segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Yusnaby Pérez: o assalariado blogueiro independente


Seja sobre Cuba, sobre a República Popular Democrática da Coreia, sobre a antiga URSS, antigos países socialistas do leste Europeu, ou qualquer país que de alguma forma afete ou tenha afetado os interesses norte-americanos e de seus aliados, é costume nos grandes meios de comunicação que sejam entrevistados “dissidentes” e “perseguidos” de tais países que de alguma forma apresentam certa resistência ao imperialismo norte-americano.
Uma rápida pesquisa, no google, poderia, entretanto, revelar a identidade de tais “dissidentes” e “perseguidos”, seus verdadeiros interesses, para quem trabalham, assim como desmentir grande coisa do que por eles é dito.
O artigo a seguir mostra como os meios de comunicação ocultam essas informações, centrais para qualquer pessoa com pouca informação sobre esses países compreender o que esses entrevistados efetivamente defendem e a credibilidade de seus argumentos. 

Traduzido pela equipe do blog Fuzil contra Fuzil

Apresentador de televisão argentino Jorge Lanata entrevista empregado da Casa Branca como se fosse blogueiro perseguido em Cuba 

Sexta-feira, 07 de novembro de 2014
 

O conhecido apresentador de televisão argentino Jorge Lanata convidou Yusnaby Pérez ao seu programa de rádio, um suposto “blogueiro independente” cubano que reconhecia abertamente que é Cubanet quem paga suas crônicas contra o governo de seu país. Mas nem o apresentador nem os outros três entrevistadores do programa perguntaram ao convidado o que é Cubanet, uma informação que teria sido importante para a audiência. Porque Cubanet é um projeto criado pelo governo dos Estados Unidos e financiado, desde 1994, com fundos anuais das agências norte-americanas USAID e NED. Yusnaby Pérez, portanto, não é um “blogueiro independente”, mas um assalariado altamente “dependente” da Casa Branca.


Apresentador de televisão argentino Jorge Lanata entrevista empregado da Casa Branca como se fosse blogueiro perseguido em Cuba

José Manzaneda, coordenador do Cubainfomación. - O conhecido jornalista e apresentador de televisão argentino Jorge Lanata convidou a seu programa de radio Yusnaby pérez (1), um suposto “blogueiro independente” cubano que reconhecia abertamente quem paga suas crônicas contra o governo de seu país (2). “Você trabalha? - perguntou-lhe Lanata -. Sim, trabalho para um portal de notícias em Miami que se chama Cubanet - responde Pérez -, escrevo nele como jornalista. E você vive com esse dinheiro? Sim.” Curiosamente, nem o apresentador nem os outros três entrevistadores do programa perguntaram ao convidado o que é Cubanet, uma informação que teria sido importante para a audiência. Porque Cubanet é um projeto criado pelo governo dos Estados Unidos e financiado, desde 1994, com fundos anuais das agências norte-americanas USAID e NED (3). Yusnaby Pérez, portanto, não é um “blogueiro independente”, mas um empregado altamente “dependente” da Casa Branca. Não em vão seu nome, Yusnaby, é uma homenagem de sua família à Marinha dos Estados Unidos. “Yusnaby vem de US Navy? - pergunta-lhe Lanata -. Exatamente - responde Pérez, orgulhoso -. Claro, devido à Marinha Americana, US NAVY, deram-lhe o nome de Yusnaby - esclarece o apresentador -”.

Durante o programa, algumas das acusações que Yusnaby Pérez fez contra o Governo cubano foram quase infantis: “Existe uma resolução do Ministério do Trabalho que diz que está proibido acessar redes sociais como Facebook e Twitter, e só por isso não podem acessá-las, porque expulsam-lhes do trabalho” - sentencia Yusnaby Pérez -. Por que nenhum dos quatro entrevistadores esclareceu ao convidado que nos locais de trabalho da Argentina tampouco é permitido perder tempo com o Facebook? Um exemplo: nos Estados Unidos, em 8% das empresas com mais de 1000 empregados, foi demitida, pelo menos, uma pessoa por essa mesma razão (4). 

O jovem disse, além disso, mentiras gritantes, como “muito pouca gente (em Cuba) sabe o que é uma página da web ou um e-mail”. E afirmou que em Cuba não chega internet aos domicílios por decisão do Governo, não por falta de recursos. “Existe um cabo de fibra ótica que vem da Venezuela que custou milhões de dólares. (...) Já Cuba tem a infraestrutura necessária para ter internet em casa e de alta velocidade”. Quer dizer, o Governo cubano teria gastado 70 milhões de dólares no tal cabo para não colocá-lo em funcionamento? Absurdo (5). Lembremos que em 2013, com sua colocação em funcionamento, a conexão à internet melhorou parcialmente, o que permitiu abrir umas 120 salas de navegação: algo que contradiz essa suposta “política de restrição” da internet (6). Mas, ainda é necessária em Cuba um importante investimento em infraestrutura interna para aumentar a velocidade e pontos de conexão. A companhia telefônica Etecsa confirmava recentemente que o objetivo final é levar internet aos domicílios (7). O próprio Yusnaby Pérez se contradizia, sem querer, e reconhecia que o Governo cubano, sim, aposta por desenvolver a internet e as redes sociais. “Você diz - tomava a palavra outro interlocutor - não posso me desenvolver em Cuba porque, obviamente, o que eu estudei tem a ver com as redes sociais, algo que em Cuba não existe. Como é uma profissão pensada para formar gente em plataformas que não podem ser utilizadas? Eles (o Governo) - respondia Yusnaby - estão pensando que em um futuro será possível”. Quer dizer, reconhecia que a vontade do Governo cubano não é restringir a Internet e as redes sociais, mas, sim, desenvolvê-las - em um futuro - na medida em que as condições econômicas o permitam. 

