre iniciativa.

A essas horas, que venha aquí um idiota dizer que vem lutar por livre iniciativa, como se o povo não soubesse a muito o que era a livre iniciativa, que livre iniciativa eram os bairros de indigentes, o mesmo que as Yaguas, que Llega y Pon, que a Cueva do Humo, que as dezenas de bairros indigentes que rodeavam a capital; que livre iniciativa era o desemprego para 500000 cubanos; que livre iniciativa eram centenas de famílias camponesas trabalhando a terra para ter que entregar uma parte considerável de sua produção a proprietários ausentes que nem sequer terem visto ser semeada uma única semente na terra; como se livre iniciativa não tivesse sido descriminação, arbitrariedade, atropelamentos para trabalhadores, camponeses espancados, assassinatos de líderes trabalhadores, contrabando, cabarés, casinos, jogos, vício, exploração, ignorância, analfabetismo e miséria para nosso povo.

Como vão falar de livre iniciativa a um povo onde havia quase meio de milhão de desempregados, um milhão e meio de analfabetos, um país onde havia meio milhão de crianças sem escolas; ademais, um país onde haviam filas para ir aos hospitais e além disso buscar um político qualquer a uma mudança qualquer que lhe dá uma cédula eleitoral (Aplausos); como vão falar de livre iniciativa a um povo que sabia que livre iniciativa eram clubes aristocráticos para quantas milhares de famílias e filhos famintos e descalços, mendigos pelas ruas, tomando banho no El Morro ou tomando banho nas aguas dos aterros sanitários, porque não tinham chance de ir à praia, porque as praias estavam fechadas, eram particulares, as praias eram para os aristocratas, as praias eram dos afortunados, privilegiados usufrutuários de livre iniciativa; nem sequer sonhar ir algum um dia em Varadero, porque Varadero era para algumas famílias endinheiradas; nem sonhar em seu filho estudar idiomas na Europa, porque iam a Europa apenas os filhos dos privilegiados da livre iniciativas;

Nem sonhar que o filho de um trabalhador da construção, de um trabalhador com escassa renda, podia estudar em um instituto, se não se tinha um instituto na capital; nem sonhar com um trabalhador do setor açucareiro que seu filho pudesse ser bacharel, ou que seu filho pudesse ser médico, engenheiro, porque se o filho de um trabalhador podia estudar era porque era um trabalhador da capital, que podia mandar – se tivesse sorte, as possibilidades eram poucas – seu filho ia a um instituto, mas 90% dos filhos dos trabalhadores, que são os que vivem... ou se não 90%, pelo menos 75% dos filhos de trabalhadores, que viviam em regiões onde não havia centros de ensino secundário e eles não poderiam dispor de recursos para pegar estadia em uma cidade a seus filhos, 75% dos filhos dos trabalhadores não teriam oportunidade de estudar. Essa oportunidade teriam exclusivamente os filhos dos beneficiário da livre iniciativa.

    Eles também falam que vieram para defender a constituição de 1940. Que curioso! Aquela constituição estava sendo destroçadas com a cumplicidade com a embaixada dos EUA, a igreja reacionária e os políticos. Então é cínico para esse grupo de privilegiados e tiranos como Batista, criminosos e torturadores para falar que as pessoas que eles estavam vindo para defender a constituição dos anos 1940, que foi superada pelo Governo Revolucionária.

    Quem representava você no congresso? Os políticos corruptos, o rico, o grande latifundiário. Eram poucos os trabalhadores no congresso. Eles estavam sempre em minoria. Os meios para disseminar ideias estavam todos nas mãos do rico. Era difícil aprender sobre as horríveis condições por causa disso. A morte de milhares de crianças por causa de falta de remédios e de médicos não incomodava os homens de livre iniciativa. Jamais houve uma reforma agrária, pois o congresso estava nas mãos dos ricos. Mesmo que a constituição dissesse que a terra deveria ser devolvida aos cubanos e mesmo que em 1959 a constituição de 1940 estava vigente por 19 anos, nenhuma lei tirou a terra dos monopólios ianques, que tinham grandes extensões.

    Um monopólio tinha 15000 caballerías, outro tinha 10000 caballerías  – 10000 caballerías são cerca de 140000 hectares, digo para aqueles visitantes que não compreendem bem o que é uma caballería. Haviam companhias que tinham aqui mais de 200000 hectares de terra, das melhores terras de Cuba. Uma lei constitucional que dizia que se proscrevia o latifúndio e uma lei que dizia que se devia ter um limite máximo de terra, uma lei constitucional que dizia que a terra devia ser reverter para as mãos do povo cubano, que nunca se cumpriu.
    O mesmo que dizia essa lei: que o Estado usaria de todos os meios a seu alcance para proporcionar trabalho a todo trabalhador manual ou intelectual. A Revolução encontrou mais de 10000 professores sem aula, sem trabalho e imediatamente lhes deu trabalho porque, por outro lado, havia meio milhão de crianças que necessitavam de escolas.

    Como? Pois, simplesmente: “ o Estado esgotará todos os meio a seu alcance para proporcionar a todo trabalhador manual ou intelectual uma existência decente”. E isso foi o que fez a Revolução, usou de todos os meio para alcançar isso; e se não tivesse esgotado todos os meios, estaria disposto a esgotar todos os meios necessários para dar-lhes trabalho, sim trabalho, porque era isso que ordenava a Constituição (Aplausos).

