Em 13 agosto de 2016, Fidel Castro, o Comandante en Jefe da Revolução Cubana, completa 90 anos de vida
Fundamentalmente, aos que são jovens em nossos tempos e que conhecem um pouco da história, em um momento em que as agressões que sofrem os povos se multiplicam, quando a realidade nos impõe uma das maiores tarefas da história da humanidade, dar-se conta de que em nosso planeta, enquanto pensamos, escrevemos e lutamos, respira, vive e pensa, ao completar 90 anos, Fidel Castro Ruz é, sem dúvida, inspirador.
Fundamentalmente, aos que são jovens em nossos tempos e que conhecem um pouco da história, em um momento em que as agressões que sofrem os povos se multiplicam, quando a realidade nos impõe uma das maiores tarefas da história da humanidade, dar-se conta de que em nosso planeta, enquanto pensamos, escrevemos e lutamos, respira, vive e pensa, ao completar 90 anos, Fidel Castro Ruz é, sem dúvida, inspirador.
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Fidel Castro, 15 de fevereiro de 1965. |
Não
porque se Fidel não estivesse fisicamente presente, como passaram e passarão a estar os grandes homens e mulheres da humanidade, seria
menor sua capacidade de inspirar àqueles que almejam a honra de
serem revolucionários.
Mas,
porque, de forma bastante simples, o fato de Fidel permanecer por mais de 70 anos combatendo, das diversas formas, carregando fuzis, liderando
seu povo, enfrentando o imperialismo, e o fato de hoje estar vivo, são capazes de nos fazer lembrar que os grandes líderes revolucionários
são também homens de carne e osso, o que os torna muito mais
impressionantes, muito mais reais e, paradoxalmente, seus feitos
muito mais fantásticos. Saber que são homens de carne e osso nos
impõe grandes responsabilidades.
É
justamente essa realidade, essa materialidade de sua dedicação, que
converte Fidel, como aos grandes homens e mulheres dos séculos, em
exemplo a se seguir. Nem santos e nem filhos de deuses têm o poder
que um homem de carne e osso tem para inspirar e impelir à luta.
Os
líderes revolucionários reais não só impelem os bons ao combate, mas também assustam e atordoam aos opressores. Sua própria existência é uma constante advertência, um alerta: “Somos sim os homens e mulheres
mais avançados que servem à causa dos povos, mas não somos filhos
de milagres, frutos da predestinação do milênio ou do acaso, somos
o simples resultado do desenvolvimento histórico da sociedade, das
contradições que a luta de classes engendra. E, como nós, mais cedo
ou mais tarde, muitos outros notarão as tarefas que tem de ser
realizadas e arregaçarão suas mangas. Não estamos sozinhos, porque essa marcha é
inevitável.”
E, dessa marcha inevitável faz parte Fidel Castro, homem de carne e osso, que tem sua própria história.
Nasceu
no ano de 1926, em Birán, pequena cidade do oriente de Cuba. Filho
de Ángel Castro Ruz, espanhol que era dono de terras e relativamente
rico, Fidel foi alfabetizado muito cedo, pois tinha que acompanhar seu irmão
mais velho à escola, ainda que não tivesse idade para frequentá-la.
Logo, aos seis anos de idade, foi enviado à cidade de Santiago de
Cuba para que estudasse em colégios de jesuítas.
Sua
infância localiza-se em período de extremo conflito político na
História de Cuba. O então sargento Fulgêncio Batista – o mesmo
que seria derrubado pelo movimento liderado por Fidel 20 anos depois – já iniciava sua carreira como executor de golpes miltares, e, com
apoio da embaixada dos Estados Unidos, em 1934, dissolvia, mediante
os fuzis do exército, um governo fruto de lutas populares e composto
por elementos nacionalistas, o Governo dos Cem dias.
Adiante,
como homem forte dos Estados Unidos, Batista alternaria na cabeça
do Estado representantes sob seu controle. Seria eleito presidente
de Cuba em 1940, após ter, em um momento, realizado amplas
perseguições e, em outro, acenado às anistias como tentativa de
legitimar-se.
Em
meio a tudo isso, a adolescência de Fidel seria como a de muitos
outros de sua classe de origem, um tanto quanto desligada dos
acontecimentos políticos, com maiores preocupações como a prática
dos esportes e suas férias no campo.
Somente
mais tarde suas inquietudes se fundiriam definitivamente a sua
personalidade, como resultado de todo um processo de aprendizado.