Um dos momentos extraordinários do programa chegou quando o convidado tratou de derrubar por terra as conquistas da educação em Cuba. “Por exemplo, o que acontece com a educação? Que tem um grande deficit de professores e tem adotado um método de aulas pela televisão. Em cada sala de aula há um televisor e colocam um vídeo e é esse vídeo que te ensina matemática, história, física, química, etc. - afirmava. Mas isso (acontece) em quantas escolas do total? - perguntou, então, Lanata. Em todas - respondeu Pérez”. Os entrevistadores pulavam indignados: “É incrível. Está me dizendo que em nenhuma escola há professores vivos, senão uma televisão em cada sala de aula? - intervinha de novo, horrorizado, o apresentador”. As chamadas “tele-aulas”, implantadas em toda Cuba em 2002, jamais suprimiram o professorado. É certo que houve erros e abusos em sua utilização, mas o que o blogueiro relata é sua caricatura exagerada e generalizada (8). Como, então, a UNESCO, em seu último informe mundial 2013-2014, outorga a Cuba o melhor “Índice em Desenvolvimento da Educação” da América Latina e do Caribe? (9) Em quem devemos acreditar, na UNESCO ou em um blogueiro pago pelo Governo dos EUA?

Em outro momento, o entrevistado falava dos problemas para viajar para fora de Cuba. E reconhecia que o obstáculo não é posto pelo Governo da Ilha, senão pelos vistos de entrada dos países que o recebem (10). “O que te pediram, por exemplo, para entrar (na Argentina)? - perguntou-lhe Jorge Lanata - Me pediram (na embaixada da Argentina) 500 dólares de entrada mais 60 dólares por cada dia que eu fique (aqui). Isso eu tenho que tê-lo em mente, em Cuba”. Mas o apresentador, no limite do cinismo, culpabiliza também por isso... o Governo cubano: “Não, mas isso deve ser um pedido do Governo cubano ao argentino”.

Jorge Lanata ostentava uma desatualização total em relação à realidade de Cuba. Perguntou ao convidado por realidades que desapareceram a mais de 20 anos, como lojas para os corpos diplomáticos: “Existia uma coisa que aqui talvez não seja conhecida e que queria que nos contasse sobre, as ‘diplotiendas’ (diplolojas), eu não sei se continuam existindo as ‘diplotiendas’?”. E, também, sobre o mercado paralelo de dólares em Cuba, algo que também desapareceu a décadas: “E no mercado negro qual é a relação entre o peso e o dólar?” (11).

Este conhecido jornalista do Grupo Clárin (12) deixava bem claro o objetivo de seu programa: convencer de seu “erro” as pessoas que na Argentina ainda apoiam a Revolução cubana. “Na Argentina existe muito esnobismo ideológico. Existe muita gente que defende o regime cubano mas que nunca viveria nele. E me perguntava o que diria um rapaz da Campora, das juventudes da esquerda partidária, frente a argumentos como estes.”

Para isso, nada melhor do que apoiar-se em mensagens da audiência cuidadosamente selecionados: “Há um monte de mensagens. No Twitter, exatamente, Erika nos diz: por aqui é difícil de acreditar que exista alguém que defenda essa maneira de fazer as pessoas viver, que é um espanto”.

A fraude deste personagem, Yusnaby Pérez, podemos comprovar em outra entrevista que dava para o jornal diário espanhol “O Mundo”, onde assegurava que preferia “manter o seu rosto oculto”, porque mostrá-lo seria “muito perigoso” (13). E dizia isso apenas uma semana antes de aparecer, com a cara descoberta, em vários jornais da Argentina, onde, certamente, afirmava o contrario: “Creio que, enquanto em Cuba eu estiver a salvo e minha vida não corra perigo, ficarei lá. Em algum momento tiveste problemas políticos ou policiais? - perguntou-lhe o apresentador -. Até o momento não tive nenhum, graças a Deus - respondeu o convidado -”.

Isso nos sugere uma interessante pergunta: quantos dos 60 jornalistas assassinados na America Latina nos últimos dois anos faleceram em Cuba (14)? É uma pena que para Jorge Lanata e para seu séquito de bajuladores, esta pergunta ficou-lhes também no fundo da gaveta.



Notas:
 (1) https://www.youtube.com/watch?v=0JikPW-oj5w