Esses que eram os princípios fundamentais e que tinham resolvido o problema de centenas de milhares de camponeses, o problema de centenas de milhares de pessoas sem emprego, estabelecido pela Constituição, nunca se cumpriram.

Veio a ditadura de Batista mediante uma quartelada, reacionária e apadrinhada pelo imperialismo e pelas classes exploradoras, porque para as classes exploradoras era conveniente ter um Batista. Ladrão? Sim, isso não os importava. Criminoso? Sim, isso não os importava. Imoral? Isso não importava, contanto que os guardas rurais estivessem a disposição dos latifundiários mais importantes, para fazer o trabalhador que reclama do seu salário ou o componês que reclama a terra apanhar! (Aplausos.)

Isso não lhes importava, ainda que tinham saqueado a república, não importava ao imperialismo, nem importava para as classes dominantes; e então não se davam armas a ninguém para combater esse regime sangrento e reacionário, não lhe davam aviões a ninguém, não lhe dava bazucas a ninguém, não davam tanques a ninguém, não; os aviões, as bombas, os tanques eram do próprio regime sangrento e reacionário, sem se importar nem se preocupar os crimes que se cometia nem os abusos que cometiam contra o povo, nem a violação de ordens constitucionais, nem a destruição da Constituição, a 80 dias antes das eleições, para estabelecer uma ditadura de quartel no poder.

    Então os ianques não lhes deram uma só bazuca nem um só fuzil a nenhum senhorzinho desses!, não lhe deram um só fuzil e uma só bazuca a nenhum senhorzinho destes para combater Batista, não lhe deram nada, nem a nenhum destes senhorzinhos se importou. Por que? Porque eles seguiam tendo Cadillacs, eles seguiam tendo seus clubes aristocráticos, tendo um governo que garantia seus interesses, seus latifúndios, sua vida frívolas, sua vida, em geral, de gente corrompida e de gente que se dedica exclusivamente a viver bem. E esses senhores então, não tinham nenhuma preocupação política. Que preocupação podiam ter? A preocupação quem tem é o trabalhador, ou o camponês; eles não, eles viviam muito bem.
    Em troca, agora sim; quando se acabaram com os clubes aristocráticos, acabou o parasitismo, acabou para eles a vagabundagem, acabou a boa vida as custas dos trabalhadores e as custas dos camponeses, então foram para lá e encontraram a um governo ianque disposto a dar-lhes tanques, dar-lhe bazucas e dar-lhes canhões para vir aqui derramar sangue de trabalhadores e de camponeses (Aplausos).

Estes senhores falavam de eleições. Que eleições, queriam?, as eleições dos politiqueiros compradores de votos que tinham dezenas de agentes que se dedicavam a corromper consciências? Aquelas eleições em virtude das quais um homem infeliz ou mulher do povo teria que entregar sua cédula para que eles lhe dessem emprego e tinham que ir alí os professores, tinham que ir ali os profissionais e todos a mendigar em favor dos políticos para que ele lhes dessem emprego? Aquelas eleições falsas e prostituídas que não representavam senão o procedimento por meio do qual as classes exploradoras, através de seus advogados e através de seus políticos se mantinham no poder e com o poder todo aquele regime de miséria e de fome sobre o povo? Aquelas eleições que quando não eram golpe militar, como aconteceu na América Latina, eram eleições desse tipo de politiqueiros?

Existem muitos pseudo-democratas na América Latina. O que é preciso perguntar é quantas leis eles fizeram em favor dos trabalhadores, quantas leis fizeram em favor dos camponeses, onde está a reforma agrária e onde está a nacionalização do petróleo, onde está a nacionalização das minas, onde está a nacionalização das indústrias. Isso é o que tem de ser perguntado a eles (Aplausos).
Porque a Revolução é uma expressão direta da vontade do povo, não uma eleição a cada 4 anos, uma eleição todos os dias, é constantemente dar ouvido as necessidades, é uma constante reunião com o povo; reuniões como estas que somando todos os votos que conseguiam comprando os partidos politiqueiros, nunca puderam somar tanto como o número de homens e mulheres que espontaneamente e de maneira entusiasmada vem aqui no dia de hoje apoiar a Revolução (Aplausos).

E como a Revolução é uma mudança profunda e não uma perda de tempo, o que é que queriam estes senhores, politicagem, panfletos eleitorais, postes cheios de todos aqueles descarados com chapéus panamá? Eleições como aquelas, não; eleições como aquelas não as teremos. Porque? Porque a Revolução simplesmente mudou o conceito de democracia falsa, da pseudo-democracia como meio de exploração das classes dominantes por um sistema de governo direto do povo e para o povo, como demonstram os fatos (Aplausos). (...)"
Notas:

[1] Pioneiros são os as crianças cubanas que estudam no que seria equivalente aqui ao ensino fundamental.
[2] Refere-se aqui à organização nacional chamada Federação de Mulheres Cubanas (FMC).
[3] A invasão do qual se fala é a invasão e a tentativa de derrocada do governo revolucionário por meio de mercenários ocorrida em 1961 com envolvimento dos Estados Unidos que ficou conhecida como A Batalha da Praia Girón ou a Invasão da Baía dos porcos.
[4] Em Cuba as regiões ao leste de Havana, que são menos urbanizadas, são chamadas de “oriente”.
[5] Medida cubana para extensão da terra. 1 caballería é igual a mais ou menos 33 acres e 1000 caballerías são equivalentes a mais ou menos 33161.5 acres.

Tradução da Equipe do Fuzil contra Fuzil