Processo no qual foi imprescindível sua disposição de abrir mão das
ambições individualistas, típicas dos homens de
sua classe e de seu entorno.
Em 1945, aos
19 anos, ingressou na Universidade, em Havana, como
mais um entre tantos jovens, esportista, espirituoso, e sem qualquer
experiência ou conhecimento político, exceto alguma intuição e
certo sentido de justiça derivado daquele contato mais imediato com
os trabalhadores no campo e a repressão aberta que a gente humilde
sofria do exército.
Ao
ingressar na universidade, Fidel era mais um.
“Tinha
me matriculado na Escola de Direito, todos os dias eu tinha que sair
para a Universidade, pegar ônibus, por vezes dois – pelo menos um
sempre muito super-lotado –, havia que pegá-los e descer de pressa,
porque os ônibus jamais paravam, depois caminhava uns quantos
quarteirões…”, como relata. (1)
Mas
esse mais um, conscientemente, pouco a pouco, foi ingressando nas
atividades estudantis, num local que guardava em sua História forte tradição de vínculo aos interesses das massas populares. Da
Universidade haviam saído muitos daqueles que formaram o governo
progressista derrubado por Batista, muitos dos que haviam lutado
contra as oligarquias e ditaduras, além dos que combateram as
intervenções norteamericanas e o colonialismo espanhol.
No entanto, a memória de tal tradição de lutas, às quais o jovem Fidel era
simpático, encontrava realmente poucos herdeiros sinceros. A
tradição estava esmorecida pelo tempo, pela politicagem e
acomodação de certos partidos e políticos, que também se
proliferavam no movimento estudantil. Além do mais, “era uma
universidade burguesa e de pequenos burgueses, com muitos poucos
jovens procedentes de classes trabalhadoras”. (2) Uma Universidade para as
elites, como muitas na América Latina.
Do jovem filho de fazendeiro ao revolucionário, certamente,
não foi um caminho fácil.
A
primeira atividade pela qual Fidel teve contato com círculos amplos
de estudantes não foi propriamente o trabalho de caráter político.
Fazia algo muito mais simples: começou como um representante de
turma que se dedicava com afinco.
“Acho
que comecei a distinguir-me entre os restantes dirigentes da Escola
de Direito porque peguei a trabalhar a sério; jamais pensei que
seria ajudado com uma nota ou que faria articulações para que um
aluno recebesse uma qualificação não merecida. Não se tratava de
que exercesse influência no professor, mas sim que ajudasse os
estudantes em questões práticas relacionadas com os estudos. (…)
Minhas primeiras atividades foram desse tipo, não era um programa de
reformas universitárias nem um programa político. Realizava uma
série de serviços úteis aos estudantes. Não lhes dizia: 'votem
em mim'”. (3)
E a
seriedade desde as tarefas mais simples, a marca que seria seu
caráter distintivo durante toda trajetória, fez que, pouco a
pouco, encontrasse o reconhecimento de seus pares e avançasse na
atividade política, sendo eleito como representante na Federação
Estudantil Universitária, a FEU.
A
partir daí, passou a ter contato maior com a política,
aperfeiçoando seus conhecimentos e combatendo as práticas do
governo que havia se instalado: a tão perversa quanto usual
associação oligárquica e a corrupção institucionalizada
predominante nos países atrasados, como era Cuba. Diferenciando-se
dos envolvidos nas rixas partidárias, que beiravam ao gangsterismo,
foi na universidade que se fez revolucionário.
Mas
não como e por um passe de mágica, como se houvesse algo como uma
revelação de um dom político ou de uma habilidade inata.
O
que é verdadeiro e, paradoxalmente, muito mais incrível do que a
explicação que beira ao místico, justamente por seu aspecto real,
é o argumento oferecido pelo próprio Comandante. O que o formou
como revolucionário nesse período foi sua sinceridade com aquilo
que acreditava que merecia sua atenção. Foi sua consequência que
fez que pegasse “a trabalhar em sério”. Trabalhar em sério,
com disciplina e espírito de sacrifício, foi o que o fez
revolucionário.
Foi
o que fez com que, passo a passo, frente aos desafios que se
impunham, o jovem Fidel fosse colocando sua própria capacidade a prova, não sem inúmeros riscos, como fizeram todos os grandes
revolucionários, despindo-se em cada ação daqueles resquícios do individualismo próprio do meio de onde provinha.
Isso se ilustra, por exemplo, no fato de que, quando jovem, a atividade de
Fidel não se resumiu a estar na oposição ao governo de seu país,
nem de manter a posição confortável de acusador a distância.
Demonstrava seu internacionalismo, ainda que não tivesse descoberto o marxismo.
Notava a opressão comum e estava resolutamente ao lado dos povos
latino-americanos.
Justamente
por essa solidariedade – que não era só de palavras – Fidel,
por meio de um comitê em solidariedade à República Dominicana,
embarcou em uma expedição militar que objetivava derrubar o governo
do ditador Trujillo. Aos 19 anos ingressava em sua primeira ação
armada, porque levava as coisas a sério.
Pouco
tempo depois, na Colômbia, organizaria um Congresso de Estudantes de
toda América Latina, de cunho anti-imperialista, que coincidiu com
as revoltas populares do bogotazo,
quando do assassinato do candidato liberal à presidência do país, Jorge
Eliecér Gaitán. Nessas revoltas, Fidel tomou parte ativa ao lado
povo, juntando-se aos insurretos e
combatendo. Tinha
somente 21
anos.
Nesse meio do caminho, teria contato com o socialismo científico:
"As ideias do marxismo-leninismo caíram em mim como água no deserto." (4)
Desses
acontecimentos ao seu trabalho como advogado na defesa desinteressada
daqueles que o solicitavam; a sua resistência ao segundo
golpe de Batista; ao Assalto ao Quartel Moncada; ao Desembarque do
Granma; à luta na Sierra; à tomada do poder; ao combate da invasão
mercenária de Girón; à posição abnegada durante a Crise dos
Mísseis; à consolidação do socialismo em Cuba; à mobilização
do povo em todos os momentos; à resistência no dificílimo período
da queda da URSS, nota-se que Fidel forjou a si próprio em
grandes combates, com o espírito que lhe é característico e que
tem sua força aglutinadora. Nota-se que há algo em seu exemplo que
deve ser seguido, que é universal na conduta dos revolucionários: a
capacidade de doar-se, oferecendo a própria vida à causa de seu
povo, a todo momento, seriamente.
Espírito
tão bem sintetizado por Guevara:
“E
se nós estamos hoje aqui e a Revolução Cubana está hoje aqui, é,
simplesmente, porque Fidel entrou primeiro no Moncada, porque desceu
primeiro do Granma, porque esteve primeiro na Sierra, porque foi à
Playa Girón em um tanque, porque quando havia uma inundação houve até briga porque não o deixaram entrar… porque tem como
ninguém em Cuba, a qualidade de ter todas as autoridades morais
possíveis para pedir qualquer sacrifício em nome da Revolução." (5)
Mas Fidel não é um mito, é um homem real. E, dessa forma – ainda
que seja comparável aos mitos, porque muitos de seus feitos não encontram qualquer desvantagem frente
ao que é atribuído às figuras mais incríveis e heróicas das epopéias –, por ser homem de carne e osso, é muito maior do que todas essas figuras somadas. É maior porque é o que há de mais humano, porque
respira e atua como humano, porque, por ser humano, como diz Guevera,
“tem a qualidade de ter todas autoridades morais possíveis para
pedir qualquer sacrifício em nome da Revolução”, porque é a prova cabal de que os homens podem realizar obras colossais.
Fidel
é o homem de carne e osso que arregaçou suas mangas colocando-se a
trabalhar seriamente pela causa dos povos durante mais de 70 anos. Justamente por isso, por sua seriedade de combatente incansável e leal, não só provoca calafrios nas classes dominantes, como seu exemplo conclama, a todo instante, homens e mulheres dos diversos cantos do planeta a que sirvam integralmente à causa das classes exploradas.
Os
povos do mundo não poderiam ter melhor inspiração.
Equipe
do Fuzil contra Fuzil.
Notas:
(1) – “Fidel Castro Ruz, Guerrilheiro do Tempo – Conversações
com o líder histórico da Revolução Cubana”(2012), Katiuska
Blanco Castiñera, Rio de Janeiro, Editora Ebendinger, Livro I,
p.270.
(2)
– Ibidem, p. 303.
(3) – Ibidem, p. 303.
(4) – Ibidem, p. 448.
(4) – Ibidem, p. 448.
(5) – “El Che en Fidel Castro, Selección temática 1959-1997” (2007),
Havana, Editoria Política, p. 205-206.